Por esses dias foi dia do amigo. Muitas mensagens. Flores. Trocas de carinhos explícitos. Em tempos digitais e fazendo parte de alguns po...

Amigos: tantos e tão poucos!

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Por esses dias foi dia do amigo. Muitas mensagens. Flores. Trocas de carinhos explícitos. Em tempos digitais e fazendo parte de alguns poucos grupos, claro que choveu rosinhas e beijinhos de afagos pela amizade.

Amigo é coisa para se guardar do lado esquerdo do peito, já dizia a canção/poema. E a neurolinguística se esforça para explicar a empatia que
sentimos por alguém que queremos para amigo.

Quando criança fazemos alianças no colégio, na vizinhança, numa aula qualquer, na rua etc. Lembro tanto das amigas de infância. Por vezes arengava com uma, fuxicava da outra, tinha inveja do corpo daquela lá, botava olho pidão para o cabelo da outra... (cabelo: o meu desejo de Dalila, sempre!). E claro, quando da infância, a gente vive grudada nas amigas. Parece que nem existimos sem elas. Mas tinha também os amigos. Aqueles que queríamos só para amigos (confidências, companhias, trocas com o masculino, interesses no amigo do amigo...), e tinha aquele amigo, que tínhamos outras intenções escusas...

Gracias à internet, recuperei as amigas de infância, as das Lourdinas, as do estrangeiro, as de tempos longínquos, as não tão amigas assim, enfim, uma vida passada pelo facebook! E até aqueles que nos surpreendemos e exclamamos: como fui ser amigo dele/a?

Com o tempo passando, e mais ainda quando casamos, na nossa sociedade, as mulheres se afastam dos amigos e das amigas também. O marido, pretenso todo-poderoso substituinte de toda e qualquer forma de amor. Exclusividade. E a gente se sente única, rodeada dos amores, e nem sabe da armadilha que aquela exclusividade significa. Continua assim. Observo o mundo ao meu redor. Precisamos sim, de amigos todos para toda a nossa vida individual e particular seguir. Sem isso somos incompletos e logo logo o que era amor e paixão se transforma em posse, isolamento e vulnerabilidade.

Se por algum motivo as mulheres se separam dos maridos, a constatação de que se está só no mundo é grandiosa, se não tivermos mantido os amigos. E os amigos do casal, sempre tem que tomar partido.
No meu caso, o partido nunca foi o meu. E me vi sozinha e sem identidade social. Difícil. Aos poucos cabe a nós nos jogarmos na vida. E construir novas amizades. Mas também tem aquelas pessoas que só existem em turma. O casal não tem assunto sozinhos. Tem que sair, viajar, comer, beber, amar com um punhado de gente por perto. Sempre fui avessa à turma. Gosto dos avulsos! Dos encontros extemporâneos. Mas também gosto dos convites. Do assédio com moderação...

Quando os anos passam, é tão difícil fazer novos amigos! Dá preguiça de expor a vida, de ter curiosidade pelo novo, aceitar as limitações de ambas as partes, ter disponibilidade (todos já têm suas famílias, netos, prioridades, etc). Fazer amigos, e principalmente mantê-los, exige tempo e dedicação. E compaixão. Amigo para o papo; para trocar sabedorias ou futilidades; amigo para sair e tomar uns chopes; para ir à praia; para comer, viajar (ih! esse item é difícil!); amigo para frequentar a casa; para chamar tarde da noite quando se está angustiada; amigo para confidências – e não ouvir o que não se quer!, amigo para expor nossas fragilidades (esse é perigoso, a natureza humana é cruel!). E aqueles amigos que estão distantes no tempo e no espaço, mas quando encontramos, o abraço fraterno é sincero, cheio das saudades, e das alegrias com o encontro.


E numa cidade como João Pessoa, que já foi pequena, e continua provinciana, somos conhecidos de muita gente. Tenho uma amiga que mora fora do país que sempre diz: “Não gosto de conhecidos! Gosto dos amigos!”. Nas cidades mais cosmopolitas, amigos são raros e se tem o hábito de convidar para vir na casa – almoçar, jantar, conversar. Geralmente escuto das pessoas de outros Estados, que vem morar aqui que, é difícil fazer amizade em João Pessoa. E é! As pessoas são fechadas nos seus umbigos e familiares. Verdade.

