“Faraó guerreiro, consciente e determinado,
Ostentavas todas as insígnias reais do teu nobre Império.
E trazias impresso no rosto o selo da sorte e do mistério,
Mas guardavas no peito cruel saudade de um rosto amado...
(...) Tutankhamun, Que tão prematuramente partiste.” Arádia Raymon, jornalista, poetisa, cronista e escritora
O sarcófago de Tutankhamun ou Tut-Ankh-Amun (Tut significa “imagem viva” ou “semelhança”, Ankh “vida” ou “viver” e Amun refere-se ao grande rei dos deuses do antigo Egito, e que quer dizer “o oculto” ou “o invisível”) localizado 3.200 anos após ter sido sepultado,
O jovem faraó Tutankhamun com a coroa branca do Alto Egito. O busto de madeira integra o rico conjunto de objetos funerários produzidos para acompanhar o soberano em sua jornada após a morte. ▪ Foto: Harry Burton, 1923
é um dos artefactos mais icónicos e fascinantes da antiga civilização egípcia. Descoberto em 1922 pelo arqueólogo britânico Howard Carter, no Vale dos Reis, em Luxor, o sarcófago faz parte do conjunto funerário do jovem faraó, que reinou durante o período conhecido como o Novo Império, por volta de 1332-1323 a.C., um período marcado pelo colapso das reformas religiosas de seu antecessor, o célebre “rei herege” Akhenaton (1353-c. 1336 a.C.), conhecido por “Aquele que louva Aton”, “o Deus Sol”, que aboliu as tradicionais crenças religiosas e práticas do Antigo Egito e instituiu um modelo próprio de monoteísmo.
A importância da descoberta do túmulo, revelando uma grande quantidade de peças funerárias preservadas, foi imensa e tornar-se-ia num acontecimento marcante para a arqueologia, proporcionando um fascínio cultural e um vislumbre inigualável da riqueza e sofisticação do Antigo Egito que mudaria para sempre a Egiptologia e a Egiptomania.
Howard Carter (1874–1939), arqueólogo britânico que liderou a descoberta da tumba de Tutankhamun no Vale dos Reis, em 1922. Após anos de escavações e persistência, seu trabalho revelou um conjunto funerário extraordinariamente preservado.
Em meados de 1905, o arqueólogo Inglês Howard Carter, especialista em escavações egípcias que, ao longo de cerca de trinta anos a explorar túmulos antigos no país já tinha feito algumas descobertas, ainda que não muito significativas, passou a trabalhar em conjunto com George Edward Stanhope Melyneux Herbert (conhecido como Lord Carnarvon), um nobre inglês, colecionador de antiguidades, herdeiro de uma família milionária de Inglaterra, que financiou toda a escavação com o objetivo inicial de desenterrar vários pontos do Egito em busca de alguma descoberta relevante.
A relação entre os dois seria cordial, porém suspicaz, devido ao ceticismo de Carnarvon relativamente aos resultados pouco expressivos de Carter, que inclusivamente estaria decidido a encerrar a campanha de escavações por acreditar que não havia mais nada no Vale dos Reis. Contudo, Carter tinha um plano para convencer o seu financiador a continuar as buscas, tendo usado o argumento de que havia indícios sobre a localização da tumba de um faraó chamado Tutankhamun da XVIII dinastia.
George Herbert, 5º Conde de Carnarvon (1866–1923), financiou as escavações de Howard Carter no Vale dos Reis. Seu apoio permitiu a continuidade das buscas que culminaram, em novembro de 1922, na descoberta da tumba de Tutankhamun, preservada com milhares de objetos funerários.
Nos primeiros dias de novembro de 1922, Carter começou o que seria a última temporada de escavações, dando início a um trabalho de triangulação de terra inexplorada logo por debaixo da tumba de Ramsés VI. A primeira prioridade passava por retirar as cabanas dos antigos trabalhadores num povoado atualmente chamado Deir el-Medina. Carter fez um registo das construções para a posteridade e elas foram então desmontadas para que a equipa pudesse escavar o leito rochoso do Vale. A operação envolveu pelo menos 50 trabalhadores locais, contratados por Carter, a que se somaram quatro empreiteiros egípcios e vários médicos e profissionais do setor da cultura.
