Ao pregar por meio de parábolas, Jesus possivelmente consolidava como gênero literário esta forma tão didática de ensinar. Utilizada por p...

A clássica razão de ser

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Ao pregar por meio de parábolas, Jesus possivelmente consolidava como gênero literário esta forma tão didática de ensinar. Utilizada por povos antigos, como os helênicos, e na literatura rabínica, conhecida como “mashal”, a parábola pode ser considerada prima do tradicional apólogo, da fábula clássica, linguagens que se revestem de alegorias, metáforas, maneiras proverbiais com intenção de erudir algo não tão acessível ao entendimento comum.

Consciente da incapacidade de compreensão de certas revelações, Jesus advertia os discípulos: “Eu ainda tenho muitas verdades que desejo vos dizer, mas seria demais para o vosso entendimento neste momento”. E para explanar com a necessária clareza fez uso das parábolas,
que se tornaram peças de elevado significado no seu Evangelho, entre muitas outras constantes das sagradas escrituras.

Inspirados por louvável sentimento de altruísmo, eminentes sábios, filósofos, cientistas, pensadores de alto discernimento nutrem louvável desejo de compartilhar os benefícios do que aprendem, descobrem e criam desde o nascimento das civilizações.

Nota-se semelhante entusiasmo altruísta em compositores eruditos ao transcreverem para a linguagem musical as belezas que identificaram em poemas, romances, dramas, no propósito de trazê-las com mais emoção ao ouvinte. Ainda que de modo subjetivo, são extraordinárias músicas que conseguem iluminar ideias e produzir novas emoções embutidas nas letras da poesia que abordam.

No afã de se expressar pela arte, infinitos caminhos são traçados pelos autores com reflexos os mais diversos na intimidade do espectador, assim como ilimitados são os níveis de percepção de cada obra e sua imponderável recepção. Uma profusa exuberância de conceitos estéticos, filosóficos, teorias e mais teorias se multiplicam no intuito de nos aprofundar em busca do sábio e completo entendimento, implícito ou explícito em cada ângulo, em cada aspecto da criação e da produção do intelecto.

Este desejo de distribuir o conhecimento adquirido em laboradas pesquisas e estudos realizados com extremada dedicação contamina professores que dignificam o magistério. Eles entendem, porque vivenciam o valor do que precisa ser auscultado nas entranhas dos signos e significados, e transmitido por meio dos canais mais didáticos possíveis.

É admirável o empenho de mestres que, movidos por abnegada generosidade e pelo puro prazer de ensinar, se debruçam nos projetos de elucidação dos mistérios da arte, da literatura, da mitologia, da música. Regozijam-se com o brilho que enxergam na satisfação dos que passam a compreender a magnitude em que germina, transcende e se eterniza tudo o que brota com a sublime luz dos saberes.

Por terem conquistado brilho próprio, obras que se perpetuam imorredouras na história são chamadas de “clássicas”. Atemporais, percorrem milênios sempre prontas a serem desfrutadas adequando-se à época e ao nível dos que as cultuam e nelas distinguem infindas sensações.
Entretanto, de seus conteúdos nem sempre despontam com toda intensidade os princípios que moldaram o âmago exegético que intimamente conduzem.

Ao sentirem que célebres peças podem não ser depreendidas na plenitude do universo em que foram concebidas, mestres dignos e proficientes se dedicam a ensiná-las, honrando o privilegiado talento com que exercem a nobre faina do magistério.

Milton Marques Júnior, professor por natural excelência, muito acima dos títulos logrados e publicados, veio ao mundo com esta missão: vivificar, intensificar, revitalizar, ressuscitar, valorizar e assim contribuir para a perpetuação do clássico. Justamente em uma época na qual a arte erudita, a sabedoria antiga e tantos ensinamentos legados à humanidade por luminosos vultos da história lamentavelmente se esvaem da educação em todos os níveis.

A literatura clássica é uma seara fecunda. Nos meandros linguísticos de sua diversidade lírica, artística, metafísica, alegórica nem sempre os enunciados se manifestam claramente, com ou sem intenção predefinida na origem. Há autores que os envolvem propositalmente nos mistérios destinados a premiar a argúcia capaz de desvelá-los. Talvez busquem na subjetividade glossológica o elo mágico que amplia percepções e fertilizam o imaginário recíproco entre si e os leitores. Quanta sutileza há na construção dos poemas épicos, da mitologia, da tragédia, da dramaturgia clássica? Quantos véus precisam ser desocultos no instante certo para que a leitura nos transcenda à plenitude e aos insights de sabedoria?

