O que mais vem me impressionando ultimamente – no que se refere a esta ... marcha ... da Humanidade – é a revisão total que tenho feito do...

Todos os que se vão conosco

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O que mais vem me impressionando ultimamente – no que se refere a esta ... marcha ... da Humanidade – é a revisão total que tenho feito do século passado, ao não mais vê-lo em filmes de lusco-fusco preto e branco, mas nítidos, remasterizados e colorizados, no YouTube, com ruas e avenidas de Londres, Berlim, Paris, Viena, Amsterdam ou Nova Iorque, em 1926, 1910, 1945, 1900, tudo com tal qualidade de imagens, que elas parecem ao vivo, sempre o trânsito intenso, multidões elegantes nas calçadas, um Ford 29 aqui, um V-8, ali um Citroën “traction avant” de 1935, moças e senhoras com vestidos da Dior ou Chanel, os cavalheiros, todos, de chapéu Prada ou Ramenzoni, - tudo estalando de novo, e isso ... parece ter a ver com a velha e estranha sensação, minha, de que os amigos Kaplan e Dr. Atêncio, de que meus pais, de que meus irmãos Wilma e Ney, de que o filho Dmitri, todos... continuam suas vidas em Pombal, Fortaleza e Sorocaba, ou ali, na Avenida Espírito Santo, tal a nitidez com que os vejo e ouço na memória. Agora mesmo, neste mesmo lugar em meu gabinete ,diante do computador, ouço mais uma vez a voz, lá fora – como em... 1994:

- Correio!

... que venho a saber ser coisa do presepeiro amigo Ednaldo do Egypto (1935 – 2002).


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Falei em “marcha da Humanidade”. “Êxodos” é o nome de um dos belos livros de Sebastião Salgado, lançado em 2000, depois de seis anos em que ele andou fotografando uma Humanidade em trânsito, através de quarenta países. O título provém de um ... êxodo só, o do narrado no segundo livro da Torá hebraica e também do Antigo Testamento cristão, curiosamente com nome original ... diferente. Veja na Wikipédia:

- “Livro do Êxodo ou simplesmente Êxodo (do grego clássico: ἔξοδος, éxodos, "saída" ou "partida"; em hebraico: שְׁמוֹת, Shəmōṯ, "nomes", a segunda palavra do começo do texto: "Ora estes são os nomes dos filhos de Israel, que entraram no Egito").

Quais nomes? O Êxodo 1: 5 a 7, depois de enumerar alguns, diz: - “Todos os que tinham saído de Jacó faziam o número de setenta pessoas. Cresceram os filhos de Israel e como uns renovos se multiplicaram e feitos em extremo fortes , encheram todo o país”.

Isso poderia ser ilustrado com imagens da bucólica e provinciana João Pessoa de quando cheguei aqui, em 70 – 228.400 habitantes, eu com menos de quarenta anos, e as de agora: 825.796 – com a costa crivada de arranha-céus, eu com oito décadas fechadas.


Eu – como cantava o Vandré - vinha lá do sertão. E, oito anos antes, do Sudeste... e – de mais longe ainda, no tempo – dos anos 40, 50 – sempre guardando, com total nitidez, a imagem de gente chorando - nas ruas de Sorocaba -, pelas mortes de Getúlio e de Francisco Alves, trombetas do Repórter Esso e a voz de Herón Domingues – “A testemunha ocular da História”, na Rádio Nacional, dando essas e tantas outras notícias que minha mãe e minhas irmãs ouviam o dia todo, enquanto costuravam. E eis a voz de Orlando Silva e a de Dalva de Oliveira, de Louis Armstrong e de Frank Sinatra , de Carmem Miranda e de Édith Piaf, de Luís Gonzaga e de Jackson do Pandeiro, mais as orquestras, conjuntos, coros – de Ray Coniff e Billy Vaughan a Severino Araújo, Paulo Gracindo na extensíssima novela radiofônica “O Direito de Nascer” que populou minha infância de uma gente cubana imensamente infeliz, e acrescente-se a isso toda aquela trempe engraçadíssima do “Balança Mas não Cai” e “PRK-30”, enquanto via, no cinema, as mulheres que me pareciam as mais fascinantes do mundo - Ingrid Bergman, Elisabeth Taylor, Kim Novak e Grace Kelly,

