Fragmentos de um discurso queer Chovia demais, e eu na cama. Chovia em gotas leves, tamborilando o batente da janela e insisti...

No labirinto dos meus corpos

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Fragmentos de um discurso queer
Chovia demais, e eu na cama. Chovia em gotas leves, tamborilando o batente da janela e insistindo em escorrer pela vidraça. Uma gota que caía, mas não se fixava. Uma gota que caía e depois se juntava a outra e mais a outra, em corredeira rumo ao chão.

Por entre cobertas e um pijama surrado, eu já nem sabia onde começava meu corpo e onde terminavam os tecidos. Estava naquela espécie de torpor, logo quando se acorda, no limiar entre o sono e o despertar preguiçoso. No limiar também do meu corpo com os corpos das cobertas, dos travesseiros, de um controle remoto esquecido pouco antes de cair no sono e de um celular com suas agonias de bips.

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A sensação era de afago das coisas. Meu corpo e as coisas. As coisas e meu corpo. Juntos e misturados. Amores guardados na memória também do celular. Corpos nus emaranhados nos álbuns digitais de fotografias. Vozes que tendiam a se apagar ao longo do tempo, como a chuva que iria parar e se esconder nas frestas da terra. Uma sensação prazerosa de um tecido cheiroso que insistia em me alisar a barba.

A vida, assim, é uma atuação da diferença a partir da semelhança. Meus líquidos que escorrem como as gotas na vidraça. O vento que sopra do ar-condicionado e meus hálitos de bocejo. Tudo uniforme e dissonante. Meu corpo, um arranjo biológico, mas farmacológico, mas alcoólico, mas tecnológico. Tinha sede. Tinha sede de ver as mensagens do dia. Aquela sede de likes e mensagenzinhas de desejos da outra noite. Meu corpo, um lugar do dissonante e do mestiço. Meu corpo hibridizado nos goles de vinho, nos aplicativos e nos fármacos que curam o que os alimentos tentam matar.

Meu corpo, um estranho. Cheio de entranhas. Levanto-me. Deparo-me com o espelho. Ali, naquele vale que aparece na base do nariz, antes existia uma planície. Agora tem um leito seco. Um rasgo que não havia ontem. Minha íris tem algo de feminino de minha mãe. No platô
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da testa, no encontro das sobrancelhas, vejo o masculino de meu pai. E meus dedos finos, femininos como os dedos de pianista do meu pai. E umas veias saltitantes, masculinas, do masculino da minha mãe. E um anel esquecido envolvendo o dedo anelar. Dedo e anel nem masculino nem feminino, mas um par ambíguo. Afinal, qual a diferença entre o que entra e o que envolve?

Nada em mim era normal. Tudo me parecia desequilibrado, porque tudo era singular. Na minha miopia, eu pretendia ver tudo uniforme, pois era mais confortável este mundo assim, homogêneo. Mas uma unha quebrada me mostrava o disforme. E até aquela historieta da simetria do corpo me parecia distante. Olhando bem, minha simetria era assimétrica.

Voltando ao quarto, vi minha cama e seus redemoinhos de coisas que me abrigaram na noite passada. Um ambiente estranhamente estranho. Mas tratei de pôr ordem. Dobraduras, separações, classificações. Até uma cueca jogada no chão teve seu lugar garantido num cesto qualquer. Assim, como a cama, eu fui me vestindo com minha identidade do dia. Eu era um corpo desidentificado. Nada que um sapato aqui, uma camisa acolá não pudesse me livrar daquela horrenda sensação de um corpo vazio, um corpo apenas nu.

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Alguém me quer como coisa. Objetifica-me com seu desejo de ter. Cola em mim algo que, muitas vezes, é uma ilusão de ter, de ser. Algo especular. Sou um sujeito-objeto de uso comum. As paredes do mundo se voltam contra mim como as placas de uma sanduicheira, fazendo-me uniforme e comestível. A expansão torna-se inviável, pois a identidade me engarrafa como uma garrafa que não permite o vinho escorrer livre na sua liquidez de fermentos.

Sou um corpo nômade encarcerado numa identidade. Por isso, faço do copo uma expansão de mim mesmo, por entre risos e palavras obscenas. Minhas células, bem arrumadinhas como um pelotão, se eriçam quando os álcoois invadem suas membranas protetivas. Quando elas se afrouxam de seus cintos de castidade, as palavras fluem soltas, garganta afora, e flutuam entre conversas soltas nas planícies das mesas de bar. Meu corpo é nômade e desembestado.

O que eu sei sobre meu corpo? Talvez aquilo que falem sobre ele. Aquilo que meu dentista diz sobre minha face. O que meu urologista diz sobre meu pau e adjacências. Meu corpo é uma produção alheia.

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Mas ele mesmo é capaz de agenciar algo de contracorrenteza. Algo das margens, das margens da sexualidade, de um saber que não tem nem mesmo centro nem origem. De uma sexualidade que passa pela minha superfície, mas que é mais além.

Mais água. Desta vez, xixi. Não é sexual este órgão que mija. Mais parece um cano, um canal. Ele só é sexual quando sai de pênis para pau. O pau é sexual; o pênis é mijal. A sexualidade percorre todo o corpo e se instrumentaliza em áreas que são estratégicas: as dobraduras da orelha, os contornos do pescoço. Aliás, toda superfície que se lambe, que se risca com a aspereza da língua e que se lustra na maciez dos lábios. Minha anatomia é a biologia. Minha sexualidade é a biologia mordida.

