Por mais que o século vinte tenha falado em crise e até anunciado a morte do romance, ele continua a significar o sonho para muitos escrit...

Laureano — culpa e autoflagelação

Por mais que o século vinte tenha falado em crise e até anunciado a morte do romance, ele continua a significar o sonho para muitos escritores. A alimentar as grandes esperanças, mesmo de alguns já consagrados em outras formas narrativas. Ou as ilusões perdidas dos que não se realizaram no gênero.

Meu mestre, Juarez da Gama Batista, se referia ao escritor de romances como "o homem capaz de criar realidades maiores que as da vida". A mesma perspectiva escolhida pelo ensaísta Odilon Ribeiro Coutinho
para sobrepor a obra romanesca de Zelins à realidade da atividade produtora: "Os nove engenhos que o tempo dispersou, as safras que as moendas esmagaram, a glória do avô que a morte engoliu, tudo isso ganhou dimensão na eternidade. (...) As canas que plantou não murcharão jamais: são canas que o tempo não mói".

O grande Zé Lins também reforçou essa linha de pensamento, afirmando em entrevista que "o romancista é rival de Deus". Poder da Linguagem que, em sua expressão simbólica, supera o referencial. Constrói universos imaginários. Inventa personagens que ultrapassam os criadores, e ganham vida própria e dimensões imprevisíveis. Foi assim a moça de Ilhéus, Gabriela, que saltou do romance e se impôs à realidade da propaganda, com a sedução de sua provocante alegria, celebração da sensualidade. E quero lembrar, ainda, o monumento a D. Quixote, erguido na Plaza de España, provavelmente o exemplo mais expressivo de quanto pode uma criatura de papel e tinta. D. Quixote mais soberano que todos os reis e heróis da História.

Desde a origem, a fascinação do escritor pela narrativa é sustentada pela expectativa de vencer o tempo. Deter a voragem, resistir ao despenhadeiro para onde se dirigem todos os caminhos do homem. E o romance continua identificado como o espaço onde esse poder demiúrgico se exercita, por excelência, ainda que a Teoria Literária conteste a hierarquia dos gêneros.

E esse fascínio exercido pelo romance não será exatamente uma questão de superioridade. É que sua característica essencial, como narrativa de longo curso, torna possível criar naturezas inseridas na duração do tempo,
com formas tão peculiares de pensar, dizer e agir que se revestem de verdadeira personalidade. Tornam-se únicas na forma de ser para fazer face aos conflitos de sua existência. Tão reais e verdadeiras são essas criaturas inventadas que muitas se transformam em exemplo e se projetam para a eternidade.

O romance também inclui a densidade dramática. Mas é na relação com o público que se afirma outro traço essencial. A longa narrativa exige tempo de leitura, concentração, convivência, reflexão e imaginação. Tudo que leva o leitor a compartilhar a aventura e o universo do personagem e incorporá-los ao imaginário ou à própria experiência existencial.

São considerações sobre a ficção romanesca, para incluir O HERÓI SEM ROSTO na tradição afortunada de uma espécie narrativa.

Escritor que encanta um grande público com a sua crônica, Luiz Augusto construiu um estilo marcado pelo intenso lirismo de uma linguagem densa, tecida em recursos de expressão que convertem a prosa diária em verdadeiros poemas. Sobre muitos exemplos, seria impróprio falar de flagrantes do cotidiano, como se tornou comum em relação à crônica. Pois, na verdade, os textos de Luiz Augusto trabalham sentimentos, ritmos incorpóreos, sensações, como nos versos de Fernando Pessoa, "sensações/ sentidas só com imaginá-las/ Que são mais nossas do que a própria vida".

Um traço de erudição se revela na recorrência intertextual quase obrigatória e na permanente defesa de valores que implicam conceitos éticos e filosóficos de larga abrangência.

Em outra vertente, o escritor exercita com grande requinte a ironia, expondo o mecanismo desajustado da engrenagem social. A Pensão da Paz Dourada foi um núcleo gerador dessa tendência crítica e libertária, em oposição ao automatismo que o riso sublinha, na tentativa de corrigir.

