A cidade de Petrolina (PE) teve no pintor e escultor Celestino Gomes (1931-2004) um vulto dos mais queridos, verdadeira lenda viva, povoada...

... e o Velho Chico 'freveu'


A cidade de Petrolina (PE) teve no pintor e escultor Celestino Gomes (1931-2004) um vulto dos mais queridos, verdadeira lenda viva, povoada de histórias que o tempo seguiu cozendo na imaginação da gente do lugar.

Fisicamente foi um branco de boa altura, com olhos e cabelos claros. Ainda jovem, passara duas temporadas na Itália, em Roma, onde pôde experienciar, entre outras técnicas artísticas, impressão de gravuras e modelagem de formas para fundição. Voltara de lá com saberes específicos que o habilitavam ao manuseio, frequentemente criativo, de materiais tanto para pintura quanto para escultura.

No entanto, seu tema artístico por excelência, acabaria mesmo se constituindo no homem do Nordeste e seus afazeres, daí a figura recorrente do vaqueiro em quadros seus. Apartação das crias, festança da colheita e corrida de bois foram os elementos mais corriqueiros de sua obra.

Gostava, porém, Celestino, de construir, de edificar com argamassa e pedra. A fundição e o fogo tampouco foram obstáculos para o utilitarista de sete ferramentas, cuja curiosidade sem fim o tinha capacitado, até mesmo a enfaixar braços quebrados e colocá-los em tipoias, como mais de uma vez ocorreria.

Tecnológica e conceptualmente falando, um quase homem da Renascença habitava a decantada cidade na margem do São Francisco. E foi assim que, muito antes de receber a primeira encomenda pública para criar monumento artístico na cidade, e ainda recém-chegado da Itália, construiu, num ímpeto só, um enorme forno de assar pizza no quintal da casa, transformando-se assim no primeiro pizzaiolo regular de que se tem notícia no sertão nordestino.

Dada sua identificação e relação afetuosa com a vida de sua cidade, Histórias que envolvem Celestino podem girar tanto em torno de personagens da elite local quanto de figuras genuinamente populares. Um exemplo são as duas que se seguem.

Apesar de esguio - magro mesmo -, o artista era chegado a praticar caminhadas matinais, e um seu companheiro para esses percursos diários foi o então Deputado Estadual (depois Federal) Fernando Coelho, que, certo dia, o convida a lhe servir de companhia durante uma excursão pelas proximidades da cidade, programada para depois daquela caminhada. Vivia-se ali o período eleitoral, e o objetivo desse deslocamento nem podia ser outro: “visitar” eleitores.

Se despedem com o deputado prometendo logo, logo, passar na casa do amigo e apanhá-lo. Celestino se apressa nas providências habituais, mas, antes de tomar o café, escuta o deputado lá fora, tocando a buzina da caminhonete. Sai então às pressas, entra no veículo e, juntos, passam a manhã visitando moradores de casas espalhadas por sítios próximos à cidade. Por volta do meio-dia, o artista lembra ao enorme e gorducho deputado – cujo peso passava já dos 140 ks - , que sente o estômago “roncar” de fome, o que não era para menos, ele explicou, naquela manhã havia tomado apenas uns goles de café puro, antes de sair de casa.

Em resposta, o deputado lhe recomenda calma, dizendo que estão de retorno para a cidade e que irão reabastecer no posto de gasolina da família onde, lembra o deputado, há um restaurante – também do papai - onde poderão almoçar, tranquilos. Uma meia hora a mais de tráfego e chegam no posto. A primeira providência do deputado é reabastecer o carro, com o restaurante a poucos metros da bomba de gasolina. Estão nisso, quando o deputado recebe um recado dado pelo frentista do posto, que acabara de receber pelo orelhão o telefonema de um eleitor rogando-lhe que o fosse visitar, pois tinha algo importante a lhe comunicar.

O deputado:

– Um eleitor chamando, Celestino. Vamos voltar, almoçamos depois.
– Mas deputado, o restaurante é aqui. Almoçamos e depois você visita o homem!...
– Não tenho pressa. Aliás, meu médico me recomendou perder, pelo menos, pelo menos... uns 70 quilos…

A frieza e a lógica desse raciocínio podiam até ser compatíveis com o tipo de vida que o deputado levava, mas Celestino sobressaltou-se com aquilo, aquela aparente tranquilidade do amigo o pôs em estado de alerta. Só que, em vez de confrontar a lógica dele, assume-a ao pé da letra, retrucando:

– Você tem um bom médico, deputado. Agora, se eu perder 70 quilos andando em sua companhia, vou sumir do mapa.

Esqueceram, momentaneamente, o eleitor, e foram almoçar.