1922: Vista do Vale dos Reis, na margem ocidental do rio Nilo, próximo a Luxor. Foi nesse cenário desértico que Howard Carter localizou, em novembro de 1922, a tumba de Tutankhamun, escondida sob camadas de detritos e preservada por mais de três mil anos. Foto: Harry Burton, 1922
No dia 4, as confiantes intuições de Carter concretizar-se-iam, ao serem descobertos os primeiros dezasseis degraus íngremes da tumba de acesso à antecâmara que conduziam a uma porta trancada com a imagem de um chacal (deus Anúbis), guardião místico da câmara e o guia do faraó no além-mundo.
A porta selada da entrada do túmulo (conhecido como KV62), na margem ocidental do Nilo, soterrada sob antigos detritos de cabanas de trabalhadores, consistia de um nó de corda em forma de braço que envolvia uma das maçanetas de
Howard Carter (ajoelhado), um trabalhador egípcio e Arthur Callender examinam os santuários de madeira dourada que envolviam os sarcófagos de Tutankhamun. ▪ Foto: Harry Burton, 1924
cobre e um selo de argila real, antigo e intacto (à direita) com a figura do deus chacal Anúbis, sobre os nove prisioneiros (pedjet psedjef ou “nove arcos”), figuras de cativos com as mãos atadas personificando o domínio absoluto e a proteção real exercida pelo deus chacal sobre os inimigos tradicionais do Egito, os povos estrangeiros subjugados (povos núbios e africanos ao sul, povos asiáticos e do Próximo Oriente a leste, tribos líbias a oeste). O número nove era usado na numerologia egípcia como um plural intensivo (três vezes três) para significar “todos os inimigos possíveis”. Um dos segredos da durabilidade da corda é justificada pela aridez do ar no deserto, que seca e preserva os materiais. Outro fator crucial é a privação de oxigénio. Os túmulos são selados para o exterior. As bactérias podem decompor as coisas enquanto houver oxigénio, mas depois disso acabam sufocando-as. O Egito foi a primeira civilização documentada a usar ferramentas especializadas para fazer cordas. Aliás, arqueólogos encontraram em pirâmides e tumbas cordas de duas camadas que datam de 28.000 anos atrás.
A corda de linho e o selo de argila intacto lacravam a entrada da tumba de Tutankhamun quando Howard Carter a encontrou, em novembro de 1922. O emblema de Anúbis sobre os "nove arcos" simbolizava a proteção do faraó e o domínio do Egito sobre seus inimigos, indicando que o sepultamento permanecera fechado desde a Antiguidade. ▪ Foto: Harry Burton, 1922
“Finalmente fiz uma descoberta maravilhosa no Vale, uma tumba magnífica com selos intactos. Uma porta selada! (...) Com uma excitação que se transformou em queimadura febril procurei os selos da porta, procurando provas sobre a identidade do dono do lugar (...) encontrado o conhecido selo da necrópole real, o chacal e nove cativos (...) os selos intactos do túmulo de um rei, o Rei Tutankhamun”, escreveu o egiptólogo num telegrama datado de 6 de novembro de 1922, enviado a Lord Carnarvon.
Os dezesseis degraus escavados por Howard Carter em 4 de novembro de 1922 conduziam à entrada selada da tumba de Tutankhamun, no Vale dos Reis. ▪ Foto: Harry Burton, 1922
No seu diário, Carter descreveria o emaranhado de tesouros como uma “estranha e maravilhosa mistura de artefactos belos e extraordinários empilhados uns sobre os outros. Anotou:
“4 de novembro, os primeiros degraus da tumba foram encontrados (...) A princípio, não conseguia ver nada, o ar quente que escapava da câmara fazia a chama da vela tremeluzir (...) “mas, aos poucos, à medida que os meus olhos se acostumavam à luz, os detalhes do interior do aposento emergiram lentamente da neblina, animais estranhos, estátuas, e ouro, por todos os lados o brilho do ouro. Por um momento, para os demais ao meu lado, deve ter parecido uma eternidade, fiquei em estado de choque, maravilhado, e quando Lord Carnarvon, incapaz de aguentar o suspense por mais tempo, perguntou, ansiosamente, 'Pode ver alguma coisa?', tudo o que pude fazer foi dizer as palavras “Sim, coisas maravilhosas”.
