Minha cabeça gira por: Shakespeare, o escritor referência para a literatura ocidental. Tragédias, comédias, sonetos. Minhas aulas com a professora Vitória Lima, com João Batista de Brito,
Letícia Cavalcanti e a iniciação a Hamlet. Meu concurso para professor na UFPb, campus Campina Grande. No sorteio, tirei o ponto de Língua e Literatura Inglesa (Substantivo e Hamlet) para a prova da aula. Como juntar isso? Tive uma ideia interessante: selecionar as falas/trocadilhos de Hamlet para enganar o padrasto e, como uma ratoeira (nome da peça), capturar o criminoso do seu pai, o rei. Fiquei em segundo lugar, mas, ganhei um dez nessa aula. E depois, passei no concurso aqui no campus João Pessoa.
Um mosaico me passa na cabeça: o exemplar especial de Hamlet, presente de uma pessoa mais que querida. Rosencrants and Guildestern are dead. Comprei o exemplar da peça em Londres. Tom Stoppard, morto recentemente. Stratford-Upon-Avon,
1970s: nagevando nas águas tranquilas do rio Avon, Inglaterra.
a cidade de Shakespeare. Minhas idas, algumas. Passeios de canoa pelo rio Avon. Aquela casa e o assoalho com o barulho dos séculos. Muito barulho por nada! As bruxas de Macbeth! Ser ou não ser! A linda e famosa Thatched House, onde teria vivido a mulher de Shakespeare, Anne Hathaway.
Os enredos da literatura contemporânea muito se abastecem da literatura clássica e canônica. Uma frase, um personagem, uma fresta, um tema, uma janela, e tudo é reescrito a partir dali. Lembro de um dos protagonistas desse repertório, Wide Sargasso Sea, da escritora Dominicana/Britânica, Jean Rhys, de 1966, romance pós-colonial e feminista que conta a história do casamento do personagem Rochester, do ponto de vista de Bertha, sua esposa, e The madwoman in the attic, título esse que também surgirá num outro clássico que terá a mulher/escritora e a imaginação literária do século dezenove como temas. Livro de 1979, das escritoras americanas Sandra Gilbert e Susan Gubar, no qual examinam a literatura vitoriana de uma perspectiva feminista. Uma linha puxa a outra.
Maggie O'Farrell (1972), escritora irlandesa radicada no Reino Unido, autora de Hamnet (2020). ▪ Fonte: Wikimedia.
Maggie O`Farrell, irlandesa e escritora do livro que inspira o filme, Hamnet – A vida antes de Hamlet, talvez tenha utilizado essa ferramenta também. Escritora e atores irlandeses se vestem para dar vida a esses personagens. É a tragédia primeira, com o luto e o silêncio, que talvez originaram algumas das mais famosas tragédias da literatura ocidental. Foi preciso uma escritora irlandesa, Maggie O`Farrell, e uma diretora chinesa, Chloé Zhao, para que mudássemos o foco. Do protagonista William Shakespeare para a sua mulher, Agnes (Anne), até então referida somente numa nota de rodapé.
O filme Hamnet é um espetáculo! Ganhou o Globo de Ouro e teve tantas indicações. O casal de protagonistas, Paulo Mescal (Shakespeare) e Jessie Buckley (Agnes) arrebataram muitos prêmios. Agnes, uma mulher exuberante. Um personagem de vermelho, aninhada nas raízes das árvores da floresta. Uma sensitiva. Uma bruxa da relva. Linda. Paul Mescal faz William, atormentado pela arte, por ter que ir para Londres ganhar a vida e dar assistência à família. Me apaixonei por esse ator em After the sun.
Imdb
Os dois atores irlandeses, terra dos mares, das histórias, das guerras, dos monstros e lendas... e de forças literárias.
O Globe Theatre, por onde já passei algumas vezes, caminhando à beira do Tâmisa, quando quase pude ouvir aquelas falas do fantasma do pai de Hamlet. Uma tragédia que acomete a família. Uma tragédia anunciada, quando os filhos gêmeos, acostumados a trocarem de identidades, driblam à Caetana. Uma caverna, uma porta para o além. O alecrim, o tomilho, ervas macetadas, unguentos. O parto. O grito de expulsão, de dor. Os silêncios. Judith. Virginia Woolf em Um teto todo seu, falou dessa irmã “imaginária” de Shakespeare, já teorizando sobre gênero. Mas no filme, Judith, Jude, não conhecia Paul McCartney ainda. Existiu e sobreviveu às pestes, às febres, ao irmão. Hamnet, que inspirou Hamlet, e que através de “words, words, words”, irá fazer entender à sua mãe a arte do seu pai. As suas angústias literárias quando escrevia Romeu e Julieta, e através do palco, com a sua espada, irá performar o seu filho pequeno.
Hamnet (): a história de amor não contada que inspirou a maior obra-prima de Shakespeare. Filme dirigido pela vencedora do Oscar Chloé Zhao.
De certa forma, a representação vai além da realidade, da verdade, e o menino Hamnet,poderá vivenciar isso, mesmo que seja através das leis sutis da espiritualidade. Agnes, por fim, terá seu momento de epifania ao assistir à peça do marido, num Globe Theatre lotado a se emocionar, a se ver nos papéis, nas máscaras, nas lutas, e no rosto pintado de branco do fantasma do pai morto. A arte se sobrepõe à crueldade da vida. E nós, compreendemos e choramos juntos com Agnes. Agnes finalmente perdoará o marido, compreenderá o seu papel e o da sua arte, se fortalecerá para aceitar o destino do filho e o seu próprio.
E Vivas para as Annes, para as Agnes, que foram, sim, muito mais que notas de rodapés!