Aqueles que têm mais idade irão lembrar, principalmente, os nordestinos que chegaram a ter o prazer de assistir a shows, ou mesmo de dança...

Como surgiu o prefixo musical de Luiz Gonzaga

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Aqueles que têm mais idade irão lembrar, principalmente, os nordestinos que chegaram a ter o prazer de assistir a shows, ou mesmo de dançar forró ao som do fole de Luiz Gonzaga. O Rei do Baião, por quase quatro décadas, abria as suas apresentações, com o seu vozeirão, acompanhado de um solo de sanfona, cantando:

Vai boiadeiro que a noite já vem Guarda o teu gado e vai pra junto do teu bem

Desde que Luiz Gonzaga gravou Boiadeiro, no início dos anos 1950, a música, que foi um estrondoso sucesso, ficou indelevelmente ligada à figura de Rei do Baião, que a adotou como prefixo musical, como uma abertura, em todas as suas apresentações. Já houve quem dissesse que a canção retratava, de forma perfeita, a vida no sertão do Nordeste ou, até mesmo, o ambiente nas fraldas da serra do Araripe, no Exu, a terra da família Gonzaga. Mas, nem sempre, as coisas são como se imagina.

Klecius Caldas e Armando Cavalcanti são os compositores de “Boiadeiro”. No início da década de 1940, os dois eram oficiais do Exército e moravam, no Rio de Janeiro, em um mesmo edifício, no bairro de Copacabana. Acabaram ficando amigos. Ambos gostavam de música. O relato é de Klecius Caldas, no seu livro de memórias “Pelas Esquinas do Rio - tempos idos e jamais esquecidos” (Civilização Brasileira, 1994):

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“eu era louco pela música americana [...] aqueles blues da época de ouro no trombone de Tommy Dorsey, aquele balanço da orquestra de Glenn Miller [...] o Armando gostava também de tangos e boleros [...]”.

Os dois amigos que gostavam de música, começaram, também, a fazer músicas. Na época Klecius Caldas e Armando Cavalcanti tinham entre seus amigos dois outros oficiais do Exército, que também eram compositores: Jota Junior (Joaquim Antonio Candeias Junior) e Luiz Antonio (Antonio de Pádua Vieira da Costa). Segundo Klecius Caldas, Francisco Alves o cantor mais popular daqueles tempos, o apresentava aos amigos dele, dizendo:

“ele é capitão, mas não é capitão [...] talvez com isso quisesse dizer que eu apesar de ser oficial do exército não tinha banca de militar”.

No princípio dos anos 1950, o baião dominava o país e Luiz Gonzaga era a sua principal figura. Klecius Caldas e Armando Cavalcanti, que já tinham várias músicas gravadas, encontraram, casualmente, Gonzaga e, conforme o relato de Klecius:

“quando fomos cumprimentá-lo, o Armando reconheceu o cabo-corneteiro que fora seu comandado no Regimento da Infantaria”.

Luiz Gonzaga pediu, então, aos dois que fizessem uma música, no seu estilo, para que ele pudesse gravar. Klecius e Armando fizeram, então, Sertão de Jequié. Aconteceu que a cantora Dalva de Oliveira, ouviu antes a canção, já prometida a Gonzaga, e a quis gravar. Luiz Gonzaga concordou, desde que a dupla compusesse uma nova música para ele. E é Klecius Caldas quem conta como surgiu “O Boiadeiro”:

“Sempre tive sorte com músicas de encomenda: ‘O Boiadeiro’, a pedido de Luiz Gonzaga, para substituir ‘Sertão de Jequié’ [...] foi assim que nasceu ‘O Boiadeiro’.
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Essa toada, evidentemente urbana, feita por dois cariocas do asfalto, sem ter qualquer compromisso com qualquer região seja na melodia seja na fala, acabou se integrando a todos os lugares e pertencendo a todos os lugares. Parece mineira, parece gaúcha, nordestina, paulista do interior, e no fim não é nada disso. É apenas um lance de sorte de dois estranhos ao assunto, que conseguiram introduzir no repertório do maior compositor e intérprete de música nordestina, o seu prefixo, a sua marca de apresentação”.

