Dizem que Ernest Hemingway gostava mais de sua máquina de escrever que das suas mulheres. Bom, é possível que sim, ele não tinha mesmo o ju...

Querido computador


Dizem que Ernest Hemingway gostava mais de sua máquina de escrever que das suas mulheres. Bom, é possível que sim, ele não tinha mesmo o juízo muito certo. É tanto que deu no que deu.

Gostar mais de alguém do que eu gosto de Ilma, meus filhos, meus netos, impossível! Mas o meu computador me dá mais prazer do que a presença de muita gente. Porém, longe de mim ser um ermitão. Explicarei melhor.

Longe de ser simplesmente uma versão moderna da máquina de escrever, o computador é uma janela para o mundo.
Eu tiro as noites das sextas-feiras para garimpar. Os riachos são a internet e uso o computador como uma bateia. Nessas noites durmo muito tarde, navegando pela internet nas asas, ou nas ondas do meu computador, eu encontro pepitas de ouro, pedrinhas de brilhante, e até mesmo pérolas.

Com o computador faço visitas inesquecíveis, como à Capela Sistina, que me foi enviada pela minha amiga e paciente Denise Schüller. Ou ao Museu do Prado, “guiado” por minha querida Josefa Dorziat, então com 94 anos ainda “surfava” nas ondas da web, e que já está “no outro plano”, como diria o saudoso filósofo Carlos Romero, que também deve estar no mesmo plano, muito melhor do que o nosso.

Abro um parêntese para dizer que a minha vida tem trilha sonora. Isso porquê músicas marcaram todos os bons e maus momentos ao longo da minha existência.

varig
Procuro (e geralmente encontro) músicas antigas, filmes raros, antigos reclames de propagandas que me trazem boas lembranças, fotografias de lugares e pessoas que me foram muito caras e importantes. É o caso dos filminhos da falecida Varig, cujas músicas são inesquecíveis e me evocam célebres natais da minha vida.

A música mais antiga que eu me lembro, quando tinha três ou quatro anos, eu consegui reencontrar justamente na internet. É uma música do cancioneiro gaúcho, chamada Meu Boi Barroso. Eu quase chorei ao ouvi-la novamente, após mais de sessenta anos! Emocionante!

Encontro pedras preciosas, como o hino da campanha de Zé Américo de Almeida para o governo da Paraíba EM 1950! Cresci ouvindo essa marcha. Encontrei uma guarânia que é uma bela história de terror: Serafim e Seus Filhos, de Ruy Maurity. Ao mesmo tempo bonita e horripilante! Também sofre profunda influência dos pampas.

Encontrei raridades, como, por exemplo, uma parceria sobrenatural de Vinícius de Moraes com Johann Sebastian Bach! Explico melhor.

Trata-se da canção Rancho das Flores, na qual Vinícius aproveitou a belíssima música de Bach, Jesus Alegria dos Homens e criou uma linda letra para ela. Só você ouvindo. Recomendo que escolha a que é executada pela Banda do Corpo de Bombeiros do antigo Estado da Guanabara. É maviosa! Mas esta versão concorre com a que é cantada por Os Pequenos Cantores da Guanabara: quanta beleza! Prestem atenção à letra, as dezenas de flores às quais Vinícius presta homenagem.

E as músicas, então?! Ouço mambos, rumbas, boleros e cha cha cha, só para citar o delicioso ritmo latino. Todas as músicas de Boney M. Os clássicos inesquecíveis, nas vozes de Andréa Bocelli e Plácido Domingos, meus tenores prediletos. O violino de Stephane Grapelli acompanhado do violão-guitarra de Django Reinhardt executando J’Atendrai, música que abre e fecha o filme O Baile, de Ettore Scola.

Eu acho que os déspotas são um grande estímulo. Quando destilam as suas virulências ativam o sistema límbico dos cronistas
Encontrei na internet uma das minhas musicas prediletas, Zorba, que me evoca boas lembranças das sessões do Cine Municipal. Mais exatamente Zorba tocada e dançada nas ruas de Ottawa, num bailado de dança coletiva e sincronizada. Um show!

