O final de A revolução dos bichos ou, como já vi em nova tradução, A fazenda dos animais (Animal farm), de Orwell, é emblemático. Sabemos todos que Orwell escreveu um romance, 1984, e essa fábula moderna, envolvendo porcos e homens, com a intenção de fazer uma crítica pesada ao totalitarismo comunista, mais especificamente ao stalinismo. A revolução dos bichos é de 1945, quando o stalinismo e o
sovietismo, após a o final da segunda guerra mundial, entrariam no seu apogeu. Pelo fato de caracterizar-se como uma fábula e ser de menor extensão do que seria o romance 1984, o livro atingiu, na minha concepção, de forma mais contundente o seu objetivo: o comunismo que se erigiu tendo como bandeira a defesa do povo explorado pelos aristocratas russos, acaba se convertendo em culto à personalidade do líder supremo, com sua cúpula distanciando-se cada vez mais do povo que dizia proteger, para se parecer com os antigos exploradores aristocratas.
Na fábula de Orwell, os porcos, que haviam tomado o poder da granja do sr. Jones e eram liderados pelo porco Napoleão, nome mais do que simbólico, mostram-se felizes por estarem confraternizando com os humanos, seus antigos exploradores, comemorando o fim dos desentendimentos. Para chegar a isto, foi necessário que, sistematicamente, os preceitos antigos contra os exploradores fossem sendo modificados,
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para se adequar aos privilégios da cúpula comandada por Napoleão, tendo em Garganta, outro nome simbólico, o seu secretário da propaganda, cujo cerne todos conhecem – repitam uma mentira ininterruptamente, por mais que os fatos demonstrem a sua falsidade, pois haverá sempre quem nela acredite, como o cavalo Sansão, um soldado do partido, pronto a defender com a sua força e sua vitalidade tudo o que a propaganda anuncia. Cegados pelas promessas da propaganda, os comandados chegam a admitir que todos são iguais perante a lei, havendo, no entanto, quem seja mais igual do que os outros. É a doutrina comendo os cérebros, sem que as pessoas percebam. É ainda pior, fazendo a defesa cotidiana do indefensável.
No auge da confraternização, porcos falam tão alto e vociferam no mesmo tom quanto os humanos, embora não se trate de uma briga que levaria a novas dissensões entre essas espécies/classes. É briga, sim, porém, para delimitação de territórios, visto que o poder que se partilha entre eles há um só objetivo: a exploração dos incautos e dos crédulos, o que, ao fim e ao cabo, dá no mesmo. Porcos e homens acabam sendo pares inter pares...
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Na confraternização, o que ocasiona a briga é o fato de que o Sr. Pilkington e o porco Napoleão tinham apresentado, os dois, ao mesmo tempo, como mão de seu jogo, um ás de espadas. A descrição de Orwell não poderia ser mais precisa, concluindo o livro:
“Doze vozes gritavam, cheias de ódio, e eram todas iguais. Não havia dúvida, agora, quanto ao que sucedera à fisionomia dos porcos. As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já era impossível distinguir quem era homem, quem era porco.”
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Escrevo isto pensando na atualidade de Orwell. As brigas entre iguais são apenas para marcar posição e estabelecer de modo claro que quando iguais mandam, os desiguais, que se creem iguais, obedecem cegamente. Isso dá azo a que a igualdade para todos, preconizada pela lei, se torne, de modo esdrúxulo, uma igualdade de desiguais. Dessa forma, os desentendimentos são apenas pontuais. Não há inimizades, pois haverá sempre alianças espúrias, quando o objetivo é a exploração do resto da população que, fora do jogo de iguais, trabalha como o cavalo Sansão para sustentar Pilkingtons e Napoleões. Que o digam as alianças, mais do que discutíveis, entre os partidos e entre os poderes do Estado. Como as eleições deste ano estão próximas, é só pagar para ver. Pagar, literalmente, mesmo aparecendo 5 ases na mesa.