Ao caminhar por parques e bosques, em qualquer lugar do mundo, já nos veio à grata lembrança o poema “A ninfa da floresta”, do sueco V...

A Ninfa da Floresta

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Ao caminhar por parques e bosques, em qualquer lugar do mundo, já nos veio à grata lembrança o poema “A ninfa da floresta”, do sueco Viktor Rydberg, que inspirou seu quase conterrâneo Jean Sibelius, ambos nascidos em terras vizinhas e entre povos que compartilham visceralmente cultura e história. A propósito, esta é uma experiência que tem sido frequente em viagens nossas,
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cada vez mais distantes do burburinho turístico e excessivamente urbano.

Indescritível é o encantamento que os devotos da Natureza experimentam diante de uma grande árvore, ao adentrar um bosque, uma mata nativa, avistar uma floresta, afagar uma folha, seca ou viçosa, e até mesmo se abraçar com o tronco de uma frondosa árvore. Há quem se iniba e contenha este tipo de rompante ecológico, já que o tal clichê vem se tornando cada vez mais temível em nosso dia-a-dia nos processos criativos. Entretanto, às vezes, o clichê é tão inevitável como um “bom dia”.

É razoável acreditar que o ato de se abraçar com o tronco de uma árvore centenária, sozinho ou em grupo, tem efeitos de uma prece. Difícil é não haver devoção perante um ser tão belo, útil, pródigo, imponente, sagrado mesmo, capaz de nos infundir um solene e enigmático respeito.

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Árvores na literatura, música e mitologia
Não à toa, as árvores inspiraram e participaram com tamanha frequência e intensidade da criação de notáveis artistas. Na música, poesia, literatura, artes plásticas, protagonizaram-se cenários, personagens, simbolizaram o divino, a pureza, a vida, a fertilidade e a incomensurável força da Natureza, como berço e casa do reino animal, que nas florestas sempre se acolheu a sobreviver sob o maior exemplo de harmonia.

Lembremos de que a filosofia transcendentalista de Thoreau nasceu da contemplação dos arredores florestais onde morou por dois anos, experiência que lhe rendeu a mais emblemática obra literária sobre a
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relação do homem com a natureza. E que tal relação também deu origem a “O Senhor dos Anéis”, como confessou o próprio Tolkien, a partir de sua dor diante do desenfreado desmatamento da era industrial.

Na mitologia grega, a árvore se transforma em símbolo de glória e poesia quando o deus grego Apolo, filho de Zeus, promete amar o Loureiro em que se transfigurou sua amada, Dafne, nas Metamorfoses de Ovídio. E quando a Deusa da Natureza, Diana, opta por habitar bosques que se sacralizaram como indestrutíveis, onde era proibido desmatar e caçar animais.

Há um belo episódio de encantamento por um plátano na obra do compositor alemão-britânico Georg Friedrich Händel, musicado na famosa ária “Ombra mai fu”, igualmente ligado aos gregos antigos. Em sua ganância para conquistar o mundo e a Grécia, começando por Esparta, o rei da Pérsia, Xerxes, impacta-se com a beleza da portentosa árvore durante a campanha militar ao cruzar a Lídia. Entre as bênçãos que aos olhos de Xerxes emanaram daquele plátano, estava sua generosa e acolhedora sombra,
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que por aquela passagem tantos seres abrigou. Em um rompante de embevecimento, colocou adornos de ouro nos seus galhos e ordenou aos soldados que a protegessem de todo o mal, dali por diante.