Lord Carnarvon e Howard Carter caminham pelo Vale dos Reis durante a campanha de escavações que levou à descoberta da tumba de Tutankhamun. A parceria entre o financiador e o arqueólogo britânico foi decisiva para a continuidade das buscas que culminaram, em novembro de 1922, em um dos grandes marcos da arqueologia. ▪ Foto: Harry Burton, 1922
No dia 24 de novembro, Carnarvon e sua filha, Lady Evelyn Herbert, juntar-se-iam a Carter no Vale dos Reis, ansiosos por abrir os selos da tumba. Dois dias depois, foram finalmente retirados os selos e a equipa deparou-se com um corredor escuro, que levava a um anexo com 4,4 metros de comprimento por 2,6 metros de largura, originalmente construído para servir de depósito de óleos unguentos, alimentos (bacias cheias de grãos) e vinhos, que continha vasos quebrados e mais de dois mil objetos empilhados uns sobre os outros
Baú de madeira encontrado na antecâmara da tumba de Tutankhamun, fotografado exatamente na posição em que foi descoberto por Howard Carter. ▪ Foto: Harry Burton, 1922
com desenhos representando momentos em que o faraó realizava as suas atividades quotidianas (acreditava-se que após a morte estas representações tornar-se-iam reais), nomeadamente alimentos, vestimentas, móveis, camas, cadeiras, tronos, uma escultura de Anúbis, carruagens, tabuleiros de jogos, baús, um pequeno santuário dourado, uma caixa decorada, bengalas com 1,20 metros (indicando seu papel ritual e simbólico, além de utilitário), entre outros itens.
Entre estes artigos, relevam-se ainda estátuas douradas que simbolizavam o poder divino e a passagem do faraó para a vida após a morte. Contudo, a ideia de que todas essas estátuas seriam feitas de ouro maciço é imprecisa, uma vez que a maioria era de madeira revestida com folha de ouro, enquanto peças menores e certos artefactos continham ouro em maior quantidade.
A antecâmara da tumba de Tutankhamun foi encontrada repleta de objetos empilhados, entre eles carruagens desmontadas, camas cerimoniais, mobiliário, baús e utensílios destinados a acompanhar o faraó na vida após a morte. A disposição aparentemente caótica ocultava um conjunto funerário preservado durante mais de três mil anos. ▪ Foto: Harry Burton, 1922
Entre as estátuas encontradas, duas figuras notáveis retratam Tutankhamun na sua forma real e divina, ambas cobertas com folha de ouro sobre um núcleo de madeira. Essas esculturas, medindo aproximadamente 1,90 metros, representam o faraó em posturas ritualísticas: numa delas segura um bastão e um cetro, enquanto a outra carrega uma clava/cajado (simbolizando o seu papel como o pastor do seu povo) e um mangual (símbolo do papel do faraó como provedor de alimentos para o seu povo). Além destas, diversas outras figuras representavam deuses como Osíris, Anúbis e Ísis, destacando-se pela minuciosidade artística e pelo simbolismo religioso.
Duas estátuas em tamanho natural guardavam a entrada da câmara funerária de Tutankhamun. Revestidas com folha de ouro sobre um núcleo de madeira, simbolizavam a proteção do faraó e marcavam a passagem para o recinto onde repousavam os santuários, os sarcófagos e a múmia do jovem rei. ▪ Foto: Harry Burton, 1922
O ouro era um material crucial na iconografia egípcia, associado ao brilho do sol e à carne dos deuses. A sua presença nas estátuas de Tutankhamun reforçava a ideia de que o jovem rei, ao morrer, se tornaria num ser divino no Além. Estudos realizados sobre os objetos do túmulo indicam que a técnica de douramento utilizada incluía tanto a aplicação de folhas de ouro como a incrustação de pedras semipreciosas para realçar os detalhes.
Como mais notório destacar-se-ia a célebre máscara fúnebre feita de duas camadas de ouro com o peso de 10 quilos, representando o rosto do faraó (reforçando a sua imagem como uma divindade
A máscara funerária de Tutankhamun, confeccionada em ouro e adornada com lápis-lazúli, quartzo, obsidiana e outras pedras ornamentais, cobria o rosto da múmia dentro do caixão mais interno. ▪ Museu Egípcio do Cairo
no além-vida), e o sarcófago principal composto por três caixões antropoides (encaixados um dentro do outro). O caixão externo, feito de madeira e folheado a ouro, com decorações em azul e vermelho, representava o faraó como Osíris, o deus dos mortos. Com aproximadamente 2,24 metros de comprimento, é ricamente ornamentado com inscrições hieroglíficas que invocam proteção divina para o faraó no além.
