Alguns sabem do apreço que tenho pela poesia de Augusto dos Anjos, que considero, sem nenhum favor, o maior poeta brasileiro e um dos maio...

Augusto e Zola: dos encontros nada prováveis

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Alguns sabem do apreço que tenho pela poesia de Augusto dos Anjos, que considero, sem nenhum favor, o maior poeta brasileiro e um dos maiores do mundo. E sabem também o valor que dou aos versos “E o animal inferior que urra nos bosques/É com certeza meu irmão mais velho”. Considero estes versos da estrofe 5 de “Monólogo de uma Sombra”, de suma importância para a compreensão de dois nítidos veios em que a poesia do poeta paraibano se biparte: a evolução da espécie e a evolução espiritual. Eles são, digamos, ainda mais claros e sintéticos do que a estrofe inicial desse longo poema que abre o Eu, como uma espécie de profissão de fé.

Não há dúvidas sobre o aproveitamento dos conceitos da evolução da espécie e da seleção natural, na apresentação que a “Sombra” faz de si própria, assim como não deveria haver dúvidas a respeito da sua visão de mundo, “Pairando acima de mundanos tetos” (no meu entendimento, a lição filológica de Alexei Bueno deveria ter mantido a forma antiga “tectos”, para não inviabilizar a rima com “Senectus”...), por ela, a Sombra, estar num plano além do material, que, inclusive, o desconhecimento da velhice e da degradação da matéria reforça.
Ainda que muitos tratem isto como metáfora e, num sentido mais amplo de linguagem figurada não há como negar, a metáfora, o ornamento que a linguagem figurada empresta ao texto tem um sentido, tem um propósito. Neste caso, o de opor o mundo material ao espiritual, imaterial ou transcendental, se é o caso de alguém se sentir incomodado com a palavra “espiritual”.

Os versos citados no primeiro parágrafo desse ensaio são mais esclarecedores e mais sintéticos do que o refinamento e a complexidade da primeira estrofe de “Monólogo de uma Sombra”, por isso a sua importância; refinamento que a sensibilidade poética captou ao entrar em contato com a complexidade do conhecimento científico, transformando ciência em poesia, no sentido grego do termo, ποίησις, em que a ação de criar nos revela uma verdade sob outro prisma, qual seja o desvelamento dos meandros da realidade.

É neste casamento feliz da ciência com a poesia, uma transformando a outra e em constante retroalimentação, que qualquer pretensão de erudição fátua e de cientificismo lasso se esvai, para deixar a substância de ambas fundidas em nova imagem, a que chamamos de metáfora. O nome é insuficiente, para dizer do trabalho que só a criação transcendente é capaz de revelar.

É quando também descubro um encontro nada provável ou, ao menos, inesperado, entre Augusto dos Anjos e Émile Zola. Até que ponto seria, digamos, improvável este encontro se Zola projetou e realizou uma obra romanesca, cuja base é a ciência determinista que predominava na sua época, procurando fazer um amplo painel da sociedade do seu tempo – histórico, sociológico, científico, político –, através da grandiosidade da série Les Rougon-Macquart? Em primeiro lugar, porque a visão científica de Augusto dos Anjos vai além do determinismo doutrinário que serviu ao Naturalismo, tendo em Zola o realizador das teorias de Hipolite Taine.
Em segundo lugar, porque esse encontro de gigantes, Augusto e Zola, se dá a partir de uma das obras menos votadas do escritor francês, Le Docteur Pascal (1893), que não tenho notícia de ter sido traduzida para o português, o que não seria problema, pois ler e falar a língua francesa, na época de Augusto, era quase uma imposição incontornável ao homem culto e erudito, como o poeta era.

É em Le Docteur Pascal, no entanto, que se encontra uma síntese do que é a excepcional série Les Rougon-Macquart, ao ponto de o leitor jejuno de Zola dever começar por ela. Os planos da série aparecem no romance L’Oeuvre, no projeto do escritor Sandoz, um dos amigos da troupe do pintor Claude Lantier, e que obtém êxito em seu intento (Capítulos VI, VII e XI). Mas os andaimes para a realização da obra se encontram em Le Docteur Pascal, com o personagem título construído como um alter ego de Zola, no meu ponto de vista de leitor dos vinte romances da série.

