Ao longo da história nossa civilização desenvolveu uma multiplicidade de correntes religiosas bem diferentes entre si. As três religiões ma...

O Deus de que falava Einstein

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Ao longo da história nossa civilização desenvolveu uma multiplicidade de correntes religiosas bem diferentes entre si. As três religiões majoritárias do Ocidente, isto é, o Cristianismo, o Judaísmo e o Islamismo, possuem uma concepção da divindade bem diversa da que é aceita pelas religiões orientais, tais como o Budismo e o Hinduísmo. Além disso, a chamada “verdade revelada” tem uma importância muito maior no Ocidente do que no Oriente. Mas, mesmo dentro da mesma religião existem diferenças enormes entre algumas vertentes.

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Não há como negar que a relação entre algumas religiões e a Ciência nem sempre foi harmoniosa. Na época da Inquisição os conflitos da Igreja Católica com alguns cientistas, como Galileu Galilei e Giordano Bruno, são bem conhecidos. Hoje em dia, em pleno século XXI, presenciamos entre algumas correntes fundamentalistas dos Estados Unidos resistência feroz ao ensino de uma teoria científica bem comprovada, como a teoria da evolução de Charles Darwin nas escolas secundárias. Mas, eu diria que esses são casos isolados e que resultam de interpretação religiosa estreita e fanática. Basta lembrar da Academia de Ciências do Vaticano, da qual vários cientistas famosos foram membros, incluindo os físicos Heisenberg, Schrödinger e, recentemente, Stephen Hawking.

O agnosticismo me parece, às vezes, uma atitude de defesa, de extrema prudência diante de certas questões que não podem ser abordadas diretamente pela Ciência. De fato, o escopo da Ciência é limitado, por definição, aos fenômenos naturais. Então, a questão da existência de Deus transcende o terreno da Ciência. É impossível provar cientificamente que Ele existe ou não existe. Aliás, além dos limites da Ciência, digamos, numa discussão filosófica, é preciso antes de tudo ter uma concepção razoavelmente bem definida do que entendemos por Deus. Por exemplo, estamos nos referindo ao uma concepção transcendente e antropomórfica de Deus, comum a muitas religiões, ou ao Deus imanente de Spinoza, como concebia Einstein?

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A tendência entre alguns cientistas para um sentimento de religiosidade não é de hoje; existe há muito tempo. Veja-se o exemplo de Einstein, que sempre reverenciou e se maravilhou com o Criador. Quando se opôs à interpretação “oficial” da Mecânica Quântica veiculada pela chamada “Escola de Copenhagen”, em que se perde o determinismo clássico na descrição de alguns fenômenos físicos ele disse: “Deus não joga dados”. Ainda a respeito de sua divergência com a explicação proposta para certos fenômenos quânticos, afirmou: “Deus é sutil, mas nunca malicioso”. Menções a Deus foram frequentes na vida de Einstein. Hoje, com o avanço vertiginoso da Ciência, torna-se ainda mais forte, entre alguns cientistas, esse sentimento de que estamos diante de uma Inteligência Suprema.

Nossa existência não é mais que um breve relâmpago na história do Cosmos
Mas é preciso refletir precisamente sobre qual é a ideia de Deus que se está considerando. Estamos pensando num deus antropomórfico, que nos vigia o tempo todo, que é capaz de castigar eternamente seus filhos? Estamos pensando num deus que leva ao fanatismo e que autoriza guerras religiosas e perseguição aos “hereges”? Tudo vai depender de qual é nosso conceito de Deus. Mesmo assim, reconheçamos que muitas vezes preponderam certos preconceitos filosóficos e a arrogância acadêmica. Os maiores cientistas sempre deram o exemplo da humildade diante do mistério, ou ainda, do milagre de nossa existência.

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Particularmente, como cosmólogo, estudo o Universo como um todo. Os dados que temos hoje sobre o cosmo visível são estonteantes: sabemos que existem centenas de bilhões de galáxias, cada uma contendo uma média de centenas de bilhões de estrelas. São números que não conseguimos imaginar. Cada galáxia é uma obra de arte, umas são espirais, outras elípticas, algumas ovais. As cores que nos mostram os telescópios espaciais são de uma beleza impressionante.

Na Cosmologia e Astronomia tudo é grandioso. Vemos hoje imagens luminosas que foram emitidas há bilhões de anos. Como o homem apareceu cerca de um milhão de anos atrás, nossa existência não é mais que um breve relâmpago na história do Cosmos. Já as estrelas têm um ciclo, uma vida, e, como nós, nascem, evoluem, morrem e renascem em outras partes do Universo.

Nosso corpo é formado por átomos que foram fabricados no interior das estrelas. Quando uma estrela morre, às vezes explode espetacularmente, lançando seus elementos químicos para os confins do Universo. Alguns desses elementos vieram parar aqui, em nosso planeta, há quase cinco bilhões de anos. E deram origem à vida, como conhecemos. Estamos falando do Universo, o macrocosmo, e de átomos, que fazem parte do microcosmo.

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Se a física do macrocosmo impressiona, o mundo microscópico parece ainda mais fascinante. No micromundo as leis com as quais estamos acostumados na vida cotidiana deixam de valer. Os fenômenos atômicos são regidos pela teoria quântica, que foge totalmente à nossa intuição.

Para concluir, gostaria também de me referir ao que parecem ser os mais misteriosos e fascinantes fenômenos do Universo: a formação da vida e o aparecimento da nossa consciência. Mais aí já estamos entrando no terreno da Biologia e da Neurociência, que não são mais do meu métier. Ainda assim, acho que qualquer um que se aventurar a estudar com profundidade a origem da vida ou o fenômeno da consciência, tenho certeza, vai vislumbrar o Deus de que falava Einstein. E aproveito para citar mais uma frase dele: “Tudo que eu gostaria de compreender é o pensamento de Deus; o resto é detalhe”.


Carlos Augusto Romero Filho é pós-doutor em cosmologia e gravitação, e professor
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