Aí residem os méritos dos autores, escritores e catedráticos que, como Milton Marques Júnior, se empenham a desvendar segredos trazendo-nos a lume pela habilidade da docência. O júbilo que experimentam ao ver os resultados alcançados no brilho dos olhos do alunato ou do cativo leitorado, certamente se compara ao do professor de música que se extasia ao ouvir soar perfeita a melodia que ensina.

O que notabiliza o trabalho de Milton é a abrangência de sua interpretação lógica e lúcida. Ele garimpa os sentidos daquilo que narra com um esmerado cuidado, buscando conectar o argumento com as origens históricas, etimológicas, idiomáticas e filosóficas para enfim alcançar as possibilidades da lapidada hermenêutica. Sem perder a fidelidade ao requinte clássico com que se exprime, a narrativa realiza apurada metáfrase de forma acessível a qualquer leitor.

Enfatiza-se uma preocupação quase museológica na produção de Milton com intenção de valorizar e preservar as línguas antigas. Ele insiste nas verdades que emergem de franca necessidade de mantê-las vivas como epítomes da semiótica.

Mergulha nas entranhas da arquitetura linguística, sobretudo no aspecto vernacular da poesia de milênios, examinando minuciosamente a harmonia das métricas, rimas, ritmo, acentuação, ciente da mesma riqueza estrutural que há numa peça de Bach. E entoa como música a lírica dos poemas ao revelar os enigmas da estética para a devida compreensão.

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Nas traduções espontâneas, frequentemente inseridas em seus textos, Milton demonstra grande domínio dos idiomas, principalmente nas citações em grego e latim, exibindo-as na grafia original com o cuidado de quem protege algo precioso em redomas de cristal.

Este livro — “Pandemia e Pandêmia: o clássico no cotidiano” — sobre o qual me foi concedida a grata incumbência de preludiar, é uma seleta e heterogênea suíte compilada pelo autor, à guisa de crestomatia, com a pluralidade que caracteriza boa parte de sua obra como escritor, ensaísta, sobretudo como professor.

O título referencia tempestivamente, à maneira de efeméride, o período em que a ideia tomou forma — 2020, o ano da pandemia. Coincidentemente, o Ambiente de Leitura Carlos Romero foi reconfigurado na mesma fatídica era, para acolher “a vida e o cotidiano na visão talentosa de autores selecionados”,
e publicou muitos dos títulos que Milton Marques aqui reúne. Como organizadores do ALCR, a honra se duplica no convite recebido para comentar criações, de certa maneira, prazerosamente familiares. Ao tempo em que nos congratulamos em contribuir para uma atividade cuja importância se consagrou tão oportuna, benéfica e enriquecedora nesses tempos difíceis e reclusos: a leitura!

E quão proveitosa é a leitura que abriga tamanha diversidade temática! Em “Pandemia e Pandêmia: o clássico no cotidiano” reflorescem encantos da mitologia, da epopeia, da tragédia, da dramaturgia, astrologia, astronomia, história, etimologia, do evangelho, das artes plásticas, música, poesia, literatura francesa, latina, grega, uma constelação que desfila a céu aberto com o brilho especial da clareza educativa. Dos antigos aos modernos, de Catulo a Augusto, de Virgílio a Guimarães Rosa, de Homero a Ariano, de Ovídio a Machado, Milton estabelece paralelos que invariavelmente despertam o leitor para os mistérios da evolução, da origem da vida, inclinando-o ao sentimento de religiosidade e à espiritualidade.

Como “codas” de grandes sinfonias, os textos são habilmente concluídos para nos remeter à essência do tirocínio em benefício da vida cotidiana. Milton aplica com maestria os mesmos objetivos pedagógicos das fábulas e parábolas em transcrições que amoldam os clássicos sob nova e singular doutrina literária.

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Nesta relação com o aprendizado prático se inserem valiosas lições acerca da origem e sentido da vida, da evolução, dos princípios de cidadania, solidariedade, religiosidade, justiça, das condutas humanas nas relações pessoais, no exercício da política, papel do Estado, incitando ao exame de consciência e à reforma íntima indispensáveis ao aperfeiçoamento individual e coletivo.

Frequentemente, Milton estimula-nos a identificar dentro de nós as razões da infelicidade e como podemos construir ou reconfigurar nosso trajeto cármico a partir dos próprios atos, que precisam ser iluminados pelo discernimento e vigilância:

“Melhor do que ficar procurando culpados é assumir as consequências do que escolhemos.” [...] “O conhecimento da ciência não livra o homem de tragédias, como muitos de nós, ingenuamente, pensamos, mas o conhecimento de si próprio pode fazê-lo sair delas com inteligência e assumindo as responsabilidades de seus atos”.