O fato extravagante, mas poeticamente elevado, capaz de fazer um rei incluir uma árvore no tesouro imperial, é contado nas “Histórias” de Heródoto e originou o libreto da ópera “Xerxes” (Händel), escrito pelo diretor de teatro e compositor italiano, Nicola Francesco Haym, que se inicia justamente com a cena embalada pela ária, remetendo-a a Heródoto como ponto de partida. Sua versão orquestrada ganhou fama como o “Largo de Händel”, sendo executada com muita frequência pelo mundo, e se traduz como elogio à sensibilidade de um homem poderoso, conhecido como violento, mas que se rende ao esplendor e energia que se depreendem de uma árvore:

“Ombra mai fu di vegetabile, cara ed amabile, soave più.”
“Nunca houve sombra de uma planta mais preciosa, bela e suave como esta”
tradução livre
O contratenor Franco Fagioli interpreta “Ombra mai fu”, da Ópera Xerxes, gravada no álbum Handel Arias (Deutsche Grammophon).
Se é possível àqueles que admiram e comungam com as belezas naturais encantar-se diante de uma árvore, imagine o que são capazes de sentir quando imersos em um conglomerado de troncos e copas seculares, atapetado com musgos, enviesado de riachos e cheio de mistérios...

É muito difícil, talvez impossível, dizer com palavras o que se sente diante de cenários como, por exemplo, a Floresta Amazônica. Esta oportunidade nos veio há um bom tempo quando passamos uns dias na casa de familiares, em Pitinga (AM),
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à época uma vila situada no meio da mata. Eis que em uma pródiga manhã, lá estávamos no meio dos igarapés, banhados e margeados por tanta coisa linda.

Curiosas lembranças nos levaram a outra experiência, essencialmente oposta, mas com algo comum: a primeira vez em que nos defrontamos com os arranha-céus de Manhattan. Tudo chamava a atenção do garoto arquiteto, principalmente a altura daqueles imensos edifícios. De tanto olhar e admirá-los terminei acordando na manhã seguinte com um desconfortável torcicolo...

No Amazonas, ante aquelas árvores monumentais, nosso olhar não se cansava de percorrer a extensão, das raízes aos troncos e copas. Confesso que foi uma das experiências telúricas mais impactantes que já desfrutamos na vida. À vista daquela suntuosidade verde, vieram à razão todos os motivos que teve Villa-Lobos para compor algo tão precioso como o poema sinfônico-coral A Floresta do Amazonas, obra-prima com a qual coroou a derradeira parte de sua extraordinária criação.

Canção de amor da Suite 'Floresta do Amazonas', de Heitor Villa-Lobos ▪ Orquestra Filarmônica de Minas Gerais ▪ Gabriella Pace, Soprano ▪ Andrea Bissoli, Violão
Não apenas as árvores são descritas com requintada arte nesta colossal suíte, orquestrada com coros, cantos, narrações, ritmos, onomatopeias, mas todo o gigantesco conjunto ambiental e seus animais, pássaros, rios, matas, lendas, e a alma indígena que tanto fascinou Villa-Lobos desde jovem: Uma primorosa paisagem sonora que consolida musicalmente a rica ancestralidade brasileira.

Contemplar edificações históricas, antigas ou modernas é sempre emocionante por se antever de perto ousadias da engenharia e da criatividade arquitetônica, mas quando imergimos nos “templos” naturais, originais, primevos,
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criados pelo supremo "acaso", que muitos julgam sem inteligência, a mensagem que nos invade o espírito é outra. É uma forma de transcendência que se assemelha a um déjà vu, como se nos conectássemos com tempos imemoriais, com as origens da vida ⏤ uma vivência difícil de descrever. Tal como a euforia íntima que pulsa dentro da gente quando abraçamos um tronco robusto de árvore. Não sabe o que perde quem tacha este abraço de “atitude clichê”, ora vejam só... Certamente nunca beijaram uma flor, nunca alisaram musgos, não costumam escutar o mar, espiar borboletas, nem respiram com prazer o cheiro inigualável da terra molhada de chuva.

A magia das florestas
À medida em que a nossa sensibilidade foi se refinando com a evolução, a energia vital irradiada por uma árvore, sobretudo quando reunidas em grande quantidade em reservas naturais, foi se sublimando. As florestas não mais se limitaram ao abrigo e sustento do homem, que passou a descobrir em sua intimidade vozes entranhadas além das raízes. Sensações místicas começaram a fluir do interior, consciente ou inconscientemente, ao trilhar bosques, matas, hortos, florestas,
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aos que possuem afinidade com as maravilhas da Criação.

