Para os estudos em filosofia, uma definição básica para abstração é: operação intelectual em que um objeto de reflexão é isolado de fato...

Abstração

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Para os estudos em filosofia, uma definição básica para abstração é: operação intelectual em que um objeto de reflexão é isolado de fatores que comumente lhe estão relacionados na realidade. Já para os estudos em psicologia, e aqui vou me restringir à psicologia cognitiva, abstração está relacionada ao pensamento hipotético-dedutivo que, conforme a teoria elaborada por Piaget sobre o desenvolvimento humano, é um estágio do desenvolvimento do raciocínio na criança que se alcança por volta da entrada na adolescência e se amplia daí por diante.
Dito com outras palavras, a abstração é um estágio avançado do pensamento que se mostra quando o adolescente, diferentemente da criança, já não precisa mais da referência ao concreto para o entendimento de um conceito e passa também a criar hipóteses para tentar explicar e sanar problemas.

Lida ao pé da letra, essa importante compreensão teórica para o campo educacional pode levar a conceitos reducionistas como: antes da entrada na adolescência, as crianças não conseguem abstrair ou, após a entrada nessa fase da vida e daí para frente, o jovem tem plena capacidade de abstração. De modo geral é assim, mas não necessariamente assim, pois exemplos práticos mostram que muitas pessoas de mais idade têm pouca capacidade de abstração.

Penso que é preciso relativizar colocando em questão duas perspectivas: a diacrônica e a sincrônica. A primeira, diz respeito, neste texto, à perspectiva reencarnacionista, pois o espírito traz sua bagagem de aquisições anteriores bem como sua carga emocional em relação a essa bagagem. A segunda diz respeito ao contexto em que o espírito está reencarnado, à sua imersão cultural e às situações que no presente favorecem o desenvolvimento do seu pensamento. A conjunção desses dois fatores, associados ao que denominaria aqui de disponibilidade emocional para o novo, para o aprendizado, faculta ao ser a disposição para aprender.

Tendo em mente esses conceitos, a pergunta que me foi feita e sobre a qual resolvi pensar foi: Jesus disse que ia voltar à Terra, isso tem a ver com uma volta física? O foco do questionador era o seguinte versículo: “Vós ouvistes o que Eu disse: ‘vou, mas retorno para vós.’ Se me amásseis, ficaríeis alegres com o fato de que Eu vou para o Pai, pois o Pai é maior do que Eu” (Jo 14:28). E este outro: “ Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu teria dito a vocês. Vou preparar lugar para vocês. E, quando eu for e preparar lugar, voltarei e os levarei para mim, para que vocês estejam onde eu estiver.” (João 14:2-3).

Esses e outros versículos fazem referência a uma possível volta de Jesus, assim como aludem ao Consolador Prometido que viria e permaneceria conosco a fim de nos confortar. Sobre isso, gostaria de propor uma reflexão tendo em vista a interpretação desses versículos como um problema de abstração.

Além das revelações, Jesus utilizou-se recorrentemente de metáforas e analogias para se fazer compreender e nos fazer compreender, por exemplo, a realidade transcendente à da Terra, denominando-a de reino dos céus.
A vinda do Messias, assim como sua morte, foi amplamente predita no contexto judaico, com farta documentação no Velho Testamento. Rememorando esses fatos, pergunto: quem reconheceu Jesus como o Messias em sua época? Muito poucos. O Evangelho de João está repleto de situações nas quais o Mestre se revelava – “Eu sou a luz do mundo” (Jo: 8-12) – porém, vivia-se um negacionismo tal que Ele não foi reconhecido como deveria ter sido. Aliás, esse negacionismo chegou ao extremo com a execução na crucificação. Além das revelações, Jesus utilizou-se recorrentemente de metáforas e analogias para se fazer compreender e nos fazer compreender, por exemplo, a realidade transcendente à da Terra, denominando-a de reino dos céus. E por que reino? Porque os seus contemporâneos só conheciam um tipo de gestão de patrimônio que era a de reinado, que é o sistema regido por um mandatário vitalício e legado à sua descência em geral após à sua morte. Inserido nesse cenário, o reino foi descrito pelo Mestre com características superlativas: o rei é um pai magnânimo e justo, o reino é suficientemente amplo para incluir a todos. É preciso abstrair para compreender e para isso corrobora a advertência de Paulo (2 Coríntios 3:-6): “porque a letra mata, mas o espírito vivifica.”

Além disso, é preciso pensar em que contexto os discursos de Jesus foram escritos? Por quem? E para quem? Em que condições materiais? Há versículos que claramente fazem pensar sobre essas questões, exemplo: "Quando o Filho do homem vier em sua glória, com todos os anjos, ele se assentará em seu trono na glória celestial. Todas as nações serão reunidas diante dele, e ele separará umas das outras como o pastor separa as ovelhas dos bodes. E colocará as ovelhas à sua direita e os bodes à sua esquerda. (Mateus 25:31-33).

Ora, a descrição do retorno nesse versículo alude com muita clareza a um conceito de reino terreno com todas as características humanas de opulência, opressão e exclusão, além de desconsiderar a diversidade própria da magnanimidade do Rei descrito por Jesus ao se referir ao fato de todas as nações estariam reunidas diante dele. Essa reunião não poderá ser física no sentido de um local como um auditório, um terreno, uma nação. Para isso, é preciso abstração: onde todas as nações poderão se reunir, se não na Terra inteira? Outro problema de abstração é: como todas as nações ouvirão/verão/acompanharão a um só tempo esse retorno? E onde se dará? E, dando-se num lugar físico ou em um dado modo técnico, não privilegiaria mais a uns do que outros?!

Na interlocução com o amigo que me inquiriu sobre o retorno de Jesus, respondi que este era um problema de abstração para ele, pois sua interpretação estava colada na letra de modo que se mantinha no negacionismo histórico sobre o Cristo e desprezava a riqueza das metáforas e alegorias da mensagem de Jesus sobre si mesmo, bem como sua auto enunciação.

Em outras palavras, às vezes, pessoas crescidas, adultas do ponto de vista físico, não passam de crianças do ponto de vista psicológico e espiritual.

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