Euclides da Cunha diz em “O Homem”, segunda parte de Os sertões , estarmos “condenados à civilização. Ou progredimos, ou desaparecemos” (S...

Civilização e Evolução

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Euclides da Cunha diz em “O Homem”, segunda parte de Os sertões, estarmos “condenados à civilização. Ou progredimos, ou desaparecemos” (São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2019, cap. I, p. 114). A razão dessa afirmação taxativa é a reverberação do que ele viu em Canudos, a mais acabada imagem da barbárie, a ponto de ser chamada de “Troia de taipa dos jagunços” (Cap. II, p. 144; Cap. V, p. 225) e de “Jerusalém”, que se amaldiçoa (Cap. V, p. 255), numa alusão ao fato real da ação devastadora dos romanos contra os judeus, em 70 d. C., sob o comando do imperador Vespasiano e de seu filho Tito, e também ao grande mito de resistência guerreira na imagem da Troia homérica, devastada, igualmente, pelos argivos, sob o comando de Agamêmnon.

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Canudos, Bahia, em 1897Flávio de Barros ▪ Fonte: Bliblioteca Nacional
A civilização teria impedido o morticínio realizado em Canudos, essa “urbs monstruosa, de barro” que “definia bem a civitas sinistra do erro” (Cap. V, p. 226); “essa tapera dentro de uma furna”, que “estereotipava o facies dúbio dos primeiros agrupamentos bárbaros” (p. 231), e, apelando o escritor para a evolução da espécie, verdadeiro “polipeiro humano” (p. 232)? Acho pouco provável, pois outras sociedades civilizadas, ao longo do século XX e ainda no século XXI, continuam provocando morticínios. Nem precisa que citemos o que a civilizada Alemanha fez com os judeus, o que a civilizada França fez com os argelinos, os civilizados belgas e holandeses fizeram na África negra; a Inglaterra na Índia; a ex-URSS na Polônia, Ucrânia e demais países do leste europeu... A lista é longa.

Euclides da Cunha, evidentemente, crê em uma civilização que, se não detenha, ao menos, amenize a irracionalidade ou, para utilizar um vocabulário que lhe é caro, a insânia humana. O que ele não disse é que se estamos condenados, ainda não estamos preparados para a civilização, porque a queremos pronta, sem enfrentar as dificuldades inerentes à empresa. O homem criou uma armadilha para si próprio, quase uma espécie de aporia, da qual ele não está conseguindo sair. É o mal-estar que se abate sobre a civilização, de que falou Freud.
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Ataque e incêndio de Canudos, em 1897Flávio de Barros ▪ Fonte: Bliblioteca Nacional
Criamos uma sociedade para nos proteger da natureza e das suas leis inflexíveis que fecham os ouvidos aos lamentos de toda a sorte, mas ficamos prisioneiros, reféns de nós mesmos, procurando um meio, nem sempre sensato, de nos proteger uns dos outros. Trocamos a lei da natureza, em que sobrevive o que melhor se adapta à seleção da espécie, pela barbárie da lei do mais forte, ainda em voga em muitas sociedades, como a nossa, por exemplo, em que vivemos brincando de democracia e de justiça, sem fibra para construir uma ou outra.

De nossa parte, trocaríamos o “condenados à civilização”, de Euclides da Cunha, por “determinados à evolução espiritual”. E se não evoluirmos, não iremos desaparecer. Mas do mesmo modo que os que se jactam de racionais e acreditam apenas na ciência que lhes convém não estão preparados para a civilização, a humanidade não está preparada para a evolução espiritual, que não se dará do dia para a noite. É um processo lento, cumulativo, que requer paciência, tolerância, persistência. Exige, sobretudo, que lutemos contra a nossa natureza agressiva, mal escondida sob fino verniz de civilidade mal digerida.

A direção do caminho a seguir foi apontada por Jesus, ao repetir a regra de ouro de muitas doutrinas – devemos nos amar, uns aos outros, e não devemos fazer ao próximo o que não queremos que nos seja feito. A nossa dificuldade em entender o que foi formulado reside no fato de que se o caminho nos foi, há muito, apontado, nós é que temos de percorrê-lo, individualmente. Ninguém poderá percorrer a não ser o seu próprio caminho. Por isso mesmo é que uns se adiantarão, outros serão mais lentos e outros estagnarão até serem chamados à mudança por algum fato externo que os acorde de seu torpor. Todos iremos evoluir, mas cada um a seu tempo. Por isso, não nos extinguiremos. Neste processo lento de evolução, iniciaremos lutando contra nós mesmos, tenazmente, tentando inibir um condicionamento que nos conduz à violência e à agressividade, até que, depois de muita luta e de um longo caminho percorrido, veremos que, naturalmente, as nossas atitudes serão de absoluto respeito e amor ao outro.

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Sobreviventes — a maior parte mulheres e crianças — aprisionados durante os últimos dias da Guerra de Canudos, em 1897Flávio de Barros | dom. público ▪ Fonte: Wikipedia
Alguns não entendem ou veem como uma ironia, a mensagem do Evangelho, afirmando que “muitos serão os chamados e poucos os escolhidos” (Mt., 22,14). Deus, no entanto, como diz o apóstolo Paulo, “não faz acepção de pessoa” (Rom., 2,11). Deus não faz distinção, não discrimina ninguém. Nós é que, por nossas atitudes reformadoras, persistindo no caminho cheio de dificuldades e procurando vencê-las, é que nos escolheremos.

Numa mensagem aos seus discípulos, mensagem que antecede àquela do Cristo, Sócrates, no diálogo platônico Fédon, fala da preparação que se deve fazer, em vida, para que a alma se liberte da prisão do corpo e vá morar entre os deuses. Tendo naquele que é filósofo o melhor exemplo de quem se prepara para viver a imortalidade da alma, Sócrates aponta o caminho da temperança, da justiça, da coragem e da sabedoria, como elementos básicos para a purificação, provas que o iniciado deve suportar, ao percorrer o seu caminho. Quem não o percorrer, não tendo sido iniciado ou purificado, ao chegar ao Hades, vai para um lamaçal; quem tiver seguido a iniciação e a purificação irá morar com os deuses, pois, de acordo com os mistérios “muitos são os portadores de tirso, porém pouquíssimos os verdadeiros inspirados” (69cd).

De nada adianta, portanto, ficarmos nos lamentando contra a barbárie, se nada fazemos pela civilização. Do mesmo modo, nada ganhamos atrasando o início de nossa caminhada para a evolução espiritual ou esperar que alguém a faça por nós. Se não tivermos a divindade dentro nós, o que o grego chama de entusiasmo (ἐνθουσιασμός), de nada adianta portar o tirso.

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