Os segredos, a vibração, os mistérios, a instigante atmosfera florestal que se irradia dos cernes aos cumes, dos musgos e cogumelos aos galhos e folhagens, passaram a nos conscinetizar sobre o milagroso universo que é lar primordial de tantas formas e dimensões de vida, tesouro secular de inspiração, investigação, curiosidade e sabedoria. Afinal, quantos seres, entidades, povos, lendas, tribos, mitos, criaram vínculos de nascença e vivência com raízes tão profundas quanto as das árvores que nestes biomas os abrigam ao longo das eras!...

Embora a visão de lagos e mares, cachoeiras, cordilheiras, rios e montanhas exerçam sublime fascínio, a imersão mata adentro nos causa sensações, de certa forma, metafísicas. Não é em vão que além dos seres animados que se abrigam em matagais, há vetustas referências históricas, fábulas e lendários relatos de diversos povos e culturas sobre caiporas, duendes, sacis, faunos, dríades, sátiros, fadas, druidas, elfos, trolls, e outras criaturas das mais diversas mitologias, que vivem nas florestas com dons e funções específicas, particularmente poderes para protegê-las do mal.

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As ninfas, espíritos femininos originados da mitologia grega, destacam-se não apenas pela virtuosa tarefa de zelar pelos bosques e florestas, mas por serem filhas de deuses, titãs e divindades primordiais. E assim ilustraram amplamente as manifestações da arte desde os tempos mais antigos, extrapolando a essência individual de suas classes, passando a representar coletivamente nobres virtudes da humanidade.

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Ninfas e Faunos ▪ Arte: Jean-Baptiste Camille Corot, S.XIX ▪ Museu de Arte de Birmingham, Alabama, EUA.
Na poesia e na literatura as ninfas assumem posição mais relevante, seguidas da música e das artes plásticas. Homero, Hesíodo, Virgílio, Ovídio, são exemplos fundamentais de poetas que se inspiraram em ninfas, assim como na música há Debussy, Ravel, Häendel, Gluck e Wagner, autor da música e do libreto da grandiosa ópera “O ouro do Reno”, que escolheu para guardiãs do tesouro mágico três ninfas do emblemático rio da Alemanha. Esta ópera e o balé “Daphnis et Chloé”, de Ravel — extensa obra-prima que ergueu as ninfas da floresta ao ápice musical — são os maiores trabalhos protagonizados por tais figuras míticas que bem personificam as forças vivas da Natureza.

Reiterando a grandeza de peças inspiradas com profundidade na ficção mitológica, sobretudo em Wagner, Jean Sibelius merece lugar no pódio das melhores referências. Além de ser o mais proeminente compositor da Finlândia, tão nacionalista ao ponto de se confundir com seu pais, e ser autor do poema sinfônico que é considerado o segundo hino nacional, foi quem explorou a mitologia e o folclore finlandês ao fundir música e poesia como poucos.

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A dança das ninfas ▪ Arte: Jean-Baptiste-Camille Corot ▪ Louvre, Paris.
Jean Sibelius, música e poesia
Sibelius sempre demonstrou íntima conexão com a literatura e especialmente com a poesia épica nacionalista finlandesa. Provavelmente pelo fato de que as antigas canções populares terem sido a fonte da epopéia de seu país, o Kalevala, uma compilação de cantigas, lendas, folclore e poemas de caráter lírico criada pelo médico, filólogo, linguista e pesquisador finlandês Elias Lönnrot. Suas afinidades líricas se reforçam no convívio frequente que manteve com poetas, escritores, literatos, para debater sobre a melhor maneira de musicar poemas, de adequar ritmos, conciliar versos, atmosferas e planos sonoros, e deles obteve ajuda para compor seus lieds. Assim nasceram mais de 100 canções com letras de consagrados autores finlandeses e suecos, na maioria,
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Johan Ludvig Runeberg (1804–1877), poeta, professor e jornalista finlandês, considerado o poeta nacional da Finlândia. ▪ Fonte: Wikimedia
mas também escoceses e britânicos, muito ligados ao romantismo literário da época, sendo a principal fonte de seus cantos, o poeta nacional da Finlândia, J. L. Runeberg.