Pascal Rougon é um médico de província por escolha. Ele poderia ser um grande profissional em Paris ou na cidade de Plassans, o ambiente ficcional de origem da sua família que dá nome à série, e que sabemos ser Aix-en-Provence, a cidade natal de Zola. Mas Pascal escolhe retirar-se para o campo, fazendo-se médico das circunvizinhanças, importando-se menos com a fama e o dinheiro, e mais com a pesquisa científica. Sim, Pascal, na sua humildade de médico de província é um cientista que pesquisa, que fabrica remédios, que faz experimentos científicos, crendo “ter descoberto a panaceia universal, o licor da vida destinado a combater a debilidade humana, única causa real de todos os males”, fonte de juventude para uma humanidade superior (Capítulo II).

Mas não é só isto que o atrai. Ocupando-se especialmente da lei da hereditariedade, ele estuda minuciosamente a sua própria família, montando uma árvore genealógica e preparando dossiers para cada um dos seus membros, de modo a conhecer como a hereditariedade atua, provocando as taras, os vícios, as doenças mentais, os males diversos, predominantes na família, em função do meio e das circunstâncias, acreditando estar “o futuro da humanidade no progresso da razão pela ciência” e “que a perseguição da verdade pela ciência é o ideal divino que o homem deve se propor”. A vida, apenas a vida, “era a única manifestação divina. A vida era Deus, o grande motor, a alma do universo” (Capítulo II).

A partir desse estudo e da exposição dos males da família para a sobrinha Clotilde, Pascal chega à conclusão da magia da ciência e da sua ligação com a poesia:

“Ah! estas ciências iniciantes, estas ciências em que a hipótese balbucia e de que a imaginação se torna senhora, elas são o domínio dos poetas tanto quanto dos sábios! Os poetas são os pioneiros, a vanguarda e frequentemente eles descobrem as regiões virgens, indicam as soluções próximas. Existe lá uma margem que lhes pertence, entre a verdade conquistada, definitiva, e o desconhecido, de onde se arrancará a verdade de amanhã... Que afresco imenso a pintar, que comédia e que tragédia humanas colossais a escrever, com a hereditariedade, que é o próprio Gênesis das famílias, das sociedades e do mundo” (Capítulo V).

Nessa marcha inexorável para a vida, não escapa a Pascal que os animais são “o esboço do homem” (Capítulo V). Eis um momento inequívoco de encontro entre os dois escritores Augusto e Zola. Seduzido pelos estudos científicos, Pascal não só descobre a beleza da poesia, movendo a ciência. Descobre também que os conhecimentos científicos o aproximam da consciência do elo existente entre os homens e os animais, com o médico se considerando irmão mais velho dessa “animalidade fraterna”, que se traduz também por uma “fraternidade dolorosa”, ligando irremediavelmente todos os seres vivos na mesma dor e na mesma esperança de melhorar pelo progresso da ciência:

“Ne lui avait-il pas parlé des bêtes, en frère aîné de tous le vivants misérables qui souffrent?” “Não lhe falara dos animais, como irmão mais velho de todos os viventes miseráveis que sofrem?” (Capítulo V).

