Depois de ler o mais recente livro de W. J. Solha, 1/6 de laranjas mecânicas, bananas de dinamite (1ª ed. Cajazeiras: Arribaçã, 2021), es...

O leitor impactado

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Depois de ler o mais recente livro de W. J. Solha, 1/6 de laranjas mecânicas, bananas de dinamite (1ª ed. Cajazeiras: Arribaçã, 2021), escrevo, não com a frieza e cálculo do crítico, mas sob o impacto da recepção. Escrevo como leitor impactado, na ânsia do querer absorver a poesia.

A arte é essencialmente estesia (αἴσθησις). A maneira como ela repercute em nós, invadindo-nos e remexendo as nossas emoções, leva-nos a definir o que sentimos diante dela. Aristóteles sabia disso e por esta razão trocou a preocupação ética de Platão com a mimese, na formação da educação da criança (παιδεία), essencial para a construção da república (πολιτεία), pela investigação da mimese como estética, procurando saber de que modo ela atinge as emoções do público espectador da tragédia e, por conseguinte,
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o leitor, ao produzir uma catarse – a um só tempo alívio, purificação e saneamento –, através do medo e da piedade.

Sim, a arte é mais para sentir do que para compreender. Sou, contudo, professor. Tenho, pois, uma necessidade de organizar, na mente, o que leio, para poder alcançar um mínimo que seja de sua compreensão, mesmo estando em plena fruição de um estado de estesia.

Solha já orienta o leitor, ao fixar o pacto arquitextual, definindo seu livro como “o quinto, de seis tratados filosófico-poéticos”. Só essa definição abriria uma larga e longa discussão a respeito do poder que tem o autor de definir ou não a natureza do que escreve. Faço questão de frisar que a discussão seria sobre o poder, não sobre o direito, pois direito todos temos de definir qualquer coisa, o que não significa que essa definição seja a mais acertada. Deixemos, no entanto, essa discussão para outra hora ou para que outros a encetem.

De início, trago duas discordâncias, que atingem a parte, digamos didaticamente, filosófica de seu tratado. A primeira delas, com relação ao que se diz sobre Platão, pela boca de seu personagem Sócrates. É certo que fazer o bem a todos e sempre é o caminho para a justiça. Pior do que receber uma injustiça é cometê-la. Mas na construção de sua Pólis, Sócrates não descarta a existência de uma teologia, cujos princípios devem ser ensinados ou não a homens que, desde a mais tenra infância, devem honrar os deuses, honrar os pais e amarem-se, não pouco, mutuamente (República, Livro III, 386a). O amor está lá, portanto, como essencial à justiça, essa virtude da alma.


O outro ponto de discordância é a respeito da tradução de “logos” (λόγος), no início do Evangelho de João, como “razão”. A nosso ver, e atentando para a estrutura desse texto, “lοgos” é o verbo/palavra, a substância que faz de Jesus um ser substantivo, essência primeira da espiritualidade e da imortalidade. De acordo como o apóstolo evangelista, Jesus é luz, pão, água, pastor, caminho, verdade e vida.

Ora, estas são discordâncias apenas do ponto de vista filosófico, estritamente atinentes a uma das partes de que se compõe o livro de Solha. Além do mais não significa que estejamos com a razão. Em nada, estas discordâncias invalidam o produto poético que Solha nos oferece, pois, como criação do espírito, tudo o que ali se nos apresenta está perfeitamente adequado.

Partamos de uma constatação engenhosa de Solha:

Poeta não é p(r)o(f)eta.

Solha nos propõe uma dupla leitura: o poeta não é poeta; o poeta não é profeta. Ao seguirmos com atenção toda a engrenagem de seu poema, vemos que, em realidade, há uma terceira possibilidade que o leitor poderá ou não descobrir: o poeta é poeta, quando se faz profeta. Expliquemos.