Além dos lieds, impressiona a extensão de sua obra coral, pouco conhecida como a orquestral. Diferente da maior parte das conhecidas peças para canto, individual ou coletivo, nas quais predominam a louvação, a devoção à sacralidade e a própria liturgia religiosa, Sibelius privilegiou substancialmente a poesia. Enquanto a grande maioria das cantatas, réquiens, oratórios, missas, motetos, corais, do período barroco ao romântico, seguiram padrão eclesiástico, alguns inclusive cantados em latim, nas obras corais de Sibelius foi a poesia que se fundiu à música. Suas composições sinfônicas para coro, solistas e orquestra, a exemplo de Kullervo (icônica sinfonia também inspirada na epopeia nacional finlandesa), os vários ciclos baseados na mitologia nórdica, as peças para narrador, vozes e orquestra, melodramas, para coro masculino — parte essencial de sua obra, que o coloca entre os grandes autores do repertório coral masculino —, composições para coro misto (a capella), diversos hinos e corais patrióticos para coros masculinos, femininos e mistos, todos incluem textos líricos de escritores de sua predileção.

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Jean Sibelius (1865–1957), compositor finlandês e uma das figuras centrais da música do fim do século XIX e início do XX. Sua obra contribuiu decisivamente para a afirmação da identidade cultural da Finlândia, sobretudo durante o período de dominação russa. ▪ Fonte: Wikimedia
O propósito de mencionar no início deste texto o poema “A ninfa da floresta”, de Viktor Rydberg ⏤ reconhecido como notável poeta e pensador europeu, muito afinado com o idealismo e a mitologia fínica ⏤, foi para ilustrar de forma mais abrangente a abordagem em torno da magia florestal e de sua milenar historicidade, que excede os limites artístico-literários para além dos mitos, do transcendentalismo e toca o ser humano intensamente. Interagir com esta incontável miríade bio-orgânica que caracteriza os tecidos macro e microscópicos do mundo vegetal estimula a imaginação e suscita elevadas vibrações da alma desde os tempos mais remotos. O que justifica
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Viktor Rydberg (1828–1895), escritor, poeta, jornalista e pensador sueco, cuja obra combina crítica social, reflexão religiosa e interesse pela mitologia nórdica. ▪ Fonte: Wikimedia
a prodigalidade dos meios de expressão da arte que a história registrou em seu longo percurso.

Ao “animar” os versos de Rydberg com sua habilidade musical ímpar, Sibelius retratou o poderoso fascínio que o ambiente da mata nos desperta com todos os seus perigos e insondáveis mistérios. As entidades que passaram a integrar o reino das selvas no transcurso dos séculos brotaram feitos ramos e ervas pelos povos e culturas do planeta com a mesma força da vida botânica. A este imaginário incorporaram-se verdades e fantasias, humanas e espirituais, que vêm nos ajudando a sonhar e acreditar nas forças da natureza como em nós próprios.

As ninfas como inspiração
O sueco escolheu a lendária ninfa para conduzir sua poesia e o finlandês, admirador fervoroso de Rydberg — ambos eminentes representantes da riqueza e das raízes culturais de seu povo —, conseguiu recriar o poema em narrativa sonora, entoando versos com a voz da melodia, idem poderosa sobre os desígnios da emoção que nutre os “eus líricos” dos grandes criadores na trama das artes.