Ao revelar todos os dossiers da família e explicá-los, Zola, através de Pascal, monta aos leitores a estrutura cíclica da série, em que “há de tudo, do excelente e do pior, do vulgar e do sublime, as flores, a lama, os soluços, as risadas, a torrente mesma da vida carregando sem fim a humanidade” (Capítulo V). Por outro lado, inequívoco militante e pouco afeito à ideia do Deus cristão, Zola, cujo anticlericalismo é conhecido, não limita, na visão de seu alter ego, o doutor Pascal, a esperança de transformação da humanidade ao viés científico através do conhecimento e do domínio das leis da hereditariedade. Na sua explicação à sobrinha Clotilde, Pascal levanta uma pequena ponta do véu da espiritualidade: em meio à ação devastadora da hereditariedade, esse “verme dentro do tronco e que não custa a estar dentro do fruto para devorá-lo” (Capítulo V), observa-se que, assim como na família, há pessoas naturalmente boas, na humanidade, entregues a um trabalho incessante de construção da vida:

“Não há mal absoluto. Nunca um homem é mau para todo o mundo, ele faz sempre a felicidade de alguém; de sorte que, quando não nos prendemos a um ponto de vista único, acabamos por nos dar conta da utilidade de cada ser. Aqueles que creem em um Deus devem se dizer que, se o seu Deus não fulmina os malvados, é porque ele vê a marcha total de sua obra, e que ele não pode descer ao particular. O labor que acaba recomeça, o fardo dos viventes permanece, no entanto, admirável de coragem e de trabalho, e o amor da vida vence. Este trabalho gigante dos homens, esta obstinação de viver, é sua razão, sua redenção” (Capítulo V).

Essa ponta de espiritualidade surge após toda uma noite insone de explicações sobre a genealogia dos Rougon-Macquart, quando Pascal se dirige com uma pergunta a Clotilde, que gostaria de que o tio queimasse os dossiers da família, vistos como coisa do diabo por Félicité, mãe de Pascal e sua avô, temendo que essas informações, com a morte do filho, caiam em mãos erradas:

“– Voyons, tu sais tout, te sens-tu le coeur fort, trempé par le vrai, plein de pardon et d’espoir?... Es-tu avec moi?” “– Vejamos, tu sabes tudo, tu sentes o coração forte, inundado pela verdade, pleno de perdão e de esperança?... Estás do meu lado?” (Capítulo V)

Não há como o leitor que conhece Augusto dos Anjos não fazer a ligação entre ele e Zola. Em ambos, a ciência é uma forma de a poesia se exprimir, em ambos a esperança em uma humanidade melhor, movendo-os em busca de uma redenção, em meio a tantas misérias. Esta esperança de renovação pela sucessão de novos rebentos na árvore genealógica, pelo desenvolvimento da ciência e pelo perdão, não se acosta ao sentido da “mosca alegre da putrefação” do soneto “Idealização da Humanidade Futura”, de Augusto dos Anjos? Em busca da luz divina redentora, o homem tem a revelação, advinda da racionalidade e de uma necessidade de redenção, de que é através da vida, do sofrimento, do empenho em viver e de saber que a morte é inevitável que a vida se renova; é na “molécula de lama” e na carne putrefata, “herança de ímpetos impuros”, que a mosca põe os seus ovos, para que novas vidas dali surjam.

Em ambos, percebe-se o sentido maior de que “a podridão nos serve de evangelho”, de que, apesar de toda uma “floração monstruosa da árvore humana” (Capítulo V), e a morte é parte dessa renovação, existe a possibilidade de uma nova vida, de um novo mundo, interligado como as raízes das árvores e as folhas de suas copas numa floresta, vida que se faz “na reconstituição diária da raça pelo sangue novo que lhe vem de fora” (Capítulo V). Na metáfora muito bem construída da mosca, encontra-se a idealização da humanidade futura. Se surgimos da lama evolutiva e adquirimos a racionalidade, não foi para permanecermos agarrados ao atavismo dessa lama primeva, atolado no “húmus dos monturos”, como diz o poeta do Eu, mas para que usássemos a nossa racionalidade a fim de avançar, de evoluir, de melhorar, em busca da “luz que os Céus inflama”.

A idealização da humanidade futura tem um caminho semelhante à esperança do Doutor Pascal: reconhecer que da degradação pode surgir a luz, seja pela reflexão da ciência, seja pela espiritualidade. Desse nada provável encontro, nasce a certeza de que os grandes escritores se reconhecem e se comunicam, ainda que nunca tenham se falado ou tenham se lido.

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