A exaltação à supremacia do conhecimento como meio de burilamento íntimo é percebida, por exemplo, em:

“É esta elevação do olhar que nos dará o espírito criador, modificador e empreendedor, buscando a melhora através do saber, que nos traz também o sabor de conhecer e desvendar o que ignoramos. É lamentável que tantos, ainda, teimem em viver olhando para os pés. Ou para o próprio umbigo” [...] “O conhecimento nunca é demais. Procurar saber é o que nos dá sentido para continuar a viver, pois sem a inquietação, que continuamente impulsiona o nosso raciocínio, estaríamos, provavelmente, nas árvores ou nas cavernas."

Nas poucas dezenas de textos aqui selecionados, entre as várias centenas, quiçá milhares de trabalhos decorridos de uma vida dedicada mormente ao ensino, Milton Marques Júnior monta um caleidoscópio
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matizado não apenas pela extensão cronológica e histórica, mas por sua multiplicidade temática. Os textos são permeados pelo silogismo evidenciado no arcabouço formal, em que primeiramente apresenta o assunto, como em uma sonata clássica, para em seguida desenvolvê-lo, partindo de suas castas origens. Uma estratégia destinada a vasta compreensão do caráter e da intimidade dos segredos que, além de decifrados, se propõem coroados como proveitosas lições de viver.

A religiosidade, sentimento bem distante da prática de religiões institucionalizadas, sedimenta o plasma por entre o qual a exposição navega unida aos preceitos cristãos, que para o autor se embutem nas letras clássicas desde o nascedouro:

“Basta apurarmos os sentidos osmológicos e nos inebriar com os aromas da verdade, por mais penosa que seja. Nós, que escolhemos a violência em lugar do Amor, vivamos, pois, com isto até que consigamos aprender com os nossos erros, tornando nítida essa distinção e sabendo, diante das consequências, o que realmente significa ‘seja feita a Vossa Vontade, assim na terra como no céu’”.

Milton também instiga o leitor a examinar as consequências da má conduta política quando coteja o clássico e o popular diante do que acontece no mundo atual, principalmente no Brasil:

“O Estado nem sempre é um inimigo, como podemos ver em sociedades adiantadas, que retribuem à população o que arrecadaram com os impostos. A questão é o Estado ter-se tornado nosso inimigo, quando a sua ação não vai além da improbidade administrativa, distribuindo benesses e privilégios com os seus apaniguados.” [...] “Nem a ficção seria capaz de criar uma tal indolência, tão Brasil, onde não há pressa para nada, a não ser para o ataque ao erário.”

Há, entretanto, um insigne atributo que flui como seiva corrente nas ideias que orbitam este trabalho: a comprovação de que é no clássico que estão os sustentáculos de nossa origem gnóstica. Milton Marques Júnior se posta fortemente convicto de que a preservação, o estímulo e a cultura permanente da literatura erudita sempre serão o mais promissor caminho por onde evoluirá a espécie humana.

A ele não sobra a menor dúvida de que “A Ilíada e a Odisseia são os poemas fundadores de toda a literatura ocidental.” […] O passado, como atesta a fábula de Fedro, sempre tem uma lição para nos ensinar. Nós é que resistimos a aprendê-la”. [...]

Assim como reforça a crença de que os mais virtuosos objetivos de uma sociedade justa reluzem há milênios na ancestralidade cultural:

“Os caminhos para encontrarmos a Justiça são: fugir da intemperança e das paixões que nos escravizam e nos tornam injustos (o anel de Giges), por intermédio do difícil caminho em busca da luz do conhecimento, que deve ser difundido mesmo enfrentando outras dificuldades (alegoria da caverna) e assumir que as escolhas são responsabilidades nossas, sem imputar culpas a ninguém.” [...] “O mito, não sendo aleatório, tem uma razão de ser e, afirmo sem medo de errar, está no nascedouro da ciência”.

Da leitura desta notável seleção o leitor sairá indubitavelmente convencido e consciente de que a intenção primordial de quem a escreveu é, como diz o próprio autor:

“mostrar que estamos mais próximos do que pensamos dos poetas que escreveram há mais de dois mil anos (!)”.

Exalte-se “Pandemia e Pandêmia” como magnífico projeto que reitera com impressionante profundidade os valores inestimáveis que sobreviverão eternos em tudo o que nasce clássico.
Prefácio do livro Pandemia e Pandêmia: o clássico no cotidiano, de autoria do professor Milton Marques Júnior.


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  1. Belo "prelúdio", Germano Romero. Denso,cativante, convincente.

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