O segundo caixão, também revestido em madeira dourada, é decorado com uma camada de ouro batido, vidro turquesa e pedras semipreciosas. Este possui uma aparência mais detalhada e refinada, mostrando Tutankhamun na sua forma divina, segurando os símbolos máximos de poder, autoridade e realeza egípcia, o cetro (heka; um bastão com uma ponta curva em forma de gancho, semelhante a um cajado de pastor, assinalando o papel do faraó como o guia benevolente que cuidava e protegia o seu povo, mantendo a lei e a ordem, Ma’at) e o flagelo/mangual (nekhakha; um chicote curto usado para malhar o trigo e que simbolizava a capacidade do soberano de prover alimentos e manter a terra fértil, além de impor a justiça sobre os transgressores), cruzados sobre o peito.
Os três caixões antropoides de Tutankhamun foram encaixados um dentro do outro para proteger a múmia do jovem faraó. O caixão externo (1) e o intermediário (2) são de madeira revestida de ouro, enquanto o terceiro (3), o mais interno, foi confeccionado em ouro maciço, refletindo a importância do soberano e as crenças egípcias sobre a vida após a morte. ▪ Museu Egípcio do Cairo
O terceiro e mais interno caixão é o mais notável de todos. Feito de ouro maciço, este caixão pesa cerca de 110,4 kg. A riqueza deste artefacto é impressionante, evidenciando a importância do faraó e a habilidade dos artesãos egípcios. Este caixão também mostra Tutankhamun em forma de Osíris, com as mãos cruzadas sobre o peito, segurando os emblemas reais. Dentro deste esquife de ouro foi ainda encontrado o famoso sarcófago de pedra, que protege a múmia do faraó. A múmia estava envolta em várias camadas de linho, e o rosto do jovem rei estava coberto pela famosa máscara mortuária de ouro, um dos símbolos mais reconhecíveis do Egito Antigo. A máscara, com os seus detalhes intrincados
O terceiro e mais interno caixão antropoide de Tutankhamun, com cerca de 110 quilos. A tampa reproduz o faraó com o nemes, a barba postiça e os emblemas da realeza egípcia. A múmia foi depositada neste caixão, com a célebre máscara funerária de ouro cobrindo seu rosto. ▪ Museu Egípcio do Cairo
e incrustações de pedras preciosas, destaca-se como uma obra-prima da arte funerária egípcia.
Os sarcófagos de Tutankhamun, além de seu valor artístico e histórico, oferecem uma visão profunda sobre as crenças religiosas e práticas funerárias do Egito Antigo. A atenção meticulosa aos detalhes e a riqueza dos materiais utilizados refletem a crença na vida após a morte e a necessidade de garantir que o faraó estivesse adequadamente preparado para sua jornada no Além.
Os sarcófagos tinham sido elaborados de forma minuciosa pois acreditava-se que simbolizavam a casa do espírito do faraó. O santuário Canópico (magnífica arca de madeira revestida a ouro, protegido pelas deusas Ísis, Neftis, Neith e Selket nos quatro cantos) guardava quatro pequenos ataúdes de ouro contendo os órgãos mumificados do faraó (intestinos, fígado, coração e pulmões) para que não apodrecessem dentro da múmia.
O Santuário Canópico de Tutankhamun, uma magnífica arca de madeira revestida de ouro, era protegido pelas deusas Ísis, Neftis, Neith e Selket, representadas nos quatro cantos com os braços estendidos em gesto de proteção. Em seu interior eram guardados quatro pequenos ataúdes de ouro contendo os órgãos mumificados do faraó, preservados separadamente para a jornada rumo à vida após a morte.
Passados tantos obstáculos, a equipa de arqueólogos que acompanhava Carter vislumbrou o corpo do faraó Tutankhamun queimado e enrijecido pelas resinas utilizadas no processo de mumificação. A 16 de fevereiro de 1923, depois de anos de dedicação a mais valiosa descoberta arqueológica da época fora finalmente alcançada.
