Quando à porta da Academia Paraibana de Letras eu me despedia da professora Ângela Bezerra de Castro , depois da sua aula-conferência tendo...

A travessia de Diadorim

ambiente de leitura carlos romero cronica conto poesia narrativa pauta cultural literatura paraibana angela bezerra de castro guimaraes rosa diadorim apl grandes sertoes veredas historiador jose nunes

Quando à porta da Academia Paraibana de Letras eu me despedia da professora Ângela Bezerra de Castro, depois da sua aula-conferência tendo como tema central a personagem Diadorim de “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, respondendo a uma indagação dela de que muitos começam e nunca terminam a leitura deste livro emblemático, penitenciei-me. Disse-lhe que em três ocasiões coloquei de lado o monumental romance, um dos cem principais livros até agora escritos no Brasil.

ambiente de leitura carlos romero cronica conto poesia narrativa pauta cultural literatura paraibana angela bezerra de castro guimaraes rosa diadorim apl grandes sertoes veredas historiador jose nunes
Com o olhar de educadora que nunca deixou a convivência com a literatura e outros saberes, ainda mais quando foi eleita para a Academia Paraibana de Letras duas décadas atrás, aconselhou-me a voltar à leitura deste romance de Rosa, mesmo que na época me parecesse enfadonho percorrer aquelas páginas. Na mesma noite iniciei minha nova caminhada, com caderno e lápis ao alcance da mão.

Na sua conferência por ocasião do "Pôr do Sol Literário", deu-nos pistas que ajudam a andar sem tropeços pelas veredas apresentadas pelo romancista nascido em Minas Gerais, para a convivência com os seus personagens, agora, numa nova visão que transformou deliciosa leitura.

Ângela revelou que em um período de vinte anos fez quatro leituras de “Grande Sertão: Veredas”, sempre descobrindo novas emoções, e desnudando os personagens. Mas eu, ao contrário, três vezes recoloquei o livro na estante. Depois daquela conversa com a mestra, fui atrás de Antônio Candido, referência da crítica sobre Guimarães Rosa, para abalizar ainda mais minha nova leitura, e descobri que ele tinha lido este livro uma dezena de vezes, saindo de cada leitura diferente de como iniciou.

Isso me motivou para uma leitura lenta, no meu retorno a esta obra, tentando viver os encantos na longa viagem pelos sertões. Logo redescobrindo os atrativos da narrativa que a professora paraibana e o mestre Candido ajudaram-me a entender.

ambiente de leitura carlos romero cronica conto poesia narrativa pauta cultural literatura paraibana angela bezerra de castro guimaraes rosa diadorim apl grandes sertoes veredas historiador jose nunes
Guimarães Rosa
Remexendo em papéis antigos, descobri que apesar de minhas leituras pela metade, havia colocado no caderno de papel pautado pequenas anotações a respeito de Guimarães e do seu romance. Há duas décadas escrevi que a arte de narrar do autor de “Sagarana” empolgava. Notas de um leitor principiante e apressado.

Com seu abrangente entendimento do assunto, a professora Ângela Bezerra de Castro alumiou um novo modo de ler este romance e de olhar Diadorim de maneira diferente, porque se trata de personagem que retorce nosso estado de emoção, como suave neblina a nos umedecer. Também apresenta as chaves de leituras que ajudaram na compreensão dos sertões descritos no livro.

Se minhas primeiras leituras foram tentando emendar a narrativa, retornei ao livro com o desejo de fazer integralmente a travessia, seguindo as veredas apontadas por essa estudiosa da Literatura brasileira, presidente da Academia Paraibana de Letras.

Para quem aprecia a boa literatura, as cenas quando o autor revela a identidade de Diadorim são páginas antológicas da literatura universal. Ao final, ficamos com a sensação de que Diadorim é, realmente, a grande personagem feminina da nossa Literatura.


José Nunes é poeta, escritor e membro do IHGP
COMPARTILHE
comente via facebook
COMENTE
  1. Veio uma motivação ...para LER, induzida pelo texto de JOSÉ NUNES.
    Paulo Roberto Rocha

    ResponderExcluir

leia também