Em seu último jornal literário, Terceiro Céu, Ascendino Leite explora um incidente de forma pouco literária e mesmo destoante das sut...

Surpresas de Ascendino

Em seu último jornal literário, Terceiro Céu, Ascendino Leite explora um incidente de forma pouco literária e mesmo destoante das sutilezas ou segredos de estilo que caracterizam a sua escrita. Uma obra, sobretudo, de escritor refinado, assim na prosa como no jornal de crítica em que mais se esmerava.

Deixa-se levar pelos recônditos da política e reproduz grosseiro incidente vivido entre Graciliano Ramos e o escritor mineiro Osvaldo Alves, um amigo do alagoano que, segundo Ascendino, lutou a vida inteira pela sobrevivência de um seu romance e que não contara com o mesmo ânimo do amigo a quem tanto servira e admirava. Nesse ponto, a recíproca não fora verdadeira e, ao final de um parecer desairoso do mestre caturra à obra do mineiro, este, não sei em que porta de livraria, perde as estribeiras e agride Graciliano da forma mais estúpida: “Velho safado, invejoso./ ‘Seu merda, seu filho da p...”

Temos de convir que o calão usado não é o que se espera de um contexto sabidamente literário. Em Vida literária de Álvaro Lins há coisa parecida num desabafo do crítico em seu fastígio, que o pé de página traduz como endereçado a Álvaro Moreira. Mas sem destampatório.

Acostumado a navegar nas águas de Ascendino, límpidas e mansas em sua ironia nem sempre indulgente, surpreendido, eu me senti intimamente agredido. Desde São Bernardo que aprendemos a conviver com o estilo do escritor que não é muito diferente da franqueza ou justeza do homem. Nele, prosa e homem eram a mesma coisa, mitigadas no convívio e na arte. Positiva no sentido que eu vivi em minha própria casa. Um homem desses não iria dar um parecer que não fosse franco, “positivo” na linguagem exata, justa que eu ouvia de minha mãe.

“Eu não sou bonita, dona Antonina?” – foi a pergunta da jovem senhora nossa vizinha, entrando lá em casa em sua alegria natural e, no primeiro espelho que encontra, arranjando os cabelos recém-ondulados. E a resposta franca mas bem manejada: “ Não, minha filha, você não chega a ser bonita... Mas é simpática, o que é melhor, pois a beleza se acaba em vida, enquanto a simpatia morre com a pessoa”.

O velho Graça não tinha esse manejo. À irmã que lhe mandara um experimento de conto ele não tratou diferente do que deve ter feito com o mineiro.

Na prisão, privado de sol, doente, comendo e dormindo mal, é procurado pelo diretor que lhe dá a chance de algum privilégio pedindo-lhe um discurso com que receberia o secretário ou chefe de polícia em inspeção à colônia. “Procure outro. Eu não posso escrever o que não sinto”.

Como estranhar a franqueza de um homem desses?

Na verdade, Ascendino não gostava de Graciliano. Suponho que o julgava pela ideologia. E nisso eram antípodas.

Sabendo da minha sujeição pela obra do alagoano, uma e outro sem marcar a menor diferença, saiu-se com esta: “Era escritor de vocabulário muito curto”. Respondi: “Se era assim, para o que ele queria, serviu”.

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