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A lição teórica de Bergson, concretizada pelo cronista, com a sutileza dos limites que elevam o cômico a uma categoria e salvam o riso da banalidade, convertendo-o em "expressão da dor estética".

Mas a esse escritor completo faltava o romance.

Luiz Augusto sempre referiu a nostalgia de uma experiência que não pôde acumular: a da vida rural e das pequenas cidades interioranas. E é exatamente um pequeno núcleo urbano que serve de espaço ao seu primeiro romance.

No prefácio revelador, de extenso título poético, o jornalista e escritor José Nêumanne Pinto direciona sua competente leitura para a constatação da universalidade do espaço, do tema e dos personagens de O HERÓI SEM ROSTO.

Traduzindo símbolos indicando possibilidades de compreensão do romance, o prefaciador explicita reiteradamente a dimensão imaginária da cidadezinha onde se desenvolvem as ações. Agregadas numa montagem, as explicações de Nêumanne resultam ainda mais intensas. Em passagens diversas, assim ele se dirige ao provável leitor:

"Santa Cruz da Serra há por toda parte. (...) é um lugar comum, ao alcance de seus olhos, facilmente oferecido ao contato de suas mãos. (...)

Santa Cruz da Serra, meu amigo, é seu mundo exterior e seu desabrigo à mão. (...) Luiz Crispim inventou a Santa Cruz da Serra dele neste romance. Mas ela só existe porque também se reflete na sua, que é outra e a mesma. (...)

(...) mais que um lugar, o cenário deste livro é sua alma, o destino manifesto de quem se perde da nobreza por algum motivo fútil e a danação implícita de quem se perde a meio caminho entre o talvez e o quem sabe, o nada e o coisa nenhuma".

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Narrador e protagonista, Laureano é o herói sem rosto. Um jornalista e professor de Ética que deixa a capital ou a metrópole pelo interior, por razões político-ideológicas.

Tem como antagonista Álvaro, ex-colega de faculdade, empresário radicado em Santa Cruz da Serra, exercendo completo domínio sobre a realidade política e econômica do lugar, numa prática em que tudo se reduz a conchavos, negociatas e falcatruas. Até o casamento com Giovanna se insere nesses valores pervertidos.

No exercício do jornalismo, Laureano participa do desmascaramento de Álvaro, que chega a ser preso sob a acusação de desvio e apropriação de recursos públicos.

Podemos dizer que este é o lado mais visível da história localizada em meados da década 80, trazendo à cena o destacado papel que o Ministério Público passou a exercer, ostensivamente, como fiscal e defensor dos direitos da sociedade.

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O Promotor Damião Libório é o personagem que sintetiza no romance essa nova realidade histórica. Assassinado pelos capangas contratados por Álvaro, é encontrado em estado de rigidez cadavérica, com os braços projetados em expressão de oratória. E o velório transcorre com o morto nessa posição chocante. O gesto paralisado tornou-se discurso, sobrepondo-se à violência e à morte.

Na sucessão de acontecimentos que se entrelaçam para a urdidura da trama romanesca, originam-se os dramas que compõem a circunstância onde Laureano vive o conflito central do romance. Pois O HERÓI SEM ROSTO é um romance de personagem, se nos permitirmos utilizar a antiga classificação.

O prefaciador alerta o leitor para a identificação, em Santa Cruz da Serra, do "homem comum", "ser sem eira, nome, sobrenome, fortuna, destino nem coração" que "se torna herói do nada, quiçá do talvez, não por excesso de bagos, mas, sim, por falta de estômago".

Laureano, em seu papel de jornalista e professor, representa a síntese desse perfil. E é preciso considerar que a seleção do protagonista estrutura importante signo da narrativa. Na Literatura Brasileira, seria suficiente lembrar o coronel, o senhor de engenho, o bacharel, a sinhá, o cangaceiro, o jagunço, etc., estabelecendo-se a inegável ligação entre a ficção e a realidade.

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O HERÓI SEM ROSTO é um romance do tempo presente. Tempo de valores em crise. De crimes ainda não tipificados pelas leis. De comportamentos sociais que os conceitos das chamadas ciências do homem não conseguem mais abranger. Tempo de homens sem referência, no delírio virtual da propaganda globalizada.