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Arte: Nils Blommér (1850) ▪ Museu Nacional, Estocolmo
Aqui não se limitam as ninfas apenas à decantada e diáfana personagem, pois é sabido que para defender a Natureza e alcançar seus intentos elas se utilizam dos ardis da sedução. E são capazes de agir com rigor para ensinar os humanos sobre os riscos do destino, da ambição, da leviandade, da curiosidade e dos mistérios do mundo. Como bem aconteceu com o formoso Hilas, que durante a expedição dos Argonautas foi seduzido pelas náiades (ninfas dos lagos) atraídas pelo primor de suas feições. Ao procurar matar a sede, desce a uma fonte quando elas o puxam para dentro d’água, de onde nunca mais saiu, deixando atônito seu maior amigo, Hércules. A lição sobre os excessos de beleza física, atributo efêmero e perigoso, a força sedutora da natureza e o fatalismo que pode advir das
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Hilas e as Náiades ▪ Arte: Henrietta Rae, 1909 ▪ Col. particular.
aventuras pelo desconhecido são ilustrados com muita sabedoria neste mito sobre a ambiguidade da atração.

A personagem de Viktor Rydberg é idem fiel à natureza ambígua, formosa e perigosa, sinistra e sedutora que ampara e protege as florestas, com todos os seus segredos, armadilhas e frestas de periculosidade.

Para não se afastar da tradição mítica, quem contracena com a ninfa não poderia deixar de ser um herói, invariavelmente identificado com os desafios da existência. Nas muitas lendas do rico folclore escandinavo estão presentes as entidades femininas que habitam os ecossistemas, anjos zelosos da fauna e da flora. E as exuberantes paisagens da Finlândia, fontes de muita inspiração, sempre homenageadas por Jean Sibelius e Viktor Rydberg, tanto sob inspiração patriótica como cosmogônica, encontram-se na composição que uniu poesia e música em duas expressivas formas concebidas por Sibelius: o poema sinfônico e o melodrama, quase um ano depois.

O poema sinfônico
Na versão em melodrama, a poesia se declama por inteiro, entrelaçada no ritmo e na diversidade melódica que narra cada episódio da história de sedução de uma ninfa sobre o herói, com a carga emocional devidamente emoldurada pela música.
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Nesta peça, composta quando ainda era muito jovem, Sibelius já exibe maestria para criar tessituras sinfônicas que se integram à literatura com singular fidelidade. Na versão orquestral, que ora comentamos, a saga do personagem, Björn, está descrita em partes ordenadas distintamente nas quais a história é transmitida através de música sem palavras. A ação, os três personagens principais — o herói, a ninfa e a floresta —, e os coadjuvantes — ventos, anões, luar e mistérios — são introduzidos, descritos e enfatizados particularmente com a sutileza dos respectivos timbres, ora etéreos e encantadores, ora sombrios e amedrontadores, envoltos no que se pode definir como atmosferas orquestradas.

A diversidade rítmica se adequa à sequência do enredo fiel às lendas com alusão aos espíritos florestais femininos, encantadores como as sereias, mas perigosos para os mortais, capazes de enfeitiçá-los ou desviá-los do caminho seguro. Senhora de forças irresistíveis e potencialmente destrutivas, aqui a floresta encarna os obstáculos e desafios enfrentados pelo herói, tão necessários e presentes no legado épico. E suas ninfas engendram armadilhas para atrair e testar o controle, a autonomia e o poder do herói frente às tentações de
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sua formosura irresistível. Na simbologia lírica elas podem ser interpretadas como metáfora dos ímpetos da sedução que aprisionam a psique humana, vulnerável às forças superiores, ratificando um tema recorrente no Romantismo: o perigo de se deixar levar por ilusões e desejos imprudentes. Afinal, a essência da beleza pode ser dúbia, antagônica, simultaneamente afável e nefasta.