O poeta não é poeta, porque no sentido grego da palavra, ποιητής, poeta não tem a significação restrita que lhe empregamos literariamente. Poeta é um agente, é o que faz, o que fabrica algo material, tanto quanto o que produz um texto literário. O resultado de sua ação, o algo fabricado é o ποίημα, o poema, que pode ser uma mesa ou uma peça literária; o exercício dessa produção, aquilo que o leva a produzir é a ποίησις, a ação de criar, termo mal traduzido por “poesia”, gerando mil confusões. A ποίησις é algo intangível, tanto quanto o poema é algo tangível, a própria materialidade, resultado da ação criadora. Assim, nem todo o que cria algo, mesmo sendo poeta, no sentido literal do termo,
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Calíope ▪ musa da poesia épica
não o é no sentido literário do termo – o poeta não é poeta, necessariamente.

Hesíodo nos diz como se deu a transformação do homem preocupado apenas com o estômago (γαστήρ), preocupado em sobreviver materialmente, naquele que cria para o alimento do espírito (ποιητής). As Musas sopram na boca dos pastores e lhe dão esse poder criativo, que vai além da materialidade (Teogonia, versos 22-34) e junto ao sopro criativo segue um dos atributos das divinas filhas de Zeus: a capacidade de saber dizer o presente, o passado e o futuro – o poeta é (e não é) profeta, ainda que não seja o profeta tradicional de falar, como oráculo, pela boca dos deuses. Esta capacidade de criar e antecipar acontecimentos, seja pelo sonho, tão bem delineado por Solha, em seu livro, ao falar de Mendeleiev, de Bohr e de Mary Shelley, seja citando Enzo Paci – “Nunca estamos completamente acordados,/nunca estamos num sono completo” –, revela a visão especial do artista e também do cientista, visão que impulsiona a nossa capacidade criativa, como se fora uma profecia.

Entremos, então, no terreno da criação de Solha, como poeta, no sentido literário que se empresta ao termo. O poeta é um homem inquieto, pois sabe que a criação não para. Nesse ciclo interminável, tudo se interliga: olhares novos, olhares cediços, olhares renovadores. O olhar de Solha é sobre o humano, mais do que isto é olhar sobre a vida, esse milagre constante, que faz que sejamos contempladores, como diz Richard Dawkins, do maior espetáculo da terra. Solha, em seu livro expõe um olhar criativo e criador sobre aquilo que nos faz diferentes dos demais seres vivos, aquilo que nos dá a capacidade de criar, para a praticidade do viver e para a satisfação do espírito, por causa de nossa insatisfação de viver apenas materialmente.
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TV Câmara ▪ JP
Eis Hesíodo em cena. Nesta busca da criação, estamos sempre recomeçando, de ab ovo a ab ovo, como nos mostra o seu instigante poema.

Tudo é uma grande, incessante, contínua e sempre reiniciada viagem. É assim que vemos o poema: uma viagem, que envolve da criação biológica e a consequente evolução das espécies, à criação tecnológica e, ainda mais, à criação artístico-filosófica, sendo a arte e a filosofia as maiores expressões do refinamento da linguagem humana. Solha não faz e nem nos apresenta esta viagem sem que nos revele a existência das infinitas redes de contatos; as viagens e migrações, que nos põem em conexão com tudo e com todos. Não importa se essa viagem comporta um deslocamento material ou deslocamento do pensamento, em todos os aspectos ela é fascinante, porque a vida e suas variadas possibilidades é o que de mais fascinante tem o universo para nos apresentar. Só quem possui um horizonte de expectativa amplo, porque insaciável na busca pelo conhecimento, é que pode, como Solha, nos revelar a miríade da capilaridade dessa rede infinita.

Acreditamos ser o homem o mais fascinante dos animais, por sua racionalidade, pelo seu cérebro desenvolvido, por ser capaz de criar coisas maravilhosas, de modo a poder ir além das leis inflexíveis que a natureza nos apresenta (claro que se os animais pudessem se exprimir de modo inteligível, isto seria questionado). Em contrapartida, somos também capazes das maiores atrocidades, que destroem a natureza e a nós mesmos. Nosso cérebro incrível e nosso polegar opositor não nos livraram da insanidade e fazemos, desde muito, uma viagem de destruição, com a criação de armas letais – do ficcional, mas plausível Cavalo de Troia à real, mas implausível bomba atômica –, paralela a uma viagem artística, que teima em nos prender a uma capacidade de criar mais do que destruir a vida. Falta-nos essa consciência, no entanto. E Solha nos apresenta isto numa síntese perfeita:

Mas, no Holocausto, Mefisto também perdura em Fausto.