A verdade biológica é uma mentira. Triste dos que só têm um corpo celular. Eu tenho um corpo e um celular-corpo, com minhas memórias e desejos. Um corpo e seus dildos mecânicos-virtuais. Meu corpo não é assujeitado pelas aulas de anatomia. Disseram-me que na minha mão há 27 ossos e cinco grupos de músculos. Na minha mão há mais uns: há o desejo que circula lado a lado com o emaranhado de veias e artérias. Há o desejo que toca outros corpos, que abre, pinça, dança e patina nos vales, montes e abismos dos corpos torneados de tanta vida dançante.

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Corpos melodiosos que devem ser constantemente ouvidos, mas que são tremendamente aprisionados. Meu corpo se faz a partir do corpo do outro. Fez-se no meu primeiro encontro com o seio da minha mãe, na matança da fome. Fez-se no encontro com mamadeiras, chupetas, dedos, outras tantas superfícies que ora me amparavam nos tapetes, ora me ralavam nos tombos. Corpos sujeitos de corpos.

Meu corpo tem coisas de homem e de mulher. Meu corpo não tem sexo. Faz-se sexo na atuação dos desejos, por entre suspiros e falta de ar. Meu corpo é de falta. Não existe nenhuma verdade sexual no meu corpo. Ele presta-se, muitas vezes empresta-se. Não tem natureza, pois é uma natureza em si, encapsulada, animalizada e aculturalizada. Há fala neste corpo que diz mais sobre ele do que seus órgãos e membros. Uma superfície carnavalizada por purpurina e fibrilada por regras.

Reconheço-me por meio das enunciações. Assim posso aceder a todas as significações que me proveem, a todas as posições de discursos sobre mim e sobre o que devo ser. Renuncio, pois, a toda e qualquer identidade-cárcere, ao passo que me permito a fluidez do ser híbrido, invadido pelas chuvas de amores e suas pétalas furta-cor. Meu corpo não tem lei, a não ser aquelas dos homens e suas togas enrijecidas pelo temor das liberdades.

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Há corpos enrijecidos. Pelos poderes enrijecidos. Aplainados pela moral dos modernos. Rígidos como um carvalho que não resiste a uma tempestade. Há corpos leves, como o bambu, que, nesta mesma tempestade, se enverga à fúria dos ventos como uma reverência, mas que se reergue quando a fúria cede lugar à brisa. Corpos enrijecidos são atravessados pela norma, pelas treliças do poder que pune e assujeita ao sólido da vida para o consumo. Corpos consumidos pela sanha das mercadorias que empacotam os desejos em caixas e fitas. Corpos de crédito.

Meu corpo é em rede. Na que balança e me conduz ao sono. Naquela dos bytes e bits, que me fazem ter um corpo ciborgue. Ele, tal qual um dos pontos da rede, se materializa e se desmaterializa quando entra em contato com outros pontos desta rede. Corpo retorcido e cheio de contornos. Na rede, há encontros entre o velado e o que pode ser desvelado, pontos de estimulação de prazeres e inovações no e fora do corpo. Na rede, tudo é corpo.

Que se fale sobre o corpo. Que o corpo diga do sujeito. Corpo-rede, corpo-rizoma, alterados e alterando-se uns aos outros, por entre dizeres, maldizeres e bem-dizeres. Superfície na qual tudo é móvel e transitório, suscitando reagrupamentos para além dos corpos individuais. Superfície remodelável, plástica e desterritorializada. Corpos desventurados, sem matrimônios testemunhados pelo sistema. Corpos para além do contrato sexual.

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Tecnocorpos. Cibercorpos. Corpos que se deixam atravessar pela sexualidade plena, conectados pelo movimento anárquico da natureza e da cultura. Sexualidades não heteronormatizadas, mas heterogêneas, diversas. Um corpo-rizoma com múltiplas entradas e saídas. Corpo-superfície que pode ser cortado e atravessado por muitas subjetividades. Um corpo em fuga, operado pela mecânica celular e também por tecnologias que o compõem. Corpo-smartphone, corpo-android. No meu corpo não há um centro. Há só superfícies lisas, às vezes esburacadas. Pelos ocos do meu corpo, sensações escorrem em enchentes de sons, em enxurradas de salivas, em tormentas de imagens, em gotejos de suores. Corpo de excrementos, de líquidos seminais da vida, espraiamentos de sangue e rios de lágrimas.

Com meu corpo, eu me espalho para um sei-lá-onde.

Corpo que se transforma em gênero e se revira em sexo. Um corpo que dança na terceira margem. Meu corpo é sujeito dos meus desejos. Meu corpo é sujeito aos desejos de outros. Corpo-superfície torcida e rasgada, cheio de pontos de fuga e possibilidades de encontrar algo que nunca se encontra porque nunca foi perdido. Corpo metade que agencia outros corpos metade, que é agenciado por corpos translúcidos. Corpos que se combinam e deixam de ser um para ser nenhum ou, quem sabe, todos.

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Meu corpo é de bordas sem limite. Corpo aberto a significantes que nele se colam, a sintomas que nele habitam. Corpo-possibilidades. Corpo que pode ser em múltiplos territórios e devires.

Corpo madrugada, tardinha e manhã. Corpo de segundos e tempos e eternidades do efêmero. Corpo lugar do desejo, desejo que não cabe em nenhum lugar. Corpo de beijo, corpo de medo, de inferno e céu. Corpo santo, santidade diabólica de homem e lobisomem. Corpo fome, mesmo grande, fome enorme como o medo de morrer, como o medo de não ser.

Chega o tempo ao corpo. Abandonei antigas roupas que tinham a forma de meu antigo corpo. Recusei-me ao apertar. Segui quase nu e impune. Sou corpo-travessia que não é mais rio. É delta, com muitos rios dentro de rios. Rios desaguadouros do grande mar. Um corpo que nem sei mais se é rio ou se é mar, posto que é os dois e nenhum. Corpo-amar.

Perdi meu corpo. Agora sou todos. Agora sou ninguém.

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