Eu tinha dezesseis anos de idade, e isso já faz muito tempo, quando me mudei com minha mãe para Brasília. Meu destino era o hospital Sar...

Eu não queria morrer

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Eu tinha dezesseis anos de idade, e isso já faz muito tempo, quando me mudei com minha mãe para Brasília. Meu destino era o hospital Sarah Kubitschek, um projeto de reabilitação inovador, dirigido por Dr. Campos da Paz, que tive o privilégio de conhecer.

O Sarah nascera como referência em reabilitação e reunia destacada equipe interprofissional, além de técnicas e equipamentos empregados com grande sucesso na Europa e Estados Unidos.

Tudo era surpreendente para mim, por ser extraordinário e promissor. Mas havia um temor envolvido entre o que eu desejava e o que poderia encontrar. Brasília tinha minha idade, ambos éramos muito jovens. Ela era um sonho, eu esperança. Do avião vi o espelho dágua do Paranoá a refletir um azul intenso, como a pedir que eu parasse de pensar sobre o que eu não queria e mergulhasse no meu propósito. Voltei os olhos para minha mãe, ela parecia assustada. Era um medo guardado, velado, contido. Por ela não teríamos deixado a Paraíba, mas eu a encorajei. Agora eu já não tinha tanta força, estava dividido entre a esperança e a incerteza. Indiferente, o avião tomou a direção da pista e pousou.

A cidade estava fria e um vento forte sacodia árvores e arbustos, espécies desconhecidas para mim. Era um mundo bem diferente do nosso. O meu medo cresceu. Enquanto éramos conduzidos para o setor de desembarque olhei novamente para minha mãe, ela parecia tensa, eu sabia que seu arrependimento ainda continuava lá.


Uma centena de pessoas retirava suas bagagens e as carregava com a ajuda de outras que lhes cercavam e falavam descontraída e incessantemente. De repente, alguém correu para onde estávamos. Tios e primos nos esperavam, e calorosamente nos abraçaram.

Duas semanas se passaram e esse período foi generoso remédio para curar nossa ansiedade, ou pelo menos aquietá-la. Mas veio o dia mais esperado, a primeira consulta no Sarah.

Durante aquela semana eu me submeti a uma série de exames e procurei sondar o que se passava em minha volta, os médicos já deviam ter conversado com minha família. Preparei-me para o pior, o medo precisava ficar em segundo plano, por isso estava determinado, pronto e otimista.

Num final de manhã, depois de demorada avaliação, a equipe médica concluiu que eu deveria me submeter a uma cirurgia.

Naquele novo mundo tudo era muito surpreendente. Eu começava a gostar da vida, estava descobrindo o desconhecido, me encantando com o futuro. Eu não queria morrer!
Doutor Nilo arrumou os óculos no rosto e sua colega cruzou os braços, ambos apresenavam expressões bem sérias.

— Nós estudamos o seu caso e concordamos que precisará corrigir a postura e para isso vamos te submeter a uma intervenção cirúrgica. Uma artrodese de coluna – disse ele.

— Mas... o que é isso?

— Seus pulmões estão ficando muito comprometidos pela pressão da coluna. Como está agora você não chegará aos trinta anos de idade – falou, estreitando os olhos que já eram miúdos. Apesar de ser bem moço, doutor Nilo parecia-me muito seguro. Depois fiquei sabendo que estudara na Alemanha.

— Artrodese de coluna... — disse eu olhando para minha mãe, sem entender. Doutor Nilo foi muito objetivo:

— É um procedimento cirúrgico que tem a finalidade de estabilizar o movimento entre duas ou mais vértebras. No seu caso é a coluna inteira, o que significa dizer que não é uma cirurgia simples.

Eu respirei fundo e engoli uma saliva amarga. Perguntei:

— Se é a coluna inteira então isso quer dizer que é uma cirurgia arriscada.

— Sim, sim – disse cruzando os braços. – Mas todo procedimento cirúrgico envolve algum risco, no seu caso trata-se de um procedimento bem complexo e, portanto, demorado. Pode haver intercorrências...

Eu não tinha medo de morrer, pois na Paraíba vira a morte de muito perto, mas naquele novo mundo tudo era muito surpreendente. Eu começava a gostar da vida, estava descobrindo o desconhecido, me encantando com o futuro. Eu não queria morrer!

Olhei para doutor Nilo e perguntei:

— O senhor pode ser sincero comigo?

— Claro – disse muito enfaticamente.

— Sinto que será uma cirurgia muito arriscada. Quanto é minha chance de sobreviver?

— Huuuuum... 30 por cento! Ou um pouco mais! – disse sem meias palavras. Voltei para casa triste, abatido, e esse dia demorou a passar, a noite também. Na manhã seguinte voltei ao Sarah.

Como em qualquer hospital havia grande movimentação de pessoas, mas suas fisionomias e tipos eram muito diversificados, o que me causava grande fascínio. Com facilidade identificava europeus, asiáticos, andinos, índios e seus descendentes, gente das mais variadas regiões do nosso país.

Subitamente, a porta do grande elevador provocou um estalo e se abriu. Dois enfermeiros surgiram manobrando uma maca em direção à enfermaria. O paciente, semiconsciente, era uma mistura de múmia e assombração. Tinha a cabeça enfaixada e deixava entrever apenas uma pequena parte do rosto descorado. Pernas e tronco estavam completamente imobilizados por duas cintas largas. Percebi que estava vivo porque soltou um gemido e abriu os olhos.