Ninguém mais apropriado para simbolizar o conflito do ser com esse tempo do que o jornalista e o professor.

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O discurso aparente, que referenda a ideologia dominante, afirma que o jornalismo é o quarto poder. Que a liberdade de imprensa é o termômetro através do qual se pode aferir o nível de uma democracia.

A militância de Laureano prova o contrário. Em qualquer dos regimes, o amordaçamento da imprensa pelo poder estabelecido. O microcosmo que Santa Cruz da Serra representa deixa expostas, de modo mais ostensivo, as armas silenciadoras, utilizadas pelo sistema dominante. E é sintomático que o romance tenha início com a chegada de Laureano, fugindo do regime de exceção e termine com ele voltando, porque também se tornara incômodo aos poderosos, em plena vigência das garantias democráticas.

A atividade de professor acentua o conflito entre o herói e a realidade. Outro papel ideologicamente mistificado. Enquanto o valor da educação alimenta a demagogia e até garante o sucesso de espertos empresários, os fundamentos da escola desabam.

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Laureano é a consciência crítica, o indivíduo que tudo compreende, sem que possa fazer face à desagregação imposta pelo sistema. Não tem outra origem a personalidade angustiada do professor, visivelmente exposta à flagelação da culpa.

O autor elabora o herói a partir da contradição. Um recurso habilidoso para construí-lo frágil e humano. Em qualquer nível de relação, Laureano será o estranho, o que sobra, o incompreendido. Entre ele e o outro a barreira, a incomunicabilidade.

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Em casa, a "reprimenda seca de Clara", a "censura vigilante", a "ironia", a "cobrança permanente", o julgamento sempre depreciativo, até o "escárnio", atitudes que ele tende a justificar num evidente processo de autoflagelação.

Os conceitos emitidos pela sociedade e pelos alunos Laureano repete sem refutar. Admite que em Santa Cruz da Serra lhe reservam "o papel de personagem quase folclórico". Com os alunos, diz que ganhou "fama de desatinado" e o imaginário que corre solto a seu respeito serve-lhe de "caricatura moral".

Quando faz a própria avaliação, o herói se utiliza de um rigor impiedoso, motivado pela ausência de auto-estima. Na solidão das sucessivas caminhadas, o leitor pode acompanhar o personagem em poéticas descrições dos espaços, contrastando com o processo interior de dilaceramento.

Identificação somente com os pássaros que festejavam seus cativeiros", com a "carícia molhada e verdadeira" do cão abandonado, com a miséria trágica de Arminda e, finalmente, com o descaminho e desamparo da jovem prostituta Morena.

No meio da noite e do rio uma canoa, tão precária quanto o encontro, serve de leito ao casal. Mas o entusiasmo do prazer se converte, de repente, no desespero da morte.

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É um episódio que se destaca pela intensa dramaticidade. A impossibilidade de salvar a jovem do afogamento exacerba a mortificação de Laureano que se confessa lançado "num poço de inevitável autoflagelação", com o grito de Morena ressoando aos seus ouvidos "como um libelo de culpa sem fim".

A contradição que estrutura o personagem alcança, neste episódio, o mais alto grau, quando o professor culto e esclarecido passa a classificar de "verdadeiro e absoluto amor" a relação fortuita com a criatura de quem mal sabia o nome.

Com a elegância de estilo que caracteriza o autor, a leveza e o movimento que lembram a crônica, O HERÓI SEM ROSTO se afirma como expressão da angústia e da incerteza do homem contemporâneo.

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  1. Ângela, texto que traz a alma do escritor e sua criação. Como sempre, de excelência crítica.

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  2. Muita "bravura literária" na sua excelência na crítica.
    Paulo Roberto Rocha

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  3. Quando eu quero realçar o papel do médico-intensivista, costumo usar a figura de que ele, quando está de plantão na UTI, pega uma disputa com Deus: um puxa lá pra cima, o outro segura como pode aqui em baixo...
    Ângela, a sua crítica exacerbou a vontade de ler O HERÓI SEM ROSTO. deve ser ótima leitura, pelo que você escreveu. Parabens!

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