Açucena era o seu nome. Nome de flor, sua mãe havia escolhido este nome porque se lembrava da mocinha ingênua de um filme antigo e o beij...

A mulher que fazia chover

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Açucena era o seu nome. Nome de flor, sua mãe havia escolhido este nome porque se lembrava da mocinha ingênua de um filme antigo e o beijo em seus lábios trêmulos. Nunca esqueceu esta imagem. Açucena seria um nome de amor.

E como Açucena ela desdobrava seu temperamento em outros nomes: lírio da paz, flor de lis, amarílis, flor da imperatriz, íris. Tantos nomes e cores para uma menina só.

Da vida só sabia de dois lugares o lado de lá e o lado de cá.

Nunca sabia qual seria a flor do dia e nem que nome teria.

Os dias seguiam seus humores. Cresceu mudando de cor, era muito divertido.

Não adiantava se procurar olhando no espelho, era sempre uma surpresa.

Ontem amanheceu Amarílis com seu vestido estampado de amarelo, dia aberto em alegria. Voava com os passarinhos fazia careta para os micos, sonhava sob a sombra da mangueira antiga.

Quando acordava em vermelho corria acender o fogo, cantava alto músicas de um tempo de que só ouvira falar.

Antes do tempo de outono lhe vinha uma dor infinita e trancava- se em casa. Ficava triste e o céu se tornava escuro um grafite mais para cor de lápis preto e o dia de céu claro virava noite na mesma hora. Era a despedida do verão.

Suas lágrimas eram as gotas de chuva escorridas na vidraça. Chorava muito e lá vinha tempestade arrancando árvores da terra, dobrando ao meio hastes, deitando no chão as margaridas. Sem medida desaguava céu e terra, pensava ideias esquisitas, sentia nojo quando via tanto plástico rodando no chão, pedaços de lata, guimbas de cigarro, o mundo rodava por ela como uma tremenda lata de lixo.

As águas sujas vinham do lado de lá e acabavam com as flores, com a pequena horta do fundo do quintal, o bambuzal rangia num balé desordenado.

Depois o tempo fresco, céu azul sem nuvens que parecia um cristal, gostaria de ser andorinha e voar para lugares de calor e banhar seus olhos no mar, conversar com as pessoas do lado de lá e rir com elas, rir até chorar e daí cairia uma chuvinha fina feito seu riso espremido de quem não tem por hábito rir.

Com os do lado de lá aprendeu a rir por bobagem, gargalhava e vinha uma pancada de chuva que logo passava. Se esquecia de quem era. Dançava pra lua, comia o que o mar lhe dava, parecia uma flor feliz, contava estrelas no silêncio espiritual das noites rasas.

E todos a chamavam de Flor de Lis. Flutuava em um vestido de tecido fino cor de branco marfim.

Em casa viu chegar o inverno, encolhida contava os grãos de pipoca estouradas na panela, amassava o pão, coava café, fervia o leite para a coalhada. Noites longas, tecia, tecia uma manta no vai e vem de seus dedos finos.

Longe de lá era agora o lado de cá e se esquecia de tudo tinha dúvidas até do seu próprio nome seria Íris? Lírio da Paz? Flor da Imperatriz?

No meio da primavera abusava de olhar o tanto de cores que seu jardim exibia. Despregava da cadeira, se olhava no espelho, poderosa Flor da Imperatriz. Perfumava-se de jasmim, rosas, extrato de tangerina, alfazema, manacá.

Era tempo de mudar de lado, atravessar o rio. Surgiria de repente como que caída do céu no branco de um cartão postal. Andava sem procurar, o tempo era de passeio, se encantava com o tudo pode que sua alma tanto lhe pedia.

Era verão, da areia subia um calorão pelas suas pernas, sentia a sede dos cães de rua. Tinha um encontro que mesmo que sem marcar era marcado com um moço moreno de olhos de gato. Era só aparecer no mirante, atrás da igreja de um padre só há muito tempo, que não demorava muito ele aparecia do nada antes da noite crescer e as estrelas brotarem no céu.

Agora sim era a plena Açucena, flor rainha de todas as cores. Olhos que brilhavam, engolia com gosto cada primavera da vida com sabor de beijo quente. Se enredava nos possíveis caminhos do futuro, encontraria o moço?

Esperou, esperou, esperou longo tempo que não cabia nem no relógio e nem no calendário. E nada. Voltou pra casa chutando pedrinhas, tudo saíra errado, perdida entre seus nomes, quem sabe naquele dia não teria vindo a outra flor que não a esperada.

Se cansou de não estar cansada, sua casa não chegava nunca, se sentia lograda pelo destino.
Sufocada de calor, entre os seios o suor escorrido, o rosto afogueado. A taça do corpo transbordante, olhos que faiscavam o brilho intenso de um azul escuro.

Céu pesado, lá vinha tempestade, apressou o passo tinha que chegar do outro lado antes das lágrimas começarem a jorrar sem controle.

Mal pôs os pés em casa desabou água. Água barrenta, enfurecida de maldição, raivosa, sem controle.

Ela chorou por toda mentira que se mostrava como verdade. Sofria em algum lugar que não sabia onde. Se movia pela casa, uma pequena flor no meio da sala que conversava inconformada com sua sombra na parede.

Ensopada até a alma parecia uma geleia de seda embebida de saliva, virou pingo de vidraça, não um mas todos os pingos de todas as águas do mundo e cresceu lá fora até engolir tudo e todos num dilúvio.
Conto premiado no Concurso Paulo Setúbal ◆ Prêmio galardão

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