Howard Carter e um auxiliar egípcio examinam a múmia de Tutankhamun durante os trabalhos de documentação e retirada do invólucro funerário. O faraó repousa no caixão antropoide de pedra encontrado na câmara sepulcral da tumba KV62. ▪ Foto: Harry Burton, 1922
Após concluídas estas explorações, Carter teve a astúcia de fechar os acessos àquele local e lançar um monte de entulho na via de acesso à escadaria. O trabalho de retirar da tumba os objetos, depois de numerados, fotografados e registados foi muito difícil, devido ao grande número de pertences e às suas condições de preservação (alguns estavam prestes a decomporem-se e não puderam ser salvos, designadamente tecidos, couros e cordões, enquanto outros sofreram mudanças ao sair do local e entrar em contato com o ambiente externo e pelo ambiente). Os trabalhadores foram orientados para que tivessem muito cuidado em todo o processo de extração.
A autópsia da múmia de Tutankhamun, realizada em 1925: as resinas empregadas na mumificação haviam aderido o corpo ao caixão e fixado a máscara funerária ao rosto, exigindo extremo cuidado durante o histórico exame conduzido por Douglas Derry e Saleh Bey Hamdi. ▪ Foto: Harry Burton, 1925
No dia 11 de novembro de 1925 foi feita a autópsia da múmia de Tutankhamun, com todo o cuidado no seu manuseio devido ao frágil estado do corpo. O professor britânico de Anatomia Douglas Derry, juntamente com o médico egípcio Saleh Bey Hamdi, realizou o histórico e invasivo desmembramento e exame anatómico da múmia. Ao serem desenroladas as ataduras pútridas, perceberam que o corpo estava colado ao sarcófago, a máscara mortuária fincada no rosto e a pele em condições deploráveis.
Na época de Tutankhamun, existiriam três processos de preparação do corpo de um morto, sendo que a sua escolha era feita de acordo com a classe social. Tutankhamun, por ser um faraó, teve a sua preparação o mais requintada possível. O seu cérebro foi retirado pelas aberturas nasais com o auxílio de um ferro em forma de anzol. Os outros órgãos, como a bexiga, o fígado, o estômago e os intestinos, foram retirados através de um pequeno corte efetuado na lateral do seu abdómem. O coração foi colocado num vaso canopo. Quando o corpo já estava todo limpo e sem as vísceras, foi preenchido com plantas e substâncias aromatizadas e posteriormente fechado e deixado coberto com sal durante 70 dias, após os quais se começou a envolver o corpo com panos de linho bem finos acrescidos de uma goma, utilizada como cola.
Os antigos egípcios desenvolveram um sofisticado processo de mumificação para preservar o corpo do falecido para a vida após a morte. Primeiro, retiravam os órgãos internos e eliminavam toda a umidade do corpo. Em seguida, envolviam a múmia com longas faixas de linho, que eram cobertas por um grande pano de linho. Esta animação apresenta, de forma resumida, as principais etapas desse ritual, tendo como exemplo a múmia romano-egípcia de Herakleides. ▪ YT Getty Museum
Findo este processo, acreditava-se que o morto seria guiado pelo deus Anúbis até ao Tribunal de Osíris para ser submetido a julgamento e ao veredito que decidia o destino da alma, onde uma pena (símbolo da verdade e da justiça) seria colocada num dos lados de uma balança e no outro lado o seu coração (que guardava os atos da sua vida), para receber a permissão para passar à vida após a morte. Se o coração ficasse leve como a pena, a alma era considerada pura e entrava no paraíso. Se estivesse pesado com pecados, era devorada pela criatura demoníaca Ammit (“Devoradora dos Mortos”), um monstro com cabeça de crocodilo, parte dianteira de leão e a parte traseira de hipopótamo.