Ainda para Luiz Gonzaga, Klecius Caldas e Armando Cavalcanti fizeram Cigarro de Paia, uma canção que pode se considerar como “sertaneja”, que, também, foi um grande sucesso do Rei do Baião. Quando Luiz Gonzaga morreu,
Klecius escreveu que “entre as várias notícias e reportagens uma me calou fundo: foi aquela em que ele falava sobre seus planos futuros que incluíam a gravação do nosso ‘Sertão do Jequié” no próximo disco que ia fazer”. Sertão do Jequié, que Gonzaga nunca gravara, foi aquela primeira música que a dupla fez para ele e que Dalva de Oliveira se antecipou e gravou.

“O Boiadeiro”, “Cigarro de Paia” e “Sertão de Jequié” demonstram que músicas com características regionais não são, necessariamente, compostas por autores da região, como foi o caso de Klecius e Armando, que pareciam ser “sertanejos” na elaboração das canções, mas que eram, compositores eminentemente urbanos e que não se limitavam, somente, a compor em determinados gêneros de músicas.

Armando Cavalcanti e Klecius Caldas eram dois craques em fazer todo tipo de música. Foram campeões de marchinhas em vários carnavais, em um tempo em que as letras eram inteligentes e espirituosas, mas, nem sempre, seguiam as regras do que hoje seria considerado “politicamente correto”: Papai Adão (1951), Maria Candelária (1952), Maria Escandalosa (1955), e A Lua é dos Namorados (Lua oh lua querem te passar pra trás / Lua oh lua querem te roubar a paz) e A Lua é Camarada, compostas na época das primeiras viagens espaciais. Fizeram, também, as marchinhas “Marcha do Gago” e Marcha do Neném que foram gravadas pelo ator Oscarito.


Klecius Caldas e Armando Cavalcanti, fizeram juntos mais de 50 músicas, de vários gêneros e estilos, entre as quais a canção natalina Noite Azul (uma das mais bonitas canções para o Natal já feitas no país) e até uma balada-rock no estilo da música norte-americana que se fazia na época, Sua Majestade o Neném.


A dupla dos militares-compositores deixou a sua assinatura em alguns dos melhores sambas-canções já feitos, entre eles Somos Dois (com Luiz Antonio), Poeira do Chão e Neste Mesmo Lugar, um dos maiores sucessos da cantora Dalva de Oliveira: (... por uma ironia cruel, alguém começou a cantar, um samba-canção de Noel, que viu nosso amor começar...).


Armando Cavalcanti faleceu, em 1964, aos 50 anos, vítima de um enfarte. Tinha atingido, no Exército, o posto de general. Klecius Caldas ainda seguiu compondo e, em 1970, conseguiu (em parceria com o também militar Ruthnaldo) vencer um concurso de músicas de carnaval com a primorosa marcha-rancho Primeiro Clarim. Klecius Pennafort Caldas morreu, em 2002. Tinha 83 anos e havia sido reformado como general de brigada.

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  1. Que artigo interessante! Gostei muito. Só os conhecia vagamente, de nome, porque um Orientando fez uma dissertação sobre Luiz Gonzaga e os mencionou. Acrescentei mais conhecimentos sobre nosso tesouro musical. Parabéns 👏🏽.

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  2. Ah, como eram diferentes os tempos.
    Pena que sejam tão poucos os que, como o Flávio, cultuam coisas de bom gosto, como as músicas, autores e intérpretes, hoje, lamentavelmente superados por monstros que se dizem musicais.
    Que pena.

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  3. Beleza essa historia que eu conhecia em parte, contada pelo proprio Gonzaga. O Boiadeiro é a canção mais identificativ do estilo Gonzagao

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