Os tipos populares escasseiam em nossas ruas. Marreteiro era descendente de escravos, vendedor ambulante. Carregava nos fortes ombros o pes...

O profeta da estação

jose leite guerra profeta negro ambiente de leitura carlos romero

Os tipos populares escasseiam em nossas ruas. Marreteiro era descendente de escravos, vendedor ambulante. Carregava nos fortes ombros o peso de dois balaios apinhados de frutas.
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Apinhados, literalmente. Pinhas, sapotis, algumas bananas. Fazia ponto na antiga Estação Ferroviária (a Great-Western).

Sentado nos batentes, segurando o vento com o chapéu para não apagar o charuto. Dizia, a mostrar os dentes perfeitamente brancos e bem conservados, que o bueiro da locomotiva soltava menos fumaça que o cubano entre os lábios. “Meu branco” – tratava os de pele clara, sem mágoa ou ironia.

Naturalmente, se colocava como negro, vivia simplesmente, educação de origem, embora recordasse, quase sempre, os sofrimentos dos antepassados. “Meu patrão, dava cem livros!"

Havia preconceito, sim. Marreteiro foi um exemplo de convivência. Tinha fregueses que o tratavam com desprezo: “Vai, negro, escolhe uns sapotis para mim”. Ele olhava o interlocutor com uns olhos serenos, escolhia humildemente as melhores frutas, e dava a resposta pelo silêncio. Ou desejando: “Deus o acompanhe, meu branco”.

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Gostava de crianças: fora casado, porém nunca pai. Talvez fosse estéril. Não sei. Eu, pelos meus dez anos de idade, levado pela mão de papai, ganhava daquele anjo um sapoti gorducho, escolhido por seus dedos compridos, amarelecidos pelo fumo que tocavam minha cabeça como a de um filho. Pelo que vim refletir depois, justamente na data em que soube de sua partida, Marreteiro era uma cascata de bondade e de amor ao próximo.

Chegava a imaginar, ainda garoto, deitado na rede, que Marreteiro era um mensageiro de Deus. Um profeta disfarçado em vendedor de rua. Analfabeto, pregava o evangelho da boa convivência, do desapego, do desarmamento de ânimos rebeldes, de diferenças e desrespeito, do preconceito.

Um sábio humílimo, sem disfarces, sem fantasias, um exemplo a ser rememorado sempre, muito principalmente nos dias transversos de hoje; dias que galopam feito cavalos indomáveis de um apocalipse antecipado.


José Leite Guerra é bacharel em direito, poeta e cronista
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