"Sub specie aeternitatis" - A expressão latina consta da Ethica, de Espinosa , e tem sido traduzida de diferentes maneiras. Há os...

À luz da eternidade

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"Sub specie aeternitatis" - A expressão latina consta da Ethica, de Espinosa, e tem sido traduzida de diferentes maneiras. Há os que a entendem como “à luz da eternidade”, enquanto outros preferem “do ponto de vista da eternidade”, como o escritor Paulo Rónai. Pessoalmente, penso que as duas traduções são boas, pois expressam com razoável fidelidade o “espírito” da frase, isto é, uma perspectiva de vida eterna colocada como parâmetro, referencial ou contraponto à vida terrena dos homens.
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B. Espinosa (1632-1677)
Claro que para os que acreditam que tudo termina no túmulo ou no crematório, a expressão nada significa, em termos de princípio moral norteador. Tudo bem. Mas o mesmo não acontece com aqueles que creem ou pelo menos admitem hipoteticamente uma sobrevivência da alma após a morte corporal.

Sabemos que a questão é antiga e que muito tem atormentado a humanidade ao longo dos séculos. Afinal, não é pouca coisa decidir-se sobre a existência ou não de uma dimensão pós-morte em que devamos prestar contas de nossos atos e obras nesta vida. Dá para imaginar que tal problema seja, mesmo que minimamente, colocado vez por outra na consciência de todos, inclusive daqueles que, de tão cínicos e maus, supomos não possui-la. E aí, nessa única vez que seja, resta instalado definitivamente o dilema fundamental: prestarei contas ou não, depois de morto?

Dostoiévski, a quem a questão do pecado sempre interessou, resumiu o mistério afirmando, em “Os irmãos Karamazov”, que “se Deus não existe, tudo é permitido”. Sim, porque só os que admitem, mesmo que apenas sob hipótese, a existência de Deus, podem aceitar uma dimensão pós-morte em que sejamos julgados pelo que fizemos enquanto vivos. O filósofo Luiz Felipe Pondé, estudioso do escritor russo, analisando a afirmação célebre, escreve que “Ela discute o fato de que, pouco importando sua crença, se Deus não existe, não há cobrança final sobre seus atos.
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F. Dostoiévski (1821-1881)
O ‘tudo é permitido’ significa que não haveria ‘um dono do Universo’ para castigá-lo (ou não), dependendo do que você fizesse”. Ora, os homens são como as crianças: se não há castigo, pode-se fazer o que quiser, sem censura nem culpa. Ou seja, instala-se a barbárie.

Muitas vezes tenho me surpreendido, nestes últimos tempos brasileiros, a refletir sobre certos personagens corruptos de nossa política, aparentemente – e creio mesmo que verdadeiramente – alheios a qualquer preocupação com o julgamento atual ou póstero de seus atos. Vê-se que esses tais não estão nem aí para o juízo humano ou divino, contanto que aumentem sempre mais suas riquezas e seus podres poderes. Poderia citar inúmeros nomes, todos conhecidos seus, caro leitor, mas para quê? Como se diz, em sentido oposto, não importa o santo, mas o milagre. Mas é tanto cinismo, tanta cara-de-pau, que é inevitável pensar: essa gente não teme nada, nem neste mundo nem alhures.

Tudo isso me leva inevitavelmente a meditar – sem nenhum proselitismo - sobre a importância moral das religiões, enquanto pregadoras do Bem. Fico pensando: exista Deus ou não, são essas crenças indispensáveis à humanidade, na medida em que formam moralmente as pessoas e estabelecem modelos éticos a seguir. Nesse sentido, pode-se dizer que as religiões são civilizatórias. Por isso Dostoiévski afirmou que sem Deus tudo é permitido, inclusive o Mal, em todas as suas vestes. É o que certamente devem pensar os ímpios de toda espécie, para os quais Deus e sua magistratura não representam nenhuma preocupação.

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S. Freud (1856-1939)
Freud identificou razões psicanalíticas para a atávica necessidade humana do divino. Para ele, precisamos dos deuses como precisamos de um pai natural, alguém que nos ampare contra os perigos do mundo. Faz sentido. Afinal, quem, numa situação qualquer de desespero, já não sentiu falta de uma proteção superior? De qualquer modo, penso que, fictícia ou não, a figura de Deus como derradeira instância apelatória seria – e é - benéfica e consoladora. Aqui cabe bem a tese de Pascal, segundo a qual, em outras palavras, crer só faz bem, pois se Deus não existir, não perdemos nada em termos sido bons, e se Ele houver, seremos recompensados pelo bem que fizemos. Conclusão pascaliana: é melhor crer do que não crer.

O fato é que para a imensa maioria a bondade e a retidão só se impõem se se levar em conta “o ponto de vista da eternidade”, que nos amedronta e orienta, com a perspectiva futura de um julgamento. Não fosse isso, a tendência seria considerar que tudo é permitido. E aí é muito possível que tomássemos o mesmo rumo dos maus que desprezamos, aqueles para cujos corações a impunidade, atual e futura, não é apenas uma possibilidade, mas uma certeza.

É evidente que para alguns poucos a ausência de Deus não constitui obstáculo para uma vida ética. Isto é importante. Mas é também certo que para os demais esse tal de “sub specie aeternitatis” impede – ou dificulta – que vivamos como brutos, apenas para comer, beber e nos locupletarmos.


Francisco Gil Messias é cronista e ex-procurador-geral da UFPB
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