RICHARD AVEDON (1923 – 2004) foi um imenso fotógrafo americano. EZRA POUND (1885 – 1972), um grande poeta,... americano ... preso pel...

Van Gogh, Rei Lear e o Sinal de Caim

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RICHARD AVEDON (1923 – 2004) foi um imenso fotógrafo americano.

EZRA POUND (1885 – 1972), um grande poeta,... americano ... preso pelos Aliados, na Segunda Guerra, por pregações radiofônicas, na Itália, em favor do fascismo.

Bom.

Em 75, o colega José Barbosa, da agência centro do Banco do Brasil, João Pessoa – anteriores cinco anos de seminarista em Roma e grande experiência num escritório de arquitetura do Recife - , ofereceu-me (além de grandes papos) o projeto da casa que construí, na época, no bairro dos Estados, e em que moro até hoje.

- Quanto lhe devo, Barbosa?

- Me dê um quadro.

Eu tinha acabado de ler OS CANTOS, de Pound, e – tão deslumbrado por eles, quanto chocado pela biografia do autor - retratei-o em três momentos : altivo e jovem poeta de grande cabeleira, / um homem maduro sisudo, / um velho alquebrado, ... e escrevi fracionado, ante os lábios dos três:

- “Fui... / um / ... estúpido” .

Vinte e dois anos depois, houve um momento, quando eu criava o painel HOMENAGEM A SHAKESPEARE, do auditório da reitoria da UFPB, em que me vi ante a tela vazia na qual iria retratar o clímax de “Rei Lear”: aquele, no final, em que o velho morre de dor ao ter, nos braços, o cadáver da filha Cordélia. “Vi”, nítido, no linho estirado, o close obtido por Richard Avedon em 58, na casa do poeta William Carlos Williams (o do “The Red Wheelbarrow” “O Carrinho de Mão Vermelho”).

Van Gogh

Ele foi um grande pregador, um grande escritor, além de genial pintor – pra sua desgraça. Suas “Cartas ao Théo” que o digam. “Sede de Viver”, de Irving Penn, depois adaptado para o cinema por Vincente Minelli, com Kirk Douglas no papel do infeliz, me impactaram bastante, na juventude. Sustentado pelo irmão marchand que não conseguia vender nenhuma criação sua, viu-se um estorvo quando soube que Théo se casara e, pior, estava esperando um herdeiro. Daí que “um belo dia” dei com a outra foto de Pound em desespero, tirada por Avedon, e “vi”, nela, o holandês com a camisa aberta, um furo de bala no peito, sangue descendo pelo corpo, o grito no rosto... junto à tela que acabara de pintar – “Trigal com Corvos” (nome de meu primeiro poema longo) – a que acrescentei o revólver na parte de baixo do cavalete, os corvos – ausentes na paisagem sem cor, invadindo seu quadro. Usei apenas o branco, em pinceladas com relevo, como hastes do trigal.


Bom.

Numa noite de 93 fui ao lançamento do livro “O Cerco da Memória”, de Sérgio de Castro Pinto , na Gamela. Gostei da capa, o poeta me disse “É do Silvano” e me apresentou o autor – Silvano Alves Bezerra da Silva. O artista gráfico era, também, do Conselho Editorial e Vice-Diretor da Editora Universitária – que produzira o volume. Disse-me que soubera de meu romance inédito, “Shake-up”, e se ofereceu para publicá-lo pela UFPb. No dia seguinte lhe entreguei os originais e, ... meses depois fui à Universidade, atrás de notícias, quando fiquei sabendo que o amigo se fora para o Maranhão. José David Campos Fernandes – o novo diretor , me disse que precisaria do texto de alguém como Antonio Barreto Neto, que avalizasse a obra. Consegui, isso, mas lá se foi mais um ano e... nada. Voltei à editora e encontrei um interino em seu comando – Everaldo Vasconcelos, futuro autor e diretor do “Auto de Deus”, em que eu viria a ser o Pilatos por três anos. Mandou fazer uma busca nos arquivos e deu com o Shake-up embrulhado do jeito que eu o deixara lá, anos antes. O Everaldo, então, deu ordem de que fosse imediatamente editado... e foi como o vi pronto... e lançado numa noite de 1997, o mesmo ano de meu painel sobre Shakespeare.

Grato, dei-lhe o “Suicídio de van Gogh”.

Mas eu devo ter algo como o “sinal de Caim” de que fala o romance “Demian”, do Hermann Hesse, pois fui, no cinema, um matador de aluguel, um tenente da polícia, um delegado capacho, um camponês louco, um latifundiário cearense escravocrata e um milionário pernambucano de passado escuso. Lembro-me de que montava o bendito HOMENAGEM A SHAKESPEARE, quando uma multidão de funcionários da UFPB entrou para uma reunião no auditório da reitoria, e uma senhora disse a outra, ao ver meus quadros espalhados no chão: “Isso é coisa do demônio”. Na sala da Coex, porque havia nela uma dezenas de quadros meus - fiquei sabendo (não sei se por Fernando Abath ou Marcus Vilar) - certas pessoas não entravam.

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Pois bem.

Everaldo, um dia, rindo, devolveu-me “O Suicídio”:

- É muita gente entrando em meu gabinete e dizendo Vôte, que mau agouro é esse?

Meu livro “Trigal com Corvos” ganhou o Prêmio João Cabral de Melo Neto, da UBE, em 2005.

Vincent faleceu dois dias depois do tiro, na presença de Theo (o Sérgio Lucena tem uma bela tela com esse tema), “recusando-se a submeter-se a qualquer cirurgia” – conta a Wikipedia. Em poucos dias Théo entrou em depressão e séria confusão mental. Faleceu dois meses depois, com 33 anos de idade. A viúva, com o enorme lote de telas do cunhado, se deu bem.

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