O artista era também escritor e havia escrito dois livros: ‘’Da Roça à Roma’’ e ‘’De Roma à Roça”, onde descreve contrastes e similitudes entre mundos tão aparentemente díspares quanto a “Cidade dos Césares”, cortada pelo Tibre, e a Cidade dos Coelhos, cujo perfil fora talhado pelas encostas do São Francisco. Gostava, na verdade, amava! se sair, aqui acolá com alguma história fantástica. Numa dessas, narra o sonho da vida de Manezinho de tal, funcionário da Prefeitura de Petrolina, homem simples, mas que nunca escondera de ninguém seu sonho de um dia, ao aposentar-se, comemorar o evento satisfazendo seu antigo desejo de conhecer as origens do Velho Chico.

Até onde sua memória alcançava, aquele rio tinha preenchido praticamente todas as necessidades de sua vida, e quando não, determinado outras. Manezinho bem que gostava de relembrar os banhos da infância tomados nele, sempre na companhia de um bando de outros moleques. Relembrar as brincadeiras de ‘empunha’ no saltar da ponte para o rio. As trampolinagens de menino afoito.

Nos últimos tempos dera para falar na viagem, enquanto cuidava de ir economizando dinheiro a fim de custeá-la. Uma viagem ida/e/volta pelo rio São Francisco, e eis aqui seu roteiro: Petrolina/Pirapora/Petrolina.

carranca
Manezinho pretendia ir até ao extremo do rio, no Estado de Minas, onde a cidade de Pirapora marca o limite da navegação, e todos seus amigos, aí, incluído Celestino, sabiam que não estava longe o dia de pôr-se aquele sonho à prova. O que não faltava eram barcos de passageiros para fazer tal percurso, os maiores deles ostentando imponentes Carrancas de proa, criações fantásticas do mestre Biquiba – Francisco Biquiba Dy Lafuente Guarany, cuja estética, à primeira vista, distópica, conseguira no entanto, magicamente, harmonizar elementos discordes, não sendo a figuração entalhada por ele nem aterradora nem amistosa, nem homem nem bicho, conservando uma relação de caráter com as próprias entidades mitológicas do rio, com seu habitual elenco de virtudes contrapostas - e que, a todo instante podiam ser vistos subindo e descendo o rio.

0 plano de Manezinho, porém, era outro: atravessaria a ponte para ganhar o vistoso e confortável Vapor Benjamin Guimarães, na vizinha Juazeiro, que era o ponto final no trajeto dessa embarcação, antes de voltar para Pirapora.

Até que esse dia chegou, finalmente. E no convés de cima do vapor, um tanto solitariamente, Manezinho viu seus novos companheiros de viagem acenarem para amigos e familiares que, de longe lhes respondiam, enquanto escutava o característico apito prolongado do vapor, se afastando do cais.

Doze dias se passaram.

Quando o vapor atraca de volta no Juazeiro, chega trazendo dessa vez - em vez da alegria de sempre – pequenas carrancas de dor e medo ainda estampadas na face dos desembarcados. Um medo logo associado à sensação de alívio pela volta sã e salva. A notícia do desastre ocorrido na viagem de volta não tardou a se espalhar pelas duas cidades vizinhas. Verificou-se depois não ser aquele um acontecimento inédito na atribulada história da navegação do rio, mas, por aqueles dias, a ocorrência do passado vinha esquecida, sobretudo pelas novas gerações, e ninguém na cidade teria tido a capacidade de prever uma reincidência dela.

Manezinho sobe ao cais carregado numa maca. Vinha mais morto que vivo, e os recém-chegados, entre louvores e persignações, falavam de três mortes a bordo, como consequência da epidemia de febre que grassou no barco durante o percurso de volta. No auge das infecções, quando não havia mais remédios a bordo, os passageiros, de comum acordo com o capitão do vapor, se tinham decidido, movidos pelo medo terrível de mais contaminações, pela saída extrema de atirar os cadáveres na água.

Manezinho fôra o último dos infectados a manifestar sintoma febril a bordo, depois de extinto o estoque de cascas de quinina na farmacinha do vapor. Antes que lhe aparecessem os sintomas da doença, no entanto, já três companheiros tinham sucumbido aos males diversos causados pela infestação. Ao desembarcar carregado na mesma maca que havia, até ali, salvo sua vida, manifestava então os sintomas de uma bronquite que não tardaria a virar pneumonia - caso não fosse imediatamente hospitalizado e tratado com febrífugos e tetraciclina, um medicamento novo àquela época. Quando, após alguns dias, foi dado como fora de perigo e recebeu alta, o povo já conhecia, em detalhes, a razão de sua sobrevida.

O barco acabara de deixar S. Roque, e dentro de mais 3 dias o Benjamim Guimarães abriria os botões de sua chaminé para avisar o povo do Juazeiro que estava de volta. É manhã, bem cedo, e no salão/dormitório, que compreende uma boa extensão do 2º convés, a maior parte dos viajantes erguera-se já da rede, e viam-se só uns poucos deles, entregues, ainda, à tarefa de dobrá-las.