Vocês precisam assistir ao show de Ivan Lins tocando Dinorah com o guitarrista Lee Ritenour. E a cara de satisfação e admiração de Ritenour por Ivan Lins. Impagável! Tem na internet das noites das sextas, materializadas por meu computador.
Assim como as músicas de Ed Licoln e da Banda Veneno de Erlon Chaves, que soam como o Elite Bar de outros tempos.

Os Golden Boys me fazem voltar ao grêmio do Liceu de 1968, e reencontrar Roberto Lira, Maria Carmem, Leninha, Paviva e Zé Paulo. Ricardo Lombardi mexendo com todo mundo. E jogar xadrez com Ranilson Marinho, Rubem Freire e Chico Passarinho (todos sem máscaras!). Viagem melhor do que LSD.

E a música Stand By Me, que John Lennon popularizou, cantada por músicos de rua do mundo inteiro, é extasiante! Linda, também, é All You Need Is Love, que Ilma adora e é cantada por crianças de várias partes do planeta. Belíssimos espetáculos!

Consegui encontrar 13 variações de Senza Fine, para mim uma das piu belle canzone italiane (a outra é Anima e Cuore), que fizeram fundo musical ao nosso passeio pela Costa Amalfitana, no interfone do tradutor do ônibus turístico. São todas produtos das minhas pesquisas pela internet, com a ajuda do computador.

Jogo com alguma frequência xadrez pelo computador. Participo até de torneios, ao vivo, no www.chess.com, onde encontro amigos do Clube de Xadrez Miramar, do Mestre FIDE - MF Chiquinho Cavalcanti.

Vez ou outra eu estudo italiano. Pesquiso canções italianas no www.italiasempre.com. É um verdadeiro áudio-visual de italiano, pois você terá à sua frente, no monitor, a música, o cantor que a popularizou, o ano em que foi lançada, a letra em italiano e a tradução em português. É ótimo para aprimorar a pronúncia. E divertidíssimo!

Aí chegamos ao Word, o editor de textos, uma das maiores invenções da tecnologia, quase se rivalizando com a roda e a máquina de escrever pelo Padre Azevedo. Pelo menos para mim. É com imensa satisfação que me sento à frente do computador para criar: escrever de ofícios a crônicas, passando por relatórios, votos nos julgamentos do CRM, roteiros cinematográficos (sou um roteirista frustrado!), planos de viagem, laudos médicos, projetos científicos, críticas políticas, sátiras... E por aí vai.

Quando estou sem inspiração, como hoje, fico dedilhando as teclas do computador, e logo surge algo, alguma lembrança, algo que vi ou ouvi hoje. Acho, comparando muito mal, que os nossos cronistas deviam experimentar sensações semelhantes, diante da máquina de escrever.

Quando estou indignado escrevo melhor! As palavras jorram na tela do meu computador. Eu acho que os déspotas são um grande estímulo. Quando destilam as suas virulências ativam o sistema límbico dos cronistas.

Longe de ser simplesmente uma versão moderna da máquina de escrever, o computador é uma janela para o mundo. Alguns exagerados chegam a dizer que é o portal para outra dimensão!

Como vocês podem ver, jamais trocarei um bom computador pelo iPhone mais rico que houver. Há quem prefira escrever num celular. Eu tenho aversão e rejeição a isso. Para mim, escrever em celular é para quem tem dedinhos fininhos de lagartixa. Os meus são muito grossos para isso.

Aliás: para mim, trocar um computador por um celular, para escrever um texto, é como trocar uma boa transa por uma...
Ah! Deixa pra lá!


José Mário Espínola é médico e escritor
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  1. Muito bem, José Mário, e obrigada por partilhar o resultado do seu garimpo conosco!

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  2. Senti em uma volta ao mundo em poucas palavras; muito bom obrigado Dr.José Mario

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