Quem passou dos 60 e viveu a infância no interior, certamente, lembra disso. Os grãos – esverdeados e separados em duas bandas – chegavam ...

Com o gosto da saudade

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Quem passou dos 60 e viveu a infância no interior, certamente, lembra disso. Os grãos – esverdeados e separados em duas bandas – chegavam das feiras livres e mercados públicos para os quintais onde um tacho e o fogo os aguardavam.

Na minha e na casa de muitos, qualquer que fosse a região do País, o melhor café não vinha empacotado das prateleiras de armazéns, ou bodegas. Surgia, isto sim, dos tachos sobre fogo de lenha.
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Nascia das mãos habilidosas das ajudantes de cozinha, ou das próprias donas de casa sem dinheiro suficiente para bancar essa ajuda.

O preparo, aos sábados, lá em casa, não dispensava uma grande colher de pau de cabo comprido, o açúcar bruto produzido nos engenhos das redondezas nem o pilão com altura superior à do irmão caçula, em seus cinco ou seis anos de vida.

Maria, cujas mãos o Padre Gomes tinha por milagrosas (logo ele que ministrava hóstias), encarregava-se de montar a trempe de tijolos à sombra do pé de pinha, aquecer o tacho e torrar os grãos, lentamente. A colher sempre em movimento garantia a queima por igual. E lá vinha o açúcar no arremate. Era aquilo bater no tacho para, em segundos, derreter e unir tudo numa mistura borbulhante.

Nós, os meninos da casa, chupávamos pedacinhos cristalizados como se fossem bombons. Saíamos dali com as línguas pretas e a arenga materna. O cheiro, então, já se espalhava pela vizinhança. “Dona Vininha, lembre-se de mim”, suplicava à minha mãe, parede e meia, Guajarina, a secretária da Prefeitura.

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SiDi

As batidas firmes da mão de pilão logo denunciavam a transformação dos torrões em pó. Cadenciados, os braços fortes de Maria cometiam esse milagre. A porção da vizinha seguia num pequeno pote de vidro que ela mesma, sem cerimônia, passava sobre o muro. E o Padre chegava à Padaria do meu pai, quatro casas depois, na mesma calçada, em tempo igual ao da garrafa térmica até ali conduzida por mim, ou pelo irmão com idade mais próxima da minha.

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Terra Minas / SiDi

Quanta falta isso me faz. Até porque me desperta a lembrança da família inteira, antes de tantas e tão dolorosas subtrações. De todos à mesa, da vida mansa, segura e tranquila. Do tempo das cadeiras nas calçadas para as conversas noturnas e da porta frontal apenas recostada à espera do marido retardatário, a fim de que a dona da casa não fosse obrigada a deixar a cama para abri-la. Do tempo, enfim, em que se podia acordar e encontrar no batente as garrafas de leite ali depositadas pelo moço da vacaria, antes do raiar do sol, sem que nelas ninguém mexesse.


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  1. Nossa que recordações legais, os detalhes iam fazendo as imagens se formar na mente. Excelente!

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  2. E chupar uma manga espada recém colhida no pé, após acrobacias mís para subir no tronco da mangueira e alcançar o galho onde esse manjar estava.

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