“Le jeune fit un geste, le geste de César passant le Rubicon” (o jovem fez um gesto, o gesto de César passando o Rubicão), é o que nos cont...

A travessia do Rubicão

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“Le jeune fit un geste, le geste de César passant le Rubicon” (o jovem fez um gesto, o gesto de César passando o Rubicão), é o que nos conta o narrador de "A Fortuna dos Rougon" (La fortune des Rougon), romance de Émile Zola (Capítulo VI). Ainda que não queiramos, vivemos impregnados do latim e da cultura latina. Quem nunca ouviu a frase alea iacta est ? E quem nunca se lembrou dela numa situação limite?

No ano 49 a.C., César retornava da Gália, vencedor. Seu intuito era a perseguição a Pompeu, que havia crescido muito e ameaçava tornar-se o primeiro dos triúnviros em Roma. César alojou-se em Ravena com suas legiões, deslocando-se, depois, 50 quilômetros para o sul, de modo a atingir o Rubicão, um arroio que seguia para o desaguamento no Mar Adriático.
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Ao chegar, César ponderava sobre a travessia do riacho que, fisicamente, não lhe impunha nenhuma dificuldade. O obstáculo existente era político, era de base legal. Proibia-se a qualquer general, retornando de campanhas ao norte de Roma, acompanhado de suas tropas, atravessar o Rubicão, que estabelecia a fronteira entre a Gália Cisalpina e o grande território da famosa Urbe, para não causar instabilidade no poder central.

Uma vez dado o passo inicial e atravessado o Rubicão, a lei tinha sido quebrada e não havia mais como retroceder. Nem o retorno para o outro lado da fronteira desfazia a ruptura legal realizada. Enquanto César pensava em Pompeu, cada vez mais magno, aproximou-se de suas tropas um homem de excepcional estatura e beleza, que começou a tocar uma flauta e que, em seguida, apodera-se de uma tuba de guerra, soprando-a com força e indo em direção à margem oposta do riacho. César vê nisso um sinal dos deuses e se decide pela travessia do Rubicão. Afirma Suetônio que o futuro ditador perpétuo de Roma teria dito:

“Eatur quo deorum ostenta et inimicorum iniquitas vocat. Iacta alea est”
(De vita Caesarum, Liber Primus, Divus Iulius, XXXII).

“Vamos, para onde nos chamam os sinais dos deuses e a iniquidade do inimigo. O dado está lançado”
(Da vida dos Césares, Livro Primeiro, O divino Júlio, XXXII)

Travessia feita, César se dirige a Rimini e, depois para Roma. O resto é história: César vence Pompeu, em Farsália, no ano 48 a.C., na Grécia; Pompeu é morto no Egito a mando de Ptolomeu XIII para agradar a César, mas só desperta a sua ira; César anexa o Egito e torna-se ditador perpétuo de Roma, onde a ditadura constitucional era permitida por seis meses, e morre assassinado, no Idos de março do ano 44 a.C., caindo, ironicamente, sob os pés da estátua de Pompeu.

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Há quem estranhe a forma iacta alea est, pois acostumamo-nos a ouvir alea iacta est. A primeira forma é a que está registrada, conforme já vimos, no relato de Suetônio (69-141). A segunda talvez tenha se tornado popular pelo ritmo, pois é um pé dactílico (uma sílaba longa e duas breves) acompanhado de um espondeu (duas sílabas longas): ālĕă iāctă ēst (deve se ler, no ritmo poético, alea iactest). A forma iacta alea est é um espondeu (duas sílabas longas), acompanhado de um iambo (uma sílaba breve e outra longa: iāctă ālĕă ēst (deve se ler, no ritmo poético, iacta lest). Convenhamos que a forma alea iacta est é um terço de um hexâmetro, verso característico da épica. Embora a possível fala de César tenha sido em prosa, não em verso, mas o ouvido dá o seu jeito, acostumado ao ritmo dos grandes poetas.

Luciano Canfora, no seu excelente "Júlio César, o ditador democrático" (São Paulo, Estação Liberdade, 2002), em nota de pé de página (nota 26, p. 179), diz que Erasmo de Roterdã corrigira a famosa frase de César para iacta alea estō. Canfora não explica o porquê da troca da terceira pessoa do singular do presente do indicativo (est), pela terceira pessoa do singular do imperativo futuro (estō). Com essa troca, a frase adquire uma nova nuance.
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Já não se trata mais de “O dado está lançado” (há muitas possibilidades para a tradução dessa frase...), mas de “O dado será lançado”, pois César a profere antes de atravessar o Rubicão, não depois de atravessá-lo. Por outro lado, o imperativo futuro, diferentemente do imperativo presente, é uma ordem que não admite contestação, obrigando o seu cumprimento por parte de quem a recebe.

A imposição contida na lei romana, como sabemos, punia o general que ultrapassasse com suas tropas o Rubicão, ainda que depois, arrependido, recuasse. Ao proferir a frase, César tem consciência da punição que vai lhe acontecer. É imperioso, portanto, seguir em frente e tomar o poder, passar por cima da lei, e tornar-se o primeiro homem de Roma. No seu comentário final, Canfora diz que est no lugar de estō é pura banalização. No contexto da situação romana, não tenho a menor dúvida disso.

Voltando ao início, vemos que a citação do fato num romance francês de 1871 mostra a vitalidade do acontecimento em si e de sua condição de fato consumado que não tem como desfazer. O personagem, Aristide, está entre a cruz e a espada: ou ele se alia aos que apoiam o golpe de Estado de Louis Napoléon (1851) ou se alia aos insurretos de Plassans, nome fictício de Aix-en-Provence, no sul da França. Qualquer decisão que ele tome não mais lhe permitirá o retorno. O conhecimento da presença do latim e do clássico é fundamental para a fruição da passagem. Afinal, o que César fez foi um golpe de Estado que Louis Napoléon, futuro Napoleão III, dezenove séculos depois, realizou e cujo dossiê secreto foi nomeado “Rubicon”.

O dado será lançado.


Milton Marques Júnior é doutor em letras, professor, escritor e membro da APL
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