As florestas da Suomi, com sua magia e encantos evocados na introdução desta fábula poética de Viktor Rydberg foram o que inspirou a odisseia sinfônica de Jean Sibelius. Ele não precisava de um plátano no meio do caminho, como o rei Xerxes, para se extasiar, pois tinha intimidade com os cenários da Finlândia, cantados e decantados pelo mundo como soberbos. Tamanho esplendor paisagístico foi usado na obra deste nobre filho da terra quase como uma matiz estética. Densas matas boreais, que cobrem 75% do território, suaves colinas, rios glaciais, milhares de ilhas e ilhotas, rochas esculpidas pelo gelo, pelo mar, em cenários desenhados por eras glaciais, e quase 200 mil lagos de águas calmas, que integram a austeridade minimalista a refletir silêncio e vastidão, moldaram diretamente sua produção musical, a exemplo dos célebres poemas “Tapiola”, “Finlândia” e várias sinfonias que também revelam autênticos panoramas sonoros do território nórdico.

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É a este encantamento que aludimos, que tem presença sonora viva em "A ninfa da floresta", música na qual mito, natureza, magia e perigos se fundem nas madrugadas nascentes, nos bosques que respiram, nas folhas que tremem ao vento. Foi isto que hipnotizou o moço forte e bonito, certa noite de outono.

A música
Na Alla Marcia (primeira seção) que abre o poema, quase em forma de prelúdio, o tema envolve com ares de fanfarra a apresentação do jovem protagonista Björn, enaltecendo seus predicados e estado de espírito cheio de ânimo. A caminho de um banquete,
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este herói de ombros largos vê a lua que cintila sobre pinheiros e penedos, e o vento a sibilar sobre o pântano e o arvoredo. Ao passar mais próximo, é arrebatado pelo belo cenário, e numa espécie de hipnose se entrega à magia sedutora esquecendo o compromisso. A música segue alegre, exultante, sem nenhum indício do que lhe reserva o futuro.

Algo bem mais forte passa a atraí-lo de maneira insólita e o faz enveredar por entre as árvores que parecem entoar um canto inebriante em seu louvor. As estrelas cintilam por entre as copas que dançam com o vento e tudo parece convidá-lo a se embrenhar mais e mais, incontrolavelmente.

Mas, além das ninfas, há outras entidades que vivem nas florestas, igualmente ardilosas, e podem até agir “em parceria” para os mesmos objetivos, que, embora bem intencionados, costumam ser penosos.

Björn prossegue enveredando pelas profundezas do verde mágico quando percebe que algo lhe envolve. Com os raios de luar que se infiltram pelas fendas das densas copas, anões travessos começam a compor uma teia que o cobre com um poderoso manto enevoado a conduzi-lo mata adentro. Certos de que a vítima estava então capturada,
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põem-se a rir da exitosa peraltice. Há quem considere este trecho do poema sinfônico o mais marcante, pela criação singular de um campo sonoro hipnótico para imersão do ouvinte em estados meditativos ⏤ atmosferas tão bem exploradas por Erik Satie e Arvo Pärt em sua fase inicial. O pequeno tema imaginado por Sibelius para caracterizar a tensão do episódio com os anões e a malha de luz usada por eles para forçar Björn a se perder na floresta, repete-se nervoso e arisco , reforçado por sopros que são adicionados pouco a pouco e rodopiam freneticamente com flautas, cordas, trompas e trombones. Impressiona a fiel aproximação que a música consegue com a poesia nesta segunda seção (Vivace assai—Molto vivace), como bem descreve o texto de Rydberg:

“Ele segue adiante, submisso a um desígnio sombrio; vai contente, embora impelido a avançar. Mas os anões da floresta, em mantos negros como azeviche, esgueiram-se pela urze, tecendo uma rede de luar e de sombras de ramos e caules ondulantes — uma teia trêmula nos bosques e nas matas, lançada atrás dos passos do andarilho. E enquanto ele prossegue, eles riem, roucos, do prisioneiro que já é seu.”
Björn não consegue mais distinguir qual é a força que o carrega. A extasia que o levou a adentrar-se nesta aventura confunde-se com a pressão exercida pela rede luminosa que os anões teceram, e assim é arrastado ao inexorável. Os ventos se intensificam, as sombras dos galhos e copas rodopiam com a dança das árvores e tudo se entrelaça à teia e às risadas dos anões, que debocham do herói fisgado e rendido pelo indomável feitiço que já o domina por completo.

