O tal do eu, primeira pessoa do singular, é tão complicado na vida como na escrita. Salvo os vaidosos exacerbados ou os megalomaníacos pato...

Primeira pessoa do singular

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O tal do eu, primeira pessoa do singular, é tão complicado na vida como na escrita. Salvo os vaidosos exacerbados ou os megalomaníacos patológicos, normalmente as pessoas têm um certo pudor, uma certa parcimônia no uso do pronome eu. É comum um certo temor de parecermos, aos olhos dos outros, alguém autocentrado, que só enxerga o próprio umbigo. E, pensando bem, é bom que seja assim, já que costumamos, nós próprios, rejeitar os que se comportam dessa maneira reprovável. Os europeus educados são muito bons nessa arte civilizada de ocultação do eu, principalmente, creio, os ingleses, talvez a gente mais discreta do planeta. Um inglês de verdade jamais demonstra em público suas emoções, ou seja, jamais escancara o eu profundo publicamente. Isso fará bem ao corpo e à alma? Não sei. Mas que parece polido, parece, pelo menos nos livros e nos filmes.

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Eu (olha o pronomezinho aí) mesmo não sou muito de esconder as emoções. Não que as proclame de forma irresponsável. Nunca. Mas o problema é que, sendo emotivo por natureza, não consigo deixar de me emocionar, seja na tristeza, seja na alegria, enfim, com as situações mais banais, que um bom inglês certamente enfrentaria sem sequer bater as pestanas. Dizem, quase sempre de forma depreciativa, que isso é coisa de latino. É possível. Se for, que fazer? Mas resumindo grosseiramente a questão, digamos que nem tanto nem tão pouco. Um meio-termo equilibrado vai bem. Isto é, emocionar-se, sim, mas com um certo recato, um certo comedimento que nos evite passar vergonha.

Todo esse arrodeio para chegar no problema da crônica, esse gênero literário e jornalístico inevitavelmente centrado no eu do cronista, por menor que seja seu ego. O ficcionista, seja no conto ou no romance, pode esconder-se – e quase sempre o faz – por trás do narrador ou de algum outro personagem. Nem sempre é fácil identificá-lo, como bem sabem os críticos. Isso deve ser apreciado pelos autores que cultivam o pudor de se mostrar sem disfarces. Mas fico pensando nos poetas. Pois é praticamente impossível para eles ocultarem-se nos poemas.
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O eu-lírico é quem tem a palavra no poema; o poeta está sempre a descoberto. Assim como os artistas plásticos. O que pintam, esculpem, fotografam e criam tem sempre a impressão digital do autor, seja fácil (nunca é) ou não interpretar a criação. E o cronista?

Pois é, o cronista. Poderá haver crônica sem a presença pessoal de quem a escreve? Sem o eu crônico e agudo do autor? Acho difícil, para dizer o mínimo. Pois o cronista tem de se expor, tem de opinar, tem de tomar partido contra ou a favor, de preferência fora da seara política partidária e ideológica, para não ficar cacete e previsível. O leitor espera isso dele: que mostre o rosto, mesmo com o risco eventual de levar um bofete. Mas que apareça, de preferência na primeira pessoa do singular, munido de identidade e CPF.

Affonso Romano de Sant’Anna, mestre do gênero, escreveu (numa crônica) que “O cronista é um jornalista a quem é permitido escrever na primeira pessoa. Mas esse ‘eu’ é um ‘eu’ de utilidade pública, como o ‘eu’ do escritor. No espaço da crônica há uma troca de intersubjetividades. Aí o leitor entra em outra frequência.”. É isso mesmo. Pois como poderia haver essa relação intersubjetiva se os sujeitos não assumem o seu eu particular e o explicitam?

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O cronista é um observador do país e do mundo. Tem de ser. Mas é principalmente um espião da aldeia em que vive. É aquele que, como as comadres, dá notícia de tudo, principalmente do que, em tese, seja impublicável. Mas sem ser inconveniente, sem ferir suscetibilidades, sem constranger ninguém, já que, também em tese, na aldeia todos são seus leitores e ninguém quer sua roupa suja lavada em público. O cronista é, portanto, o único espião do mundo que se revela aos espionados, prestando contas publicamente de seu labor em princípio inconfessável.

Certo cronista, não lembro quem, recebeu um dia uma carta elogiosa de um leitor. Mas este lhe pedia encarecidamente para aliviar um pouco no uso do pronome eu. Vejam só. Talvez o cronista estivesse mesmo exagerando na egolatria. Ou não. Talvez o leitor estivesse apenas a fim de aporrinhá-lo. Acontece.

O fato é que a primeira pessoa do singular constitui uma prerrogativa inalienável dos cronistas. E dos amantes também. Pois as declarações de amor – assim como as crônicas – não admitem o sujeito oculto. E já que ninguém lembrou-se disso antes, lembro agora e aqui: que esse pronome mínimo seja logo inscrito como um direito fundamental na Constituição.


Francisco Gil Messias é cronista e ex-procurador-geral da UFPB
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