Gavetas saem da parede, armazenam letras de blues, blusas e pequenos aparelhos de jantar, feito casinhas de crianças. Ao lado, quadros e...

As paredes

Gavetas saem da parede, armazenam letras de blues, blusas e pequenos aparelhos de jantar, feito casinhas de crianças. Ao lado, quadros e uma placa de carro caída numa noite torrencial quando os céus desabaram num aguaceiro. Ela seria um futuro número da sorte? Em outro ponto, o candeeiro pende sem iluminar. E se vê espalhados jarros e plantas e o aroma de um incenso raro trazido à margem de um rio distante. Era feito beijo de hortelã que os lábios pediam.

E uma caricatura de lembranças pontilhadas semeia vozes fotograficamente pelo ambiente. Um número sopra muitas idades, enquanto a parede exala o calor do verão próximo e reforça o torpor do corpo. Enquanto isso, a mente gira inquieta, mira e pisca pelas paredes.

No mesmo nível, mais ao lado, armadores sustentam os punhos livres de uma rede a balançar musicalmente pelo ambiente, feito uma bailarina a ensaiar passos. Suspensa, ela mantém o balanço dos sonhos.

As paredes se movem. E ali uma voz conhecida jorra um solo de guitarra. O rei responde pelo duplo B e harmoniza amores e dores pela pele negra de uma terra distante, sempre acompanhado por Lucile, sua companhia. Dedos e cordas formando um só ser, muitos sons sem sair do tom.

Cravados em outras paredes, abridores pendem próximos à porta aberta, semelhante a chaveiros. Muitas garrafas abertas para festejar vidas, sorrisos e amores. A intervalos aleatórios um cão passeia pelo ambiente.

A temperatura sobe pelo meio da tarde e os corpos internos suam inertes ao giro da canção. A voz rasga silêncios e dança pelo ambiente das paredes. As cortinas não escondem interiores, apenas decoram os poemas, entremeados com pedidos de desculpa em inglês e muitos "babys".

As paredes são exposições. Cinematográficas, fotográficas, toques de amores, reatores, plantas e flores. Enquanto a rede balança o corpo, a vida, os sonhos.

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