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A música perfila com exatidão o frenesi que tomou conta da indômita saga. O tema introduzido pelo clarinete vai se repetindo à medida que as cordas e outros instrumentos se unem sob tensão progressiva, com modulações que oscilam entre flautas que riem, sopros trinantes, trompas insólitas, a caminho de uma eufonia um tanto caótica com a chegada dos metais. A escolta do herói se acelera com o torvelinho musical que expõe a sofreguidão dos anões para fazê-lo chegar ao local pretendido com ênfase orquestral exuberante. O portentoso tutti do final que precede o fatídico encontro parece levar o ouvinte à ideia de um desprendimento total experimentado Björn ao ser trazido e ali deixado na incerteza do porvir, como se nada mais pudesse fazer, a não ser se entregar ao acaso. Os metais enfatizam com sonoridade robusta o final da angustiada trajetória e afirmam que ali está selada sua sorte.

Sibelius: A Ninfa da Floresta. ▪ The Dar Choral Society & Orchestra. Regência: Hekima Raymond.
Sibelius então conclui o sinuoso percurso com a retomada do tema característico, bem ao seu estilo nacionalista, a enfatizar o heróico personagem que ali chega e precisa ser apresentado. Em caráter de coda, arremata esta seção em um breve interlúdio que prepara com certo suspense o aparecimento da bela ninfa.

De repente, com todos diante de um lago de águas plácidas e cristalinas, tudo se acalma e os anões vão-se embora. Inicia-se a terceira parte (Moderato), que não poderia ser melhor descrita do que pelo respectivo trecho da poesia de Rydberg:

“Agora o vento, em suspiro, se aquieta, e a noite de verão se faz doce; aromas brandos exalam das tílias em flor junto à poça de água adormecida. Nas sombras, um sussurro se insinua: um rochedo se revela, e um sudário branco como a lua. Ali, um braço acena, tão fino, tão arredondado; ali se ergue um seio; ali murmura uma boca; ali cintilam dois olhos nos teus, azuis — eternamente verdadeiros — para que toda memória se esvaeça. Oferecem-te a desgraça e a melancolia, oferecem-te o sono e os sonhos, na paz frondosa da mata silenciosa e adormecida.”
Björn se embevece com o esplêndido cenário que de pronto o fascina. A mansidão da superfície aquática a espelhar a idílica paisagem entre penhascos sombrosos transmite uma quietude imersiva quase hipnótica que lhe acalenta a alma e o coração.
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Ao aproximar-se da margem, ele enxerga numa pequena curva do lago, ao pé do rochedo, a formosa criatura ornada por um brilho sensual irresistível. Vestida de finíssimo tecido branco, suave como uma pluma, iluminada pela lua que ainda cintila no alto das copas, ela se movimenta voluptuosamente deixando à mostra a sedutora silhueta dos seios em flor.

A melodia que descreve o idílico instante, entoada por um plangente violoncelo, ao estilo de canzonetta, é considerada por musicólogos como um dos memoráveis exemplos de performance solística para cello nas composições orquestrais de Sibelius. Acompanhado por corne inglês e pizzicato de cordas, a envolvente cantilena retrata a aproximação dos dois:

Ali, onde a bruma toca o chão, Onde o silêncio pesa como neve, A ninfa surge — fulgurante e pálida — Com cabelos do brilho das noites nórdicas E olhos que guardam segredos antigos.
A esta altura, Björn está em transe completamente tomado de admiração pelo espetáculo e, sobretudo, pela fruitiva dríade. Ao percebê-lo se aproximar embevecidamente, ela começa a se movimentar de forma sutil e insinuante. A poesia não deixa dúvidas de que a beleza do herói também atrai a diáfana personagem, de cabelos "com o brilho das noites nórdicas e olhar que guarda antigos segredos".

