Reconheço que é um tema delicado. Corre-se o risco de parecer elitista, tal como ocorre em qualquer análise que aponte males – ou problema...

O inferno de Sartre

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Reconheço que é um tema delicado. Corre-se o risco de parecer elitista, tal como ocorre em qualquer análise que aponte males – ou problemas — decorrentes da massificação em qualquer setor da vida social. Para muitos, talvez a maioria, a massa tornou-se um valor por si mesma, depositária de virtudes absolutas e imune a quaisquer críticas. Decorrência provável do apreço cada vez maior – no mundo ocidental — à democracia generalizada, também esta convertida em valor por si mesma. Não vamos entrar nessa discussão por falta de espaço, de preparo e de ânimo. Mas é claro que vejo – ou intuo – as dificuldades advindas da absolutização do que talvez seja – ou deva ser – apenas relativo.

Voltemos, pois, à questão do turismo. Que é, como se sabe, uma prática recente, em termos históricos, e tradicionalmente restrita, em termos socioeconômicos. Para se ter uma ideia do fenômeno, “no período anterior à Segunda Grande Guerra, apenas um milhão de pessoas viajava”, em todo o mundo, segundo afirmação da escritora e socióloga portuguesa Maria Filomena Mónica, em seu livro A minha Europa (Editora A Esfera dos Livros, Lisboa, 2016, pág. 85).
Ainda conforme a referida autora, em 1990, esse número elevou-se para 450 milhões, em 2000, para 650 milhões, e atualmente para algo em torno de 1 bilhão e 100 milhões. Como se vê, um aumento extraordinário em apenas sete ou oito décadas. A continuar assim, é de prever-se que ao final deste século teremos provavelmente a metade da população mundial – ou mais – a fazer turismo, de forma indiscriminada ou não.

É gente demais, não há dúvida. Mas a questão que se coloca é: será isso bom? Vejamos. Do ponto de vista puramente econômico, não há dúvida de que quanto mais pessoas viajarem, melhor, pois o turismo, sabe-se, gera incontáveis empregos nas companhias de transporte (aéreas, marítimas e terrestres), nos hotéis, nos restaurantes, nos museus, no comércio, enfim, em todos os setores da economia ligados, direta ou indiretamente, ao deslocamento e hospedagem de pessoas, no mundo inteiro, desde as grandes cidades cosmopolitas até localidades menores e mais modestas. Tendo se tornado uma atividade literalmente globalizada, é natural que o turismo atinja pratica e potencialmente todos os lugares e, consequentemente, as respectivas populações nativas. E aqui entra a questão que nos interessa. Do ponto de vista das populações congênitas, é bom esse turismo massificado? Tudo indica que não.

Tomemos Veneza, por exemplo, e as informações sobre ela colhidas na obra acima citada. A bela cidade italiana é daquelas, como outras tantas, que vivem apenas do turismo, ou seja, sem essa atividade – à falta de outras que façam movimentar a economia local – correriam o risco de falir ou, no mínimo, de ver seriamente comprometida a receita pública e privada, com sérios prejuízos para a cidade – enquanto ente estatal – e para seus moradores, de forma direta ou indireta. Atualmente, Veneza é visitada por mais de 22 milhões de pessoas, o que, imagina-se, causa imensos transtornos aos seus habitantes, os quais se veem praticamente privados da fruição normal da cidade, de tal modo que, incomodados, muitos venezianos têm resolvido partir. E os números atestam isso: em 1951, a população local era de 174 mil habitantes e hoje é apenas de aproximadamente 56 mil, de acordo com o jornal El País, de 8.6.2014. Ou seja, dois terços dos nativos simplesmente não suportaram o caos turístico que lhes foi imposto.

Certamente, do ponto de vista dos venezianos que foram obrigados a partir – e até mesmo dos que ficaram, até agora – as multidões turísticas não foram e não têm sido uma coisa boa. Imagino que o que aconteceu e acontece com Veneza ocorreu e
ocorre com outras cidades igualmente muito visitadas. Aqui, entre nós, podemos citar, por exemplo, Gramado, cidade não muito grande e não muito populosa, que se vê, agora quase o ano inteiro, literalmente invadida por hordas de visitantes, em quantidade talvez igual ou superior ao número de habitantes do lugar.

Já pensou, leitor, morar na cidade e não poder frequentar em paz seus restaurantes, suas praças, seus museus, suas igrejas, suas lojas? Não poder nem mesmo transitar tranquilamente pelas ruas, sem o atropelo da avalanche irresistível de estranhos? Sem falar no congestionamento do trânsito e na inevitável alta dos preços em geral. Quem quer viver num lugar desses?

E esse turismo de multidões afeta não só os moradores locais, mas também os próprios turistas, ou, pelo menos, aqueles mais avessos a grandes ajuntamentos de gente, aqueles, por exemplo, que gostam (ou gostariam) de apreciar em paz – e demoradamente – uma pintura famosa, perto da qual nem conseguem chegar (lembremo-nos da Mona Lisa, no Louvre). Ou, mais prosaicamente, de não enfrentar filas infernais em restaurantes ou onde quer que seja.

Muito se tem falado na necessidade de incrementar o turismo em nossa aldeia. É uma saída econômica, sem dúvida. Mas será que vale a pena para os aborígenes? Tenho dúvidas. Algum turismo, sim, é tolerável e bem-vindo, admito. Mas e o de dimensões tsunâmicas? Veneza e Gramado estão aí como alertas fervilhantes.

Nessa questão, Sartre pode ter toda razão: o inferno são os outros.

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  1. Caro Gil, como sempre, muito elucidativa sua crônica.Fico muito preocupado com a propaganda que fazem para aumentar o turismo em nossa querida Capital. A infraestrutura não acompanha, aumentando a degradação do meio ambiente e diminuindo nossa qualidade de vida.

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    1. É isso mesmo, Sérgio. Obrigado pela leitura e comentário.

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