O IBGE editava, até 2019, uma revista de poucas páginas, RETRATOS, dirigida aos jovens, que traduzia o essencial para o universo de inter...

A revistinha do IBGE

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O IBGE editava, até 2019, uma revista de poucas páginas, RETRATOS, dirigida aos jovens, que traduzia o essencial para o universo de interesses de uma mente em formação sobre o espaço em que habita. Traduzia com as palavras do cotidiano o que a estatística apurava em sua linguagem técnica de leitura não muito fácil a quem não é do ramo.

Essa revista estancou antes mesmo da pandemia. E é uma pena. Sobretudo para um homem do meu tempo, condicionado a vida inteira a ler no papel.

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Resta-me ainda algum interesse pelo país que não escolhi, mas que está em mim. A conjunção de elementos que caiu no óvulo não é de outro ar, outras águas e outra terra senão a que se espalha no sangue que anima e inspira.

No número que tenho em mãos, a revista traz para a leitura a vida das populações do que chamam hoje de aglomerados subnormais, e que o samba antigo batizara de morro e depois favela. Desse tempo, época em que fui recenseador, favela ou o morro era um sonho de êxodo de todo esse Brasil que ouvia rádio. A canção na voz de Elizeth Cardoso, a Divina, era um chamado tentador, sentimental e até poético. O barracão pendurado no morro tinha a cidade a seus pés.

Dava pra pensar em miséria? Tia Vila, tio Lula, tio Inácio, Antônio e José, meus irmãos de sangue, não viram outro caminho. E se deram bem.

Quando recenseei o setor que me coube, nos confins rurais entre Alagoa Nova e Matinhas, o Brasil somava 52 milhões bem contados. Digo bem contados porque saltei uma meia dúzia de casas e na recontagem foram encontradas. Nesse tempo, Alagoa Nova morava quase inteira no sítio.

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E o que se passou?

Mais de 52 milhões, hoje, são de gente fora do lugar ou sem lugar nenhum, abaixo dos níveis de sobrevivência humana. Os aglomerados subnormais, na data em que leio a revistinha, chegavam a 12 milhões. Se já entrávamos na pandemia com 12 milhões de desempregados, que números enfrentamos hoje? Garanto que a mudança recente de gestor do IBGE não se deu pela falta que o governo pôde sentir da pequena publicação.
EM TEMPO: Ontem, 6 de abril, estaria acordando Martinho Moreira Franco, querendo chegar primeiro no louvor e saudação a seu aniversário. Mas sempre houve quem se adiantasse, amiga ou amigo, que ele tinha muitos. Não era só um ritual. Sua alegria de viver e bem conviver fazia um grande bem a todos nós.

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