a vida – ao lado disso - com personagens que me parecem vértebras de uma coluna jurássica: como o Getúlio de bombachas e de “Trabalhadores do Brasil!”, o mal composto de feições Dutra, o elegante Juscelino e sua “Capital da Esperança”, o Jânio da caspa e do “Fi-lo porque qui-lo!”, o comuna latifundiário Jango, o bloco de militares (Castelo Branco sem pescoço, o não inteligente Costa e Silva, o duro Garrastazu Médici, o esgalgo Geisel, o “prendo e arrebento” Figueiredo), depois o bigodão do Sarney, a empáfia de Collor, o topete do Itamar, a boca mole do Fernando Henrique e seu “Esqueçam o que escrevi”, os erros de português de Lula, a ingenuidade de Dilma, a fina nulidade de Temer, o (pelo amor de deus) Bolsonaro & Filhos – tudo com o enorme arcabouço colateral – na infância - composto de Hitler (gigantesco e personalíssimo Lúcifer) e vultos colaterais - Mussolini e Stálin, Franco, Tito e Perón, Churchill, Truman e Eisenhower,

e lá estão, morrendo, o Gary Cooper, Einstein, James Dean, Che Guevara, Gláuber Rocha, Burt Lancaster (que vi jovem canastrão, depois lindamente envelhecendo nos filmes de Visconti) e: Ho Chi-Minh e o general Giap, todos aqueles milhares de soldados americanos no Vietnã e hippies por toda parte, todas aquelas multidões de operários do Solidariedade com Lech Walesa, todos os milhares de soldados judeus na Guerra dos Seis Dias, todos aqueles milhões de negros famintos em eterna migração pela África devastada de secas e guerras, e lá vêm Pelé & Garrincha, Didi & Zagalo (quantos maracanãs lotados!), e haja Maria Ester Bueno e João do Pulo, Portinari & Di Cavalcanti, Caetano & Gal, Chico & Gil, Julião & Lamarca, Bandeira & Drummond, Niemeyer, Elvis e os Beatles,

minha infância superpovoada de uma humanidade engraçada, como o Gordo e o Magro, os Três patetas, Buster Keaton, Carlitos, Irmãos Marx, Oscarito & Grande Otelo, sem falar dos tantos tiros a galope de Hoppalong Cassidy, Durango Kid, Rocky Lane, Roy Rogers, a imaginação solta com o Capitão América e Príncipe Íbis, Namor e Tarzan, Flash Gordon e o Príncipe Valente, Nick Carter e Mandrake, Ferdinando e o Homem de Borracha, Tocha Humana e Dick Tracy, o Brucutu, Super-Homem e o Fantasma.

Meu deus: e as professoras do primário ? (Caramba, claro: as presenças temidas de Dona Yayá e Dona Cacilda! ), depois os professores e colegas do ginásio, Ênio Angheben, o eterno primeiro da classe; Peyres, o atleta da turma; Paulinho, o gostosão das meninas; Morais, o palhaço do grupo; meus primeiros flertes, depois os companheiros da escola de contabilidade – numa época em que minha família mais próxima eram meus pais (hoje mortos) e os meus irmãos jovens (que envelheceram e morreram) , meu intermitente avô - por quem eu era fascinado – além de tantos tios e primos.

