Faz bom tempo, um confrade andou perguntando “quem é esse Castro Pinto?”. Nessa mesma quadra, o prefeito de Bayeux cogitava de mudar a de...

Voltando a Castro Pinto

Faz bom tempo, um confrade andou perguntando “quem é esse Castro Pinto?”. Nessa mesma quadra, o prefeito de Bayeux cogitava de mudar a denominação do nosso aeroporto. Há pouco, a mudança foi suscitada de raspão por uma das vozes legislativas. Afinal, quem foi esse vulto que a placa do aeroporto tenta lembrar? Dei um depoimento de segunda mão, impressionista.

Mas gravei seu nome desde que li a “Epítome de História da Paraíba”, escrita por um dos filhos ilustres de Alagoa Nova, Manuel Tavares Cavalcanti, “mandada escrever na Administração do Exmo. Snr. Dr. João Pereira de Castro Pinto”. Nisto fui precoce, li nas férias de 1946 na biblioteca local, sem ninguém que me afirmasse onde caía a tônica da tal epitome

Quando tomei o ônibus da Bonfim para me acertar na Capital, já vinha, sem modéstia, com noções da minha origem, do meu povo, de sua resistência ao invasor truculento. No livrinho, empolgaram-me os capítulos da expulsão holandesa. Aluno do Grupo Escolar, ao lado do ditado, da leitura em classe e de noções da história do Brasil, era despertado para a qualidade do barro de que fora feito. E por ordem do dr. Castro Pinto. E não houve vacina que me imunizasse do contágio desse livrinho mandado escrever por um governador que ninguém se lembra das obras. Nenhuma BR-230, nenhum viaduto, nenhum Espaço Cultural.

Trouxe para auxiliá-lo José Rodrigues de Carvalho e Carlos Dias Fernandes, um identificado com a consciência mais autêntica do povo, folclorista; o outro, uma rica personalidade feita para propagar a Paraíba.

Feito governador pelo seu discurso de doutrinador, parecendo de empolgação unânime como candidato de conciliação, aos poucos foi-se vendo imprensado e moído pelos interesses insaciáveis e furiosos dos oligarcas hoje em estado de estátua. Com Epitácio de um lado e os alvaristas de outro, não sobrou vez nem espaço para pôr em prática o discurso a que todos pareciam rendidos. Qual nada! Os conciliadores terminaram se confundindo na horda dos opositores, insidiosos uns, de guerra aberta o resto, todos de combate muito mais difícil de enfrentar que os de Antônio Silvino, rei do cangaço aberto

. Os melhores perfis que fizeram dele, de boas tintas literárias, saíram, na maioria, da escrita dos contemporâneos, igualmente coevos dos algozes do mesmo convívio, aos quais, no poder, é difícil não lhes dever alguma atenção. E o retrato de Castro Pinto ganhava mais pelas tintas do reformador cultural, ainda sob a aura remanescente da retórica de Tobias, do que pela resistência dura e crua aos vícios e interesses de uma política que Inês Caminha rotulou de gangorra.

E chega, em boa hora, o mergulho paciente, fundo e organizado de Flávio Ramalho de Brito, num tempo em que a história da Paraíba já não começa pela bibliotecazinha de uma cidade do interior. Não sei se os facebooks e outros mensageiros da Internet vão gravar no arquivo dos meus netos o mesmo gênero de informações e valores. Sei que o governo de João Azevedo se advertiu disso e decretou, recentemente, a adoção do livro da Paraíba na escola.

Tal como fez com o avô José Gaudêncio, Flávio Ramalho de Brito não escreve apenas sob impressão de leituras. Investiga, apura, vai aos jornais da época, do Rio, do Recife, onde a Paraíba de Castro Pinto repercutia no esforço de fundação de uma verdadeira república democrática. Castro Pinto é preocupação, é pauta não apenas de A União, mas de O País, do Correio da Manhã, de O Jornal, do Brasil, de O Malho, que o acompanharam ao lado de Rui mesmo do partido de Pinheiro Machado no Senado.

É uma pesquisa empolgante, a que se juntam testemunhos veementes como os de Assis Chateaubriand, Octacílio de Queiroz, Oswaldo Trigueiro de Melo, tão vivos quanto o personagem principal de “O Tribuno” / Castro Pinto e sua época”, a acrescentar um apuradíssimo tratamento em busca dos fatos e valores históricos em seu real tempo. Que mais espaço eu tivesse!
Agradecimentos ao historiador Flávio Ramalho de Brito pelo material de ilustração

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  1. Ainda bem que existe pessoas como vocês em nossa Paraíba!!!

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  2. São procedimentos como esses que o amigo menciona, partidos de legisladores e administradores públicos totalmente divorciados da capacidade de governar, que nos levam aos abismos para que estamos sendo empurrados.

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