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Para musicar a magia que faz Björn quedar-se deslumbrado no onírico cenário, Sibelius criou um solo de violoncelo até hoje exaltado por musicólogos que o classificam como episódio de caráter lírico e envolvente cuja suavidade harmônica e fluidez melódica, além de ensejar à emotiva cena a intensidade do deslumbramento do protagonista, soa como uma espécie de “canto” da ninfa, um recurso intencionalmente vocal que bem traduz o lirismo do devaneio, um tanto místico, em refinada sintonia com o que é descrito no poema. É uma perfeita representação dos personagens e da atmosfera que os embala.

Àquela altura, o herói já não mais se encontra em si mesmo, absorto e perplexo com tudo que lhe aconteceu desde que se aproximou da floresta e do fatídico percurso. Entretanto, nenhum outro desejo ou frustração lhe perturba diante da espetacular paisagem e de uma criatura tão bela. Como se toda a sua vida tivesse valido aquele instante de paixão. Cego de vontade, dirige-se à musa que lhe inspira incontrolável ternura. A seguir, fala a poesia:

Ela estende a mão: “Vem, Björn, meu amado escolhido. És forte, és belo, és meu.” E o envolve em abraço frio como noite de inverno E doce como promessa de sonho. Canta para ele com voz que embala e fere: “Dorme, dorme no meu reino, no leito eterno da floresta profunda.”
E no crucial aconchego do amplexo a que ambos se entregam, consome-se a fatalidade docemente circunscrita pela elegia sonora imaginada por Sibelius para tal desfecho:

Assim o moço se perde para sempre Onde os pinheiros sussurram segredos, Onde o luar nunca chega inteiro, Onde dançam as sombras antigas — No abraço da Ninfa da Floresta.
Este estado pleno de admiração o faz esquecer de sua vida pessoal, de seus afetos, do que deixou para trás, pois agora estar ali abraçado por aquela formosa entidade o torna inteiramente feliz e nada mais importa.

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Todavia, passada a euforia do encanto, Björn começa a recobrar a lucidez perdida desde que atendeu ao chamamento oculto daquela noite e se exauriu por completo, agora capturado por aquela criatura perante a qual perdeu igualmente suas forças físicas. Ele tem plena certeza dos poderes incontroláveis que a ninfa exerce sobre aquilo que protege e do cerceamento de sua vida, dali pra frente em suas mãos, e começa a entender que estará privado de toda liberdade para sempre.

A lição expressa pelo resultado da poesia musicada por Sibelius não foge ao padrão estético e filosófico da mitologia grega ou nórdica. A ninfa exerceu seu papel clássico e manteve a tradição de repassar ensinamentos sobre as nobres virtudes humanas ou divinas, os perigos e tentações do desconhecido, de se afastar dos valores reais e ser consumido pela ilusão dos desejos, dos ímpetos irracionais e inconsequentes que desviam o homem de seus compromissos e de sua felicidade.

Para concluir o drama épico que faz de Björn uma emblemática vítima, destinado a padecer sob o martírio do fascínio insanamente, inicia-se última seção desta magnífica peça, impressionante
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não apenas pela beleza sinfônica mas sobretudo pela homologia com que descreve as tormentas do irrevogável sortilégio a que, em geral, os heróis sucumbem nos mitos clássicos. Sibelius elaborou o final com um "crescendo" pouco conhecido na literatura sinfônica. Quando Björn passa a perceber que está fadado a viver preso na floresta e que perdeu toda sua vida pregressa, experimenta uma grande tristeza que na música começa a crescer e evoluir. A angústia se apropria aos poucos impiedosamente de sua alma. A intensidade sonora se desenvolve para transmitir ao ouvinte os tormentos de uma tragédia que se agiganta com inserção de todos os naipes, como se a orquestra se transformasse em um fogo incontrolável e ardente. Há uma mistura de glória e destino, até que tudo se finda dramaticamente neste merecido tributo a Viktor Rydeber, à mitologia nórdica e à força irresistível das florestas de qualquer parte do mundo, sempre prontas a nos oferecer inspiração para a sublime conexão entre música, poesia e os manifestos da gênese divina.

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