Esta ilustração do antigo Livro dos Mortos representa o julgamento da alma no Tribunal de Osíris. Guiado por Anúbis, o falecido tem o coração pesado na balança da verdade, enquanto Thot registra o resultado e Ammit aguarda o veredito. Se o coração fosse leve como a pena de Ma'at, a alma estaria apta a ingressar na vida após a morte. ▪ Wikimedia
Crê-se que o corpo de Tutankhamun não terá seguido todos os princípios do processo de mumificação, pois os sacerdotes responsáveis por essa atividade terão exagerado na quantidade de resina utilizada para trancar o seu sarcófago. Suspeita-se que terá sido intencional, de modo a, segundo a crença religiosa, evitar a sua passagem para o Além. Os inimigos políticos de Tutankhamun terão tentado ocultar quaisquer vestígios do seu reinado, dificultando o conhecimento sobre a sua vida e a localização e identificação da sua tumba por saqueadores. Não é certo lícito afirmar-se que Tutankhamun tenha conseguido ser aceite na “Sala das Duas Verdades” (duat) e fazer a sua passagem para a jornada da ressurreição, no entanto, cientificamente, tornar-se-ia numa das maiores descobertas
A múmia de Tutankhamun, revelada após a remoção da célebre máscara funerária de ouro. O uso abundante de resinas durante a mumificação aderiu o corpo aos caixões, tornando a abertura do sepultamento um dos trabalhos delicados enfrentados pela equipe de Howard Carter. ▪ Fonte: Wikimedia
arqueológicas de sempre, ressurgindo como o maior faraó conhecido no mundo inteiro.
Tutankhamun morreu aos 19 anos de idade. Durante séculos acreditou-se que o “rei menino” tinha morrido de uma infeção devido a uma fratura numa perna. Não obstante, em 2010, cientistas encontraram vestígios de parasitas da malária nos restos mortais do faraó, indicando ter sido esta doença, talvez em combinação com uma doença óssea degenerativa, a causa da sua morte.
Curiosamente, a descoberta do seu túmulo reavivou os rumores da famosa maldição de Tutankhamun, uma narrativa ao que se supõe criada pela imprensa da época e cujo enigma perdura até aos nossos dias. A famigerada inscrição atribuída à maldição de Tutankhamun encontrada num óstraco de argila numa das antecâmaras, dizendo “A morte virá com asas ligeiras para aquele que perturbar o sono do faraó” tornar-se-ia numa lenda perdurável.
Por mais intrigante que seja o conceito de uma antiga praga egípcia, ela não está baseada na realidade. O mito ganhou vida própria a tal ponto que pessoas que pouco conhecem sobre a descoberta da tumba de Tutankhamun ou a origem da praga do faraó associam o Egito a ritos místicos, uma obsessão com a morte, perseguição e maldições. A fascinação do público com a praga da múmia não diminuiu nos últimos 100 anos, sobretudo graças às histórias e à ficção extraordinariamente potenciada em filmes, livros e séries. Mais um legado de Tutankhamon.
O sucesso da descoberta da tumba de Tutankhamun e a popularização da chamada "maldição do faraó" inspiraram uma série de filmes de terror. Entre eles destaca-se A Múmia (1932), estrelado por Boris Karloff, obra que ajudou a transformar antigas crenças e lendas do Egito em um dos temas clássicos do cinema fantástico.
Conforme as fábulas da época, pouco tempo depois da descoberta do sarcófago, em 1923, o empresário Carnarvon cortou-se acidentalmente com uma navalha enquanto fazia a barba, um pouco acima de uma picada de mosquito que levara dias antes, quando ainda estava na expedição, contraindo uma enfermidade infeciosa. Em poucos dias o estado febril acabou por lhe provocar a morte. Diagnóstico: pneumonia decorrente de uma infeção por erisipela facial, resultante da exposição a bactérias ou fungos tóxicos Aspergillus flavus
Lord Carnarvon, financiador das escavações, fotografado pouco antes de sua morte, ocorrida em abril de 1923. Seu falecimento, alguns meses após a descoberta da tumba de Tutankhamun, alimentou a lenda da "maldição do faraó". ▪ Foto: Harry Burton, 1923
presentes no ar acumulado de tumbas fechadas durante milénios. Antes de morrer, terá dito à irmã que Tutankhamun o tinha convocado. No dia em que faleceu, Suzie, a sua pequena fox terrier morreria também, vítima de um enfarte enquanto dormia na sua cesta em Inglaterra. A neta de Carnarvon, Patricia Leatham, relatou que “no momento em que ele morreu, toda a luz do Cairo se apagou. Não encontraram motivos para a energia ter acabado. Vinte minutos depois a energia foi restaurada.”
