O futuro do vinho brasileiro: qualidade, crescimento e um mercado que ainda nem começou Enquanto reportagens internacionais desen...

O amanhecer do vinho brasileiro

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O futuro do vinho brasileiro: qualidade, crescimento e um mercado que ainda nem começou
Enquanto reportagens internacionais desenham um cenário sombrio para o setor global, com quedas de consumo e estoques acumulados, o Brasil vive uma realidade que exige uma análise própria e soberana. Cabe o questionamento: por que insistimos no erro de importar crises de países desenvolvidos quando nossa trajetória é diametralmente oposta? Subestimar nosso potencial com base em problemas alheios é ignorar a revolução que acontece em nosso próprio solo.

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Fonte: wine-locals.com
A verdade é que o Brasil nunca produziu vinhos com a qualidade e o esmero que entrega hoje. Enquanto regiões tradicionais no exterior enfrentam a estagnação, nossas vinícolas investem em tecnologia de ponta e pesquisa, elevando o produto nacional a patamares de excelência internacional. Aprendemos com as grandes escolas — Itália, França e Espanha — e honramos esse legado, mas hoje não precisamos mais imitá-las. Estamos, finalmente, escrevendo nossa própria história.

A excelência em Gramado e Bento Gonçalves
Essa maturidade é palpável quando visitamos projetos que tratam o vinho com reverência. Na Vinícola Ravanello, em Gramado, fomos recebidos pelo proprietário Alexandre Ravanello, que nos conduziu por uma degustação que é prova viva dessa dedicação.

O Ravanello Chardonnay 2025 é um exemplo de frescor e técnica: cultivado a 800 metros de altitude, passa oito meses em barricas de carvalho francês com a técnica de *batonnage*, resultando em um vinho
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Ricardo de Carvalho e Alexandre Ravanello, proprietário da Vinícola Ravanello, em Gramado (RS) ▪️ Acervo do autor
untuoso, com aromas que vão do pêssego e abacaxi a notas de baunilha e manteiga, com um retrogosto marcante de coco verde.

Já o Dionísio Ravanello 2018 é uma joia da vinificação integral, sendo fermentado e maturado inteiramente em barricas francesas. Esse corte multi-terroir une o Tannat da Campanha, o Teroldego da Serra do Sudeste e o Pinot Nero dos Campos de Cima da Serra. É um vinho potente, com aromas de frutas negras e café, desenhado para uma longevidade de pelo menos 12 anos. Em Bento Gonçalves, na região de Pinto Bandeira, o enólogo e sócio-proprietário Marco Salton nos apresentou a força da Vinícola Valmarino, enquanto analisávamos a evolução técnica de seus rótulos.

O espumante Valmarino & Churchill Prestige Nature redefine o conceito de complexidade: um corte de Chardonnay e Pinot Noir que estagia em carvalho americano de alta tostagem antes de passar até 36 meses em autólise na garrafa. O resultado é um espumante estruturado, com notas de coco queimado e brioche, mantendo uma acidez vibrante.

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Vinícola Valmarino, em Pinto Bandeira / Bento Gonçalves ▪️ Fonte: wine-locals.com
Para coroar a experiência, o Valmarino Reserva da Família 2020 — da chamada “safra das safras” — mostra o poder de um blend de sete uvas (liderado por Cabernet Franc e Merlot) que estagia 20 meses em carvalho. Com 15,2% de graduação alcoólica, é um vinho de volume impressionante, taninos sedosos e um final de boca que remete ao cacau e ao tabaco, com potencial de guarda que atravessa décadas.

Um continente de possibilidades
Essas vinícolas não são ilhas isoladas. A produção nacional de vinhos finos floresce de forma descentralizada e vigorosa. Da Região Sul ao Nordeste, passando por São Paulo, Minas Gerais, Goiás e até o Distrito Federal, o Brasil revela *terroirs* distintos e promissores. Hoje, bebemos vinhos ruins apenas por opção ou desconhecimento, pois a qualidade nunca esteve tão acessível.

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Sala de Barricas da Vinícola Ravanello ▪️ Fonte: wine-locals.com
Nosso mercado interno é o maior trunfo. Enquanto nações de tradição secular enfrentam a saturação, o brasileiro ainda está descobrindo o prazer da taça. Não se trata de substituir o importado, mas de conquistar um público que agora entende que o luxo e a identidade estão no produto local. Os acordos comerciais, quando surgirem, devem ser vistos como oportunidades de mostrar nossa personalidade, e não como ameaças.

O “crepúsculo” anunciado por analistas estrangeiros é, na verdade, o amanhecer da vitivinicultura brasileira. Enquanto o Velho Mundo se debate com armazéns cheios e falta de paciência, nós construímos uma indústria jovem, tecnológica e autoconfiante. A era da dependência cultural acabou; o que começa agora é a celebração de um vinho genuinamente nosso.

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