No relato de Celestino: “Naquela manhã, uma das redes deu a parecer que seu ocupante continuava ainda em sono profundo. Pejada e com as bordas dobradas por cima, seu leve balanço correspondia apenas ao suave ondular do barco na correnteza do rio, embora aquele sono tardio bem que podia ser o resultado de uma indisposição qualquer, afinal, àquela altura, alguns vinham já extenuados pela viagem. Quando é lá pelo meio-dia, porém, a rede começa a se agitar, e dela partem gemidos. Impetuoso como sempre, Manezinho adianta-se, e é o primeiro a ver, e também a vaticinar o que se passa ali. Dentro da rede, o corpo de uma mulher arde e se contorce em meio a delírios de febre. Muito provavelmente foi este o lugar e o momento em que Manezinho se infectou”.

Os passageiros deram-se conta do perigo quando já algumas informações desencontradas atropelavam-se pelos 3 conveses do vapor. Um homem com fortes dores de cabeça exibia estranhas marcas vermelhas pelo tronco, no convés de baixo havia alguém se desmanchando na diarreia, e quando essas notícias invadiram por fim a cabine de comando, no convés do meio, o velho capitão Manoel, não pensou duas vezes e ordenou ao imediato que juntasse o que havia de medicamentos contra febre na farmácia do barco. Era o Tifo. Numa de suas, cada vez mais raras, recidivas.

O relato de Celestino sobre esse surto de febre tifoide – uma variante do Tifo -, acabaria incorporado ao acervo popular do lendário vapor Benjamim Guimarães, um barco que nascera para rios de peito largo como o Mississipi e o Amazonas, gigantes por que passara antes de ser adquirido por um comerciante de Pirapora para fazer história no São Francisco, e timoneado que foi durante décadas por esse seu último Comandante Manoel Mariano da Cunha, esse mesmo que, diante da farmácia de bordo esvaziada, teve o extraordinário tirocínio de arrancar uma prateleira de sua cabine, para, com ela, improvisar a maca que levaria aquele paciente e xará a um banho de imersão nas águas do São Francisco, como única e desesperada forma de debelar o fogo que, visivelmente se alastrava pelo seu rio interno de sangue nas veias.

Deitaram Manezinho na prateleira e ali o amarraram bem. Sem a menor possibilidade de naquele momento se pensar num sistema de roldanas que descesse o corpo ao rio, amarraram, no entanto, cordas a cada uma das extremidades do funéreo pacote e fizeram-no descer aos poucos, esticadas pelo peso. Era preciso manter o pacote ao máximo na horizontal, enquanto o Capitão, aos gritos, corrigia a inclinação. Quando a improvisada liteira chegou a pouco menos de um metro de distância do espelho d’água, o capitão ergueu o braço e gritou que parassem.

Em seguida ajustaram o que mais parecia um esquife sacrificial aos deuses e mitos do rio como a Serpente da Ilha das Cobras, a Mãe d’Água e o Nego d’Água, que na imaginação ribeirinha habitam os covis profundos da lama do rio, aplicando agora pequena inclinação de modo que a parte concernente dos pés fosse ligeiramente mais baixa que a da cabeça, e pudesse, assim, cavar a abertura por onde a tábua mergulhasse por inteira tão logo fosse largada de vez pelos braços da tripulação, a um grito de comando do velho timoneiro Seu Manoel, versado que sempre fora em içamentos, flutuações e naufrágios.

O baque do corpo na água escutou-se no convés de cima, e, como previsto, o rio abriu sua pequena narina e o corpo sumiu temporariamente nas águas. O Comandante, de braço erguido e de olho no cronômetro, contou os segundos que faltavam, para, num gesto cortante, ordenar içarem-no de volta. O corpo assomou despejando línguas de água pelas bordas como um Faraó em seu sarcófago, retirado que fosse do Nilo por uma equipe de antropólogos “. E logo após isto, notaram que, em volta da liteira, a água fervia.

Assombrados, viram os pequenos peixes que saltavam para longe da tábua, e que logo estavam a boiar pela superfície, mortos. O corpo foi retirado da água, e, uma vez no convés, o termômetro acusava baixa substancial da febre. Uma hora depois disso, viram as luzes do Juazeiro faiscarem na distância.

Anos ou décadas depois, quando o apito do velho Benjamim Guimarães não passasse de uma evocação saudosa pelas ribeiras do rio, os homens simples da região gostariam, em seus encontros e comunhões festivas, de relembrar aquele dia em que o “Velho Chico” “freveu”.


Alberto Lacet é artista plástico e escritor
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  1. Celestino era muito admirado por sua arte. Era irreverente, corajoso e temente a Deus... Não era rico e acreditava ser pecado cobrar por obras que retratassem santos e "coisas do ceu". Morreu acreditando que sua vida tinha empobrecido mais, após cobrar por uma escultura de Nossa Senhora Rainha dos Anjos.

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    1. essas historias que busquei narrar me foram contadas por um ex-militar do exercito, do qual fui vizinho por uns tempos. Ele havia destacado num posto militar existente em Petrolina, e poristo conhecia historias a respeito dele, de Celestino.

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  2. A narrativa de Lacet é agradável e convincente, onde a riqueza de elementos nos seduz do princípio ao fim da leitura.

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