Mas amigos, contamos nos dedos. Agora com o facebook e outras fontes de amizades virtuais, reforçadas com a pandemia, os amigos são muitos, mas não existem. Por vezes encontro na rua com alguém que estou sempre a curtir a comentar pelas redes, mas no fundo é um estranho. O que dizer pessoalmente? Não somos íntimos. Mas no face criamos a falsa impressão de que somos amigos. Que susto! Ainda estou tateando nessas novas emoções que nem música de Roberto Carlos entende.

E quando se fica viúva, o mergulho nas amizades tem que ser de um trampolim ainda mais alto. Resgatar amizades antigas. Abstrair-se das exigências. Maior aceitação com as pessoas que aparecem, convidam. E aí entra o amadurecimento. Sabemos melhor aproveitar o momento, o ser humano, e a circunstância. Ideal? Nunca teremos, mas vai-se navegando por mares nunca dantes navegado. A solidão. O tempo. As escolhas. A manutenção das amizades de infância, a abertura para outras, e a satisfação também de conferir a sua própria companhia de sempre. O saber estar sozinho. A convivência com seus fantasmas, sonhos, e o tempo todo nosso, para os devaneios inclusive.

Os amigos se transformam. Nós também. Por vezes vamos por estradas excludentes. Por outras nem tanto. Sim! Podemos ser amigos de alguém diferente, com vidas distantes. O afeto se sobrepõe a tanta coisa! Tem amigos que nem precisamos falar. Já conhecem a nossa voz – o timbre, as falhas, a musicalidade. Outros são mais ácidos. Estão sempre com uma pitada de amargura. Respiramos fundo. Àqueles, um poço de lealdade, agradecemos!
E aqueles que nos surpreendem, esses nos fazem acreditar na amizade.

E há aqueles amigos que se transformaram em amantes. Sim, um belo dia olhamos aquele amigo e sentimos algo maior. E um calafrio escorre pelo corpo. Como pode? aquele de tanta intimidade de amigo, agora dar um beijo na boca? Sim, amigos tem dessas coisas. O limiar é tênue. E por vezes ultrapassamos a fronteira. É bom. É estranho. É humano. Demasiado. E com aquele amigo, temos um segredo. O segredo de que fomos além. O amor maior, tudo misturado. Difícil mantê-lo como amigo? Depende do amigo, da paixão bem resolvida, e de que forma vivenciamos esses abismos afetivos. Tudo vale a pena! E as almas? Se transformam. Pequenas, grandes, tudo tudinho. Salve os amigos apaixonantes!

Nesse recente dia do amigo, fiquei a pensar sobre amizade. Os amigos que fiz ao longo da vida. O que sou para os amigos – tão poucos! Mas queridos! E a me perguntar do meu talento para a amizade. Sim, é um talento aqueles que fazem amigos. Coisa rara! E cara!

Hoje eu brindo aos amigos. Daqui e de alhures! De ontem e de hoje! Os próximos e os que vejo tão pouco e queria mais. E aqueles que surgiram assim do nada, e já viraram amigos de infância. E aquele amigo especial, de tanto tanto tempo, mas que nunca tinha tido a chance de lhe dizer isso pessoalmente.

Tin Tin!


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  1. Um enfático brinde ao valor da amizade. Parabens, Ana!
    PS: Da esquerda para a direita, só reconhecí Valéria Onofre... Quem são os outros da foto?

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  2. Quero ser sempre a amiga de perto.
    Quero ser sempre a amiga. Quero ser sempre.
    Quero ser. Quero!!

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  3. Cumprimentos por reunir reflexões profundas sobre os vários tipos e graus de amizade.
    Um grande amigo meu, já no outro lado, costumava comentar"odeio a humanidade e adoro os meus amigos"...
    Parabéns pela crônica e pelas amizades!

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