Algumas pessoas que leram a crônica “ O vendedor de milho ” perguntaram-me, preocupadas, por onde andava o vendedor de milho. Aderindo ao ...

Ficção e vida

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Algumas pessoas que leram a crônica “O vendedor de milho” perguntaram-me, preocupadas, por onde andava o vendedor de milho. Aderindo ao sentimento do narrador da crônica, elas têm toda razão em fazer eco à dúvida dele, mas será que elas também poderiam ter lido o texto numa perspectiva meramente ficcional, sem perder o sentimento?

O poema “Autopsicografia” (talvez o mais conhecido de Fernando Pessoa) consegue, de forma sintética, colocar em cena a discussão milenar sobre a relação promíscua entre ficção e vida. Observemos a primeira estrofe do poema...

O poeta é um fingidor. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente.

Comecemos pelo último verso. A voz que fala nos diz que o poeta tem uma “dor” de verdade. O poeta não vive nas nuvens: ele vive na terra e, embora ele possa ser motivado pela leitura de um poema ou por uma proposta de trabalho, em geral, antes de escrever, ele é tocado sensivelmente pela vida mundana. Uma questão universal, um problema social, uma perda amorosa, uma conquista pessoal ou de seu país, uma tragédia histórica, um dilema existencial, a mão de um pedinte... alguma coisa invade a vida interior do poeta e o arrebata ou comove, entristece ou irrita, alegra ou indigna: ou seja:
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provoca uma “dor” . Essa “dor” será a força-motriz de seu poema, mas NÃO o seu poema. O seu poema será feito com palavras, apenas palavras, nada mais. Por isto, o poema de Pessoa nos diz que o poeta é um fingidor: porque mesmo vivendo uma experiência concreta (“A dor que deveras sente”), o poeta transforma (“Finge tão completamente”) sua “dor”, sua experiência sensível (concreta, inteira) em apenas um conjunto de palavras.

A adesão do leitor ao “fingimento” do poeta pode levá-lo a tomar a invenção do poeta como relato objetivo da experiência e a comover-se intensamente. É um direito legítimo do leitor, mas ele também pode comover-se com a leitura do texto mesmo entendendo, desde o início da leitura, que está lendo um “fingimento”, uma “mentira”, uma ficção, uma construção artificial de palavras.

O nível de fingimento, ou seja, de transformação por que passa o sentimento do poeta, da experiência até se transformar em um objeto de palavras, não produz, de per si, a força ou a profundidade poética de um texto: é antes a qualidade da transformação que promove isto. “Fingir”, qualquer um sabe; fazer um poema de grande valor poético depende do conhecimento do processo histórico da poesia, da extensa e cuidadosa leitura dos grandes poetas, do domínio da técnica verbal, de sensibilidade verbal e, sobretudo, de talento.

Espero não parecer cabotino, mas como a única vida que conheço bem é a minha, para exemplificar, com conhecimento de causa, a passagem da experiência para o poema, contarei uma história pessoal.

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Num certo mês de 1975, dia de meu aniversário, eu havia acordado muito cedo e saído apressado de casa, sem café ou cumprimento de meus familiares. Nem eu mesmo lembrei-me de que era o dia de meu aniversário. Passei a manhã na Faculdade de Letras. Almocei pela rua e, depois do almoço, fui à casa de um casal amigo, onde conversamos um bocado. Em determinado momento, falou-se na data e a minha amiga disse ao marido: “Ih! Hoje é o aniversário de Vieira. Temos de dar os parabéns a ele.” Só então, lembrei-me de que era o dia de meu aniversário. O fato de eu mesmo ter-me esquecido de meu aniversário (e também de meus amigos se lembrarem do aniversário de outro amigo e não se lembrarem do meu) acentuou o meu sentimento de “sozinho em rotação universal”, como diz o poeta, e eu, já possuído pela “dor” poética, desconversei, inventei um pretexto qualquer, saí e fui à procura de uma mesa onde rabisquei os versos iniciais do que seria um poema.

Bem, o resumo da vivência acima é apenas o relato da experiência. O que foi vivenciado concretamente foi transformado no parágrafo acima e conserva parte de sua carga dramática, mas não abre o seu sentido em outras direções, não alcança ainda o estatuto de “fingimento”, ou seja: não opera um afastamento da experiência, e esse registro verbal não transforma a experiência, não a amplifica, não a aprofunda, não a questiona. O relato acima quer ser o mais fiel possível à experiência vivenciada, quer, se possível, recuperá-la na sua totalidade; o texto literário procura colher, da experiência, o essencial, o que escapa do contingente; quer dar amplitude ao particular.

Vejamos, então, se consegui isso, através do fingimento, da “mentira”, da ficção.

ANIVERSÁRIO
No dia do teu aniversário a coeterna ausência faz-se único presente. Então abres a enorme caixa que dá para outra e esta para outra e assim infinitas até a última, maior de todas. E havendo nada, tudo repercute, e o dia do teu aniversário cresce e se estende pelo corpo, pela casa, pela rua, pelo mundo, pelo resto e começo da vida.

Seria o caso de se perguntar: haveria mais engenho e arte em um texto que o leitor sabe ser ficcional, mas comove-se ao ler, do que em outro que comove, mas é lido com a ilusão de que é um relato objetivo da experiência?

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  1. Muito bem, amigo Morais, com muita pertinência argumentativa você tece e destece os intrincados fios que unem e desunem ficção e vida, a arte da realidade e a realidade da arte. E, talentoso como é, bem como profundo conhecedor dos vãos e desvãos que cercam o ato/processo da criação literária, você soube transformar a sua experiência particular num texto poético belo e tocante. Drummondianamente falando, com apenas duas mãos o poeta exibe o sentimento do mundo.

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    1. Obrigado, meu caro (des)conhecido, pela leitura amiga.

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  2. A minha questão é: há vida que não seja ficção? Não seriam as experiências práticas dos trabalhos humanos uma forma de esconder a verdadeira natureza da ficção? São apenas questões na dialética sem fim de vida e ficção, até porque quando somos linguagem já somos ficção numa vida, escrita ou não.

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  3. Obrigado pela leitura.Os desdobramentos que você traz abrem questões talvez sem resposta.

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  4. Fui eu, José Mário, o comentador, Morais. Abração.

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