São quatro anos de silêncio, sem o riso de Cristovam Tadeu. Num sábado sem graça, o humorista, cartunista e jornalista foi encontrado sem ...

Cristovam agora é silêncio

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São quatro anos de silêncio, sem o riso de Cristovam Tadeu. Num sábado sem graça, o humorista, cartunista e jornalista foi encontrado sem vida em seu apartamento, mas renascido para ficar guardado na memória dos amigos e admiradores. Uma memória da lembrança de seus gracejos e na sinceridade de suas palavras.

Quando fazia a chamada de amigos que concluíram a passagem entre nós nesse tempo de pandemia, chegaram lembranças de Cristovam, um amigo que preenchia os momentos com a alegria, com a mensagem que o cartum transmitia, com a palavra escrita que fazia-nos refletir.

Há quatro anos ele passou a fazer parte do meu patrimônio de saudades e será um amigo relembrado em minhas recordações.

Nossa amizade e admiração recíproca nasceram espontâneas, vieram no ambiente das redações, da semelhança do pensar e do sentir a vida, a começar pelo que partilhávamos, cada um ao seu modo. Ele representando, eu aplaudindo. As palmas após os espetáculos continuam ressoando a cada lembrança dele.

Na maioria das vezes nossos encontros aconteciam nas redações dos jornais, uma paisagem da nossa profissão que desaparece, ou em eventos culturais e, eventualmente, na rua. Em todos os momentos, o olhar cordial de amigos.

Os primeiros encontros foram no antigo “O Norte”, depois estendendo-se ao “O Momento” e jornal A União, sempre com cumprimentos que ultrapassavam a experiência da amizade abalizada nos sentimentos pela arte e pela literatura. Foi a época em que ele expandia o dom para o humor, consolidava performance nos palcos, crescia por meio da escrita e do desenho, tornando-se expressão da arte na Paraíba. Deixando-nos cativar pela expressão do seu trabalho, agora compõe a galeria de saudade.

Cristovam ruminava ideias sobre cultura com ebulição de temporal criativo. O cartum revelava a visão do que observava no quadro social. O humor rasgava a dilacerante dor, trazendo alegria. Sentia-se aliviado e compensado representando ou desenhando seus personagens para contar suas histórias. Sorria satisfeito com o que fazia. No palco tinha meneios que agradavam e arrancavam aplausos. Tudo isso bastava para uma vida tranquila.

Certa vez, num evento promovido pelo Sebrae para homenagear os pais, Maria Angélica solicitou a ele uma mensagem. Imediatamente atendida, ainda hoje me toca profundamente a forma como se expressou. Desenhou uma montanha e, ao cume, colocou um ponto branco sobre a paisagem. Minha filha pediu que explicasse. Ele respondeu: “O ponto no alto seria o seu pai”. Disfarcei baixando a cabeça para esconder lágrimas que untaram o rosto.

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Se aos olhos dele naquele momento eu estaria no cimo da montanha, continuei ao sopé, cultivando meu roçado, colhendo as flores que desabrocham, até chegar a ocasião de alcançar o lugar onde Cristovam imaginou.

No elenco de personagens incorporados à criação de seu talento, representados com inteligência e renovado respeito, dois foram geniais: Ariano Suassuna e Dom Marcelo Carvalheira. Fui cúmplice de sua aproximação ao arcebispo emérito da Paraíba, também falecido.

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Dom Marcelo havia me consultado sobre humorista que o imitava. Acertamos o encontro de ambos durante o lançamento do meu livro “O Bispo da Solidariedade”, que aconteceu em março de 2000, no Palácio do Bispo.

Foi momento de exaltação à arte e demonstração recíproco de afetos. Como improvisava nos espetáculos, na ocasião imitou os trejeitos do bispo. Ao final, Dom Marcelo, na sua infinita ternura, abraçou-o efusivamente, dizendo-se lisonjeado pela homenagem.

Quando recebia notícias de que Cristovam estava com novo espetáculo, Dom Marcelo perguntava: “É aquele rapaz que me imita?”, e abria um sorriso.

Havia afetuosidade nos gestos e nas palavras dele. Cristovam esculpiu afetuosa camaradagem que ficará lembrada não no apenas no aniversário de sua morte, mas a cada instante revelado na sua arte.

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