Os enfermeiros, um forte alto e outro baixinho, conversavam sobre futebol enquanto seguiam pelo corredor impecavelmente limpo. Desapareceram numa porta larga. Minutos depois ouvi meu nome soar no alto-falante da recepção.

Doutor Nilo sorriu e perguntou se estávamos gostando de Brasília. Em seguida, num tom menos leve, voltou a falar sobre a cirurgia.

Suas palavras soavam como uma espécie de sentença condicional. Senti-me qual um pássaro de gaiola. Ao tempo em que ele me oferecia a soltura, mostrando-me a paisagem, cortava-me as asas deixando-me no chão.

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Era sim ou não, decisão sem apelo. No rosto da minha mãe vi uma angústia que parecia superar sua religiosidade. A toda aflição rogava às bênçãos e proteção de Nossa Senhora de Fátima, no entanto, a fé, por maior que seja, nunca transcende o amor de uma mãe por um filho, daí sua aflição.

Uma janela mostrava um céu abobado, cheio de liberdade. Ao lado da janela vi uma régua dependurada. “Um objeto inerte como minhas pernas”, pensei. O céu era a liberdade, a régua o seu oposto. Mas de repente aquele objeto quis dizer algo, era uma medida que contava espaços, assim como o tempo, assim como a vida.

Não podia me demorar para responder sobre a cirurgia. Era sim ou não. Disse de mim para mim: "Se eu fizer... Sim, posso viver muito, mas será um procedimento delicado, demorado e que pode ter complicações, um termo mais ameno para a palavra óbito, morte".

Eu não tinha escolha, precisava decidir. Meu Deus, em que situação o destino me jogara! Para decidir, recorri-me ao tempo. Pensei...

O tempo é incansável e paciente, mas flui sorrateiramente, uma grandeza limitada que presenteia a vida e a ceifa numa de suas incontáveis frações.
Então disse comigo: 'Eu não vou morrer, agora não!! Então não preciso temer. Sinto que uma forte tempestade vai desabar sobre minha cabeça, mas eu não vou naufragar!'
“Você está morrendo, respiração ofegante, taquicardia, mas terá uma sobrevida de cinco anos. Isso se escolher não fazer. Se fizer talvez viva muito!"

"O tempo é um recurso limitado e intransferível, ou você os gasta ou os perde". Quem não quer morrer precisa de tempo. Por isso eu refreava sabendo que poderia morrer no decorrer daquela cirurgia, e daí não ter tempo nenhum, nem a vida futura nem a sobrevida anunciada.

Eu tinha medo do desconhecido porque não sabia que o mundo era tão grande e comportava tantas coisas, medo da expectativa que criei, podendo ser diferente do que buscava. Mas agora se apossara de mim o pior dos medos, o da morte prematura.

Apesar de tudo, eu estava seguro de que viera ao plano terreno com uma missão, e portanto, fosse o que fosse, eu precisava cumpri-la. Então disse comigo: "Eu não vou morrer, agora não!! Então não preciso temer. Sinto que uma forte tempestade vai desabar sobre minha cabeça, mas eu não vou naufragar!"

Subitamente tomei minha decisão:

— Quando é a cirurgia, doutor? Eu quero fazer – disse decidido.

O médico vira determinação na minha fala, ânimo nos meus olhos, entrevira minha coragem de enfrentar, minha vontade de viver. Percebi que ele fora contagiado por esse ânimo, pois tive ali a sensação de que sua mente se enchera de luz e esperança. Minha mãe não acreditou no que acabara de ouvir, mas em vez de se apavorar, fez o que eu esperava que fizesse: fechou os olhos, pôs a mão no peito e respirou profundamente.

Agora eu tinha tudo o que precisava: a capacidade da equipe do Sarah Kubitschek, minha coragem para enfrentar o que estava por vir e as orações da minha mãe.

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Minha mãe, Iraci (centro), com os tios que nos receberam em Brasília: Gilka Paiva e João Soares.
Acervo pessoal

A cirurgia foi um grande pesadelo para os médicos, mas o seu objetivo foi quase totalmente alcançado. Demorou 12 horas e o êxito não foi de 100% porque envolveu uma sucessão de intercorrências, entre elas três paradas cardíacas enquanto, inconsciente, eu tinha o dorso totalmente aberto. Passei vinte dias no Centro de Terapia Intensiva e seis meses com o tronco e a cabeça imobilizados por um grande e incômodo bloco de gesso, além de um ano com um desconfortável colete metálico.

Tudo isso aconteceu no final da década de 1970 e ficou apagado na poeira do tempo, restou a sabedoria para agradecer a Deus por cada dia vivido, o meu espírito de coragem para enfrentar os desafios do caminho, a admiração pelo extraordinário desempenho daquela equipe médica, o infinito carinho pelos tios que lá me acolheram e a eterna gratidão pelo amor e cuidado da minha adorável mãe.

Retorno a Brasília, 15 anos depois da cirurgia.


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  1. Emocionante.... Deus te deixou aqui, pra que com sua alegria e arte, nos alegrasse.
    Bjs

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  2. Emocionante relato de coragem e fé na vida! Parabéns meu amigo!

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  3. Obrigado a todos pelo carinho. Acredito que ninguém passará pela vida sem cumprir a missão a que decidiu cumprir. Todos estamos aqui para isso, para cumprir e crescer.

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  4. Lembro bem de tudo o que aconteceu. Você venceu todos os obstáculos. Para nós, foi mais um milagre. Você é iluminado por Deus, és luz e exemplo para muitos que estão precisando de ajuda. Você nos encanta com suas pelas artes. Beijos meu querido pintor.

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  5. Nosso primo que é um orgulho para todos nós.

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