Quem já não passou pela experiência não é capaz de imaginar o quanto a luz subjuga a escuridão. Os amantes da astronomia até percebem, em a...

Procurando candeeiros

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Quem já não passou pela experiência não é capaz de imaginar o quanto a luz subjuga a escuridão. Os amantes da astronomia até percebem, em alguma medida, o poder das incandescências, posto que isso verificam nas estrelas.

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Eles as enxergam a distâncias tão grandes que impossibilitam as medições triviais. Não dá para situá-las a quilômetros, ou milhas, sem que disso resultem cifras intermináveis, impraticáveis. A solução passa, desse modo, pela invenção do ano-luz.

É medida que parte da casa dos 300 mil, a quantidade de quilômetros que um raio é capaz de cobrir em um mísero segundo, num piscar de olhos. Imaginem o quanto percorrerá em um ano. Depois, atentem para o fato de que as estrelas mais próximas estão a mais de 4 anos-luz do nosso Sol.

Alguém quer ver o passado? Olhe, então, para um céu escuro. Alguns pontos luminosos são estrelas que podem nem mais existir. O que nesse caso vemos são raios que delas partiram e ainda viajam.

Dá para perceber, então, a força e as artes da luz. Mas dá para aceitar a afirmação de que os dedicados à astronomia, apesar do muito que sabem, têm ideia apenas vaga da coisa?

Pois, têm. Sobretudo, aqueles que nunca procuraram candeeiros na escuridão. Estrela pode ser passado, mas candeeiro é possibilidade de futuro. Ou, pelo menos, assim era antes que a eletricidade chegasse a todos sítios e pés de serra.

Que coração de astrônomo bateu mais forte numa noite de breu tateando por trilhas com palmos de largura até aquela casa caiada onde mora a letra “L”? Não é assim, Zé Dantas? Não é, Luiz?

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Passos cuidadosos um após outro, os pés no caminhozinho estreito, o mato rasteiro a avisar de ocasionais desvios até o momento do prumo certo e seguro assim que a luz do candeeiro pula de uma janela a fim de guiar o sujeito e seus planos.

Já nos braços que o acolhem reforçam-se as juras e compromissos, os projetos de estudo e emprego, o do altar e o da filharada, coisas muito improváveis aos de pouca idade pois tão subordinadas a tudo aquilo que ainda esteja por vir.

Nada disso se concretizou, dirão os que sabem da vida de quem andou em busca de janelas assim iluminadas.

Mas não por culpa daqueles arremedos de farol. É que o tempo e o acaso encaminharam o navegante a outros portos e propósitos. E assim também o fizeram com a dona dos braços que o acolhiam.

Ambos muito jovens, mal postos a enfrentar o mundo, afastaram-se, inevitavelmente, quando a vida lhes impôs percursos novos e amores definitivos.

Mas, de quando em quando, um tom de voz, um perfume, o padrão florido de uma blusa, a música há muito não ouvida, qualquer dessas coisas pode reavivar por alguns instantes a velha chama. Não para indicar caminhos já percorridos e não mais buscados. Porém, a fim de lembrar do que se foi e do que se quis antes que se consuma o ciclo de tantas caminhadas.

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As velas há poucos minutos acesas em virtude da interrupção da corrente elétrica no prédio onde vivo, certamente isso, é o que agora me traz essas lembranças. Em três pontos da sala, tremulam ao sopro de tempos idos.

Então, os olhos semicerrados por comando próprio, ou por vontade que reluto em aceitar, expõem aquela sala onde um dia sentei. Ao lado, em uma rede, deita-se um pai geralmente sisudo e de poucas falas.

Quase me vem à boca o gosto do doce de caju e quase ouço de uma mãe solícita e orgulhosa da cria: “Foi ela quem fez”. O quadro se completa com a conversa e as carícias de varanda.

Não livre, ainda, dessas imagens eu percebo que mais acalentam do que machucam. Hoje em dia, o ambiente é bem outro e é outro o bem-querer, constato aliviado.

Além do mais, quem agora contempla essas pequenas chamas tem idade para ser avô daquele moço que logo some ao reacender das lâmpadas.


Frutuoso Chaves é jornalista
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