Em todos os aspectos, brilhante! Criamos, a um só tempo, maravilhas e atrocidades. E a criação das atrocidades são feitas, muitas vezes, dentro de uma lógica programada, como foi o Holocausto. É Da Vinci criando obras de arte inigualáveis e também projetando armas, dos rudimentares tanques de guerra a torres de assalto. Como pode o homem ser ao mesmo tempo racional e “maluco”, oxímoro que acompanha a nossa existência? O poeta capta a nítida evolução na espécie, ao produzir tecnologia sofisticada, ao mesmo tempo sem avançar na evolução humanitária:

A marcha, embora sempre pra frente, frequentemente murcha.

O que seria desalento para muitos, para o poeta é mais uma razão para seguir em frente. Não será a queda de Ícaro que nos fará parar de pensar em voar alto. Fazer a viagem é preciso, continuar a viagem é fundamental, mesmo que nos arrisquemos, aqui e acolá, a fracassos e retrocessos. Nesse processo contínuo, a linguagem e suas narrativas são partes essenciais, para que saibamos e enfrentemos as dificuldades de viagem tão turbulenta, em que arte e razão parecem tão irreconciliáveis. O poeta parece ser o homem confrangido entre os conflitos e as delícias de ser homem. Somos geniais? Sim, “...nada menos, nada mais”, mas sentimos que isto não nos basta.

Na epifania de ter-se dado conta de que tudo está interligado, “como se uma toalha me abrisse a clareira – entre seixos e um xique-xique – para um piquenique”, Solha vê-se parte integrante e inalienável de uma arte reveladora de um fantástico sistema de vasos comunicantes, assim como a vida, mas que necessita de que descubramos os seus encaixes, para que a viagem não se estagne, afinal:

Séria ou travessa, a vida É um quebra-cabeça. ............. cada coisa, simples ou complexa, a nos levar, o tempo todo, a outra, conexa,

O sussurro em Dom Casmurro e os canhões em Os sertões produzem Guerra e paz. Tudo num ritmo perfeito, que rejubila o nosso ouvido.

Todas as coisas estão integradas a um grande sistema, sujeito a marchas e contramarchas, enquanto pensarmos que a razão e o raciocínio são suficientes para nos levar à paz, à harmonia, à justiça e ao respeito ao próximo. Nessa receita, contudo, há que entrar um outro ingrediente ou o mundo explodirá e aumentará ainda mais a sua fragmentação. Solha, num poema fragmentado, mas unido pelas conexões que o sistema permite e por uma criatividade excepcional e turbilhonante, nos deixa ver além das laranjas mecânicas e das bananas de dinamite.

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É neste momento que entra o diligĕre do “Sermão da Montanha” a que Solha se refere, “como se,/ali,/estivesse/amare”. Amar está, sim, Solha, mas o amor incondicional, amor da escolha, por isto na composição do verbo diligĕre, que corresponde ao verbo ἀγαπάω, que se encontra no original grego (ἀγαπήσεις, ἀγαπᾶτε, ἀγαπήσητε, ἀγαπῶντας, Matheus, 5, 43-46), estão a preposição dis (separação) e o verbo legĕre, cujos sentidos antes de ser “ler”, compreendem o “colher” e o “escolher”. Diligĕre é, literalmente, distinguir pela escolha, amar incondicionalmente. Eis o ingrediente que falta.

Ao empreender essa viagem de fluxo incontrolável, tomando o leitor como passageiro, Solha nos proporciona a delícia de acompanhar a paisagem diversificada de sua mente brilhante. Não resta ao leitor senão o impacto diante da criatividade e da criação que se produzem infinitamente.

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