A notícia da morte de Lord Carnarvon imediatamente agitou os esotéricos e supersticiosos sobre as maldições daquela tumba faraónica. Depois do ocorrido, Arthur Mace, um dos integrantes da equipa de Carter que desenterrou a múmia de Tutankhamun, terá morrido repentinamente no mesmo hotel do Cairo, onde Carnarvon passou os seus últimos dias. Joel Woolf, possessor das primeiras fotos de Tutankhamun, e Richard Bethell, secretário de Carter, também faleceram em condições inexplicáveis. Nessa mesma funesta coincidência acabariam por se juntar a irmã e a mulher de Carnarvon.
ESQ ⇀ DIR: Arthur Mace, Richard Bethell, Arthur Callender, Evelyn Herbert, Howard Carter, lord Carnarvon e Alfred Lucas. ▪ Wikimedia
Ao longo de seis anos após a descoberta, trinta e cinco pessoas ligadas à descoberta de Tutankhamun terão falecido em condições misteriosas ou de causas sobrenaturais, entre elas a estudante de História de Arte Charriel Manson, devido a uma infeção pulmonar rápida e misteriosa. Sem saber, o verdadeiro assassino encontrava-se oculto nas próprias paredes da tumba, cobertas por um afloramento de fungos marrons, que foram introduzidos pela tinta ou pelo gesso, o que para muitos seria apenas uma parede descascada, com tintas azuis e vermelhas.
Planta esquemática da tumba KV62, de Tutankhamun. O sepultamento é composto por um corredor de acesso, uma antecâmara, um anexo, a câmara funerária — onde se encontravam o sarcófago de pedra, os quatro santuários e os três caixões antropoides — e o Depósito do Tesouro, que abrigava o santuário Canópico e diversos objetos destinados à vida após a morte. ▪ GD'Art
Certo é que os fungos alimentaram-se da humidade da tinta e do gesso logo após a câmara ter sido lacrada pelos antigos egípcios. Ao inadvertidamente tocar e descascar as tintas da parede, Charriel tornar-se-ia hospedadora do perigoso fungo Aspergillus niger que, na tumba cálida e húmida, prosperou e viveu durante 3.000 anos na companhia de Tutankhamun...
Há ainda a curiosa história do canário de estimação de Carter, devorado por uma cobra naja (género de cobras-capelo) que entrou na sua gaiola. Os trabalhadores passaram a acreditar que a serpente teria sido enviada pelo jovem faraó, por terem atrapalhado o seu sono eterno.
Para combater as lendas e explicações sobrenaturais, cientistas levantaram a hipótese de doenças provenientes de morcegos, que alguma substância tóxica, venenos em pó ou fungo venenoso fora criado na época para que ninguém profanasse aquela sala mortuária. Outros ainda chegaram a afirmar que os egípcios já conheciam a energia atómica e teriam depositado urânio nas tumbas...
Entrada atual da tumba KV62, no Vale dos Reis. O discreto acesso contrasta com a extraordinária riqueza do conjunto funerário preservado em seu interior, um dos achados arqueológicos mais importantes do século XX. ▪ Fotos: Chabe1 + Rodrigues
Durante o século XX, o alvoroço causado pela maldição dos túmulos foi perdendo algum mediatismo em consequência de outras descobertas arqueológicas. Mesmo que as explicações científicas para as tragédias fossem plausíveis, o desencadear de tantas mortes não consegue ser explicado satisfatoriamente como uma
Acervo: A. Rodrigues
simples eventualidade. O desconhecido ainda encobre esse episódio.
Hoje, mais de 100 anos após a descoberta do seu túmulo, a figura de Tutankhamun e tudo o que a envolve ainda está repleta de contradições, mistérios e incógnitas, tal como a do arqueólogo britânico que o levou às bocas do mundo, Howard Carter. Deve dizer-se que o túmulo de Tutankhamun tem agora muito melhor aspeto do que há alguns anos, uma vez que foi concluído em 2019 um processo de restauro que durou uma década. Foram realizados não só trabalhos técnicos de limpeza e de intervenção nos cromatismos da decoração, mas também uma grande renovação para melhorar as suas condições ambientais, protegendo-o assim da erosão provocada pela atividade turística.
Atualmente, muitas das estátuas e relíquias encontradas do túmulo de Tutankhamun fazem parte do acervo do Museu Egípcio do Cairo e estão expostas no Grande Museu Egípcio, oferecendo ao público uma visão detalhada da grandiosidade do Egito faraónico.