E... vi a multidão furiosa, num copião de Vladimir Carvalho, exibido por ele em sua casa, em Brasília, nos anos 70, tomando o esquife de Juscelino dos bombeiros, o mundo chocado com os assassinatos de Luther King, John Lennon e Kennedy, com a morte de Ayrton Senna. E, acima de todos, a forte presença ausente, na infância, de Cristo, Deus, da Virgem e do meu anjo da guarda (para quem eu fora treinado a rezar antes de dormir, todas as noites), além de um rol de santos (cada um com seu dia no calendário), seguindo-se novenas na igreja (abarrotada) de São Judas Tadeu, trezenas na (cheíssima) Santa Rita, missas nas (sufocantes) Santa Terezinha, São Bento e Catedral, em que eu tinha de acompanhar minha mãe, bem como em enormes procissões na Semana Santa, as gigantescas romarias para Aparecidinha, as promessas de meus pais e irmãos a Nhô João de Camargo (um padre negro cuja capela, na periferia de Sorocaba, vivia entulhada de muletas e de toda espécie de ex-votos), mais todos os enterros que eu via todos os dias durante o dia todo, quando criança, pois morava a um quarteirão do Cemitério da Saudade.

E eis que surge uma outra ala paralela, nesse ruge-ruge, a partir de meus onze anos, quando descubro as vozes de Caruso, Gigli, Mário Lanza, Mário del Mônaco, Renata Tebaldi, Tito Schippa, Maria Callas, todas elas atualizadas, depois, pelas de Pavarotti, Carreras, Plácido Domingo, Cecília Bartoli, Kiri Te Kanawa, Kathleen Battle, e lá vêm o coro do Va Pensiero , dos Peregrinos, dos Ferreiros, milhares e milhares de réquiens, missas, oratórios, paixões,

coisas de que acabei fazendo parte, como no Oratório Via-Sacra, da prof. Ilza Nogueira, a Cantata pra Alagamar, do Kaplan, o Réquiem Contestado, do Eli-Eri,

ao tempo em que vinham e iam figuras como Gandhi, Gagárin, Lumumba, Neil Armstrong, Picasso, Dali, Mohammed Ali, Nixon, e que haja Allende, Mao, o simpático João XXIII, o ascético Pio XII, mais Marcuse, João Cabral de Melo Neto, Miró, Mondrian, Mary Quant, Pávlova, Nureyev, Baryshnikov, etc, etc, etc, e que dizer de Pound, T. S. Eliot, Fernando Pessoa, Affonso Romano de Sant’Anna, etc, etc?

Creio que Gustave Doré (o ilustrador de Dom Quixote e da Divina Comédia) , Godfrey Reggio (o cineasta de “Koyaanisqatsi” e “Poyaanisqatsi”), além de Sebastião Salgado... sacaram essa coisa-multitudinária-em-movimento os milhões de seres humanos sem-teto, sem-terra, peregrinando “em densas levas” no inferno, Palestina, Croácia, Curdistão, Afeganistão, Sudão, Ruanda ou no tempo, em minha memória, assim como era no princípio, agora e sempre, per omnia sæcula sæculorum, meu deus!


Lembro-me de que certa vez, adolescente, numa de minhas frequentes idas a São Paulo, parei no Viaduto do Chá, centro da megalópole, no meio do incessante passa-passa de todos aqueles milhares de rostos na avenida exclusiva de pedestres, e fiquei embasbacado ante as infinitas combinações dos mesmos elementos – boca, nariz, cabelos, olhos – como variações do mesmo tema: o ser humano,

sensação que vi repetir-se em Madri, adicionada à constatação - também óbvia, mas nem por isso menos contundente - de que toda aquela multidão sempre estivera lá em minha ausência (ninguém precisara de mim para existir) e de que lá continuaria depois que no dia seguinte eu me fosse (como a árvore do filósofo Berkeley, que permanece real mesmo quando ninguém a está olhando, porque, segundo ele, “Deus está”.), tudo como um trailer da gigantesca indiferença com que todos prosseguirão vivendo quando eu morrer - o que não deixa de ser sufocante (mas só até o fim desta frase).

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  1. Para mim foi uma viagem no tempo. Adorei!👏👏👏👏👏

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  3. Sem fôlego aqui. Como li: você desfazendo as malas de uma viagem longuíssima. E ficando leve, porque já não precisa de malas para carregar nada. Tudo ficou por onde deixou. Um beijo meu querido, sempre.

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