Numa certa edição do Correio das Artes, Linaldo Guedes contou uma história que caracterizou como escândalo absurdo. História, envolvendo ...

Lições da Crítica

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Numa certa edição do Correio das Artes, Linaldo Guedes contou uma história que caracterizou como escândalo absurdo. História, envolvendo cinco pessoas, numa mesa de bar. Pessoas que se dedicam à poesia e à Crítica Literária e que, naquele instante, protagonizaram uma cena de desequilíbrio e violência.

Tal assunto estaria encerrado, não fossem as "lições" tiradas deste episódio pelo nosso editor.

Não tenho o propósito de alimentar polêmica, mas tão somente de refletir sobre a mesma realidade, a partir de um outro ponto de vista, na convicção de que a pluralidade de perspectiva contribui para o descentramento da verdade.

Enquanto lia a história contada por Linaldo, vieram-me à memória os versos de J. J. Torres:

Um bêbado passou sujo e magro Não riam. Mais respeito, garotas que brincam. De qualquer maneira é um homem triste.

Tenho este hábito de buscar a poesia para compreender a vida. Não consigo aceitar a existência, sem esta dimensão que somente os poetas logram alcançar.

Talvez, em razão destes versos, que se repetiram em minha cabeça como batidas insistentes em uma porta que se quer ultrapassar, eu tenha chegado a conclusões que não foram as mesmas do narrador.

O que mais me chamou a atenção naquela história foi a maneira própria de os quatro poetas lidarem com a agressão. Sem revidarem fisicamente, evidenciando que o homem dispõe de uma força bem mais poderosa do que a força bruta. Daquele episódio, foi única lição que ficou para mim. Complementada pela lembrança da estrofe com que J. J. Torres fecha o poema sobre o bêbado que passa:

A lua também está bêbada Todos nós estamos bêbados Neste mundo de apreensões e mentiras...

No entanto, Linaldo sai deste fato, indicador tão somente de aspectos do comportamento humano, e extrapola na exposição de "lições" conclusivas sobre a Crítica Literária. Provavelmente porque a exaltação da história vivida contaminou a história narrada, resultando em perigosas generalizações.

A Crítica Literária não se pode restringir a uma atitude individual e muito menos reduzir-se ao elogio vazio ou de conveniência.

A crítica é um saber exercitado através de séculos que, na segunda metade do século XX, atingiu um nível de competência e objetividade impossível de ser confundido com o discurso da banalidade. Crítica é leitura especializada, instrumentada pela Teoria Literária, pela História da Literatura e por outros conhecimentos que o texto-objeto exija, na decifração dos seus códigos. É análise rigorosa e conclusão fundamentada.

Criação e descoberta. Luz que ilumina o texto para revelar as armadilhas da construção e suas estruturas de sentido. Ponte que faz mais segura a travessia dos leitores que empreenderão depois a mesma viagem.

É isto a Crítica. O que escreveu Hélcio Martins sobre a rima em Carlos Drummond de Andrade. O que escreveu Ferreira Gullar sobre a poesia de Augusto dos Anjos. O que escreveu Merquior sobre João Cabral. O que escreveu Juarez da Gama Batista sobre o romance picaresco de Jorge Amado e fez Linaldo declarar que, lendo o mestre paraibano, percebeu e encantou-se com a grandeza desta fase do escritor baiano.

Apenas alguns exemplos da verdadeira Crítica que se incorpora definitivamente à história do texto literário estudado e não pode ser ignorada pelos novos leitores, tal a procedência de suas descobertas e a exatidão de suas lições.

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  1. Tive, agora - com meu último livro ( 1/6 de Laranjas Mecânicas, Bananas de Dinamite ) - uma boa experiência de crítica. Tudo começou com textos de Sérgio de Castro Pinto e Hildeberto Barbosa Filho exaltando o poema, alertando, no entanto, para o fato de exigir bastante do leitor. Houve exageros de alguns, nessa exaltação. E aí recebo pelo messenger, o breve comentário de minha sobrinha, a atriz Eliane Giardini, pedindo desculpas ao tio por não ter como dizer nada a respeito do livro, a não ser que estava acima de sua compreensão. Compartilhei isso em meu facebook, e Sílvio Osias, em sua coluna no Jornal do Comércio, publicou que ela tinha sido a única pessoa franca, porque ele não gostara do 1/6 , e "quem diz que gostou está mentindo". Compartilhei isso também, acrescentando que na verdade Eliane Giardini é culta e aquilo fora um modo de não dizer que não gostara do que lera. A partir daí, os pedidos para receber - a custo zero - exemplares da caprichada edição da Arribaçã - cessaram. Que fazer? Partir pro trabalho seguinte, e foi o que fiz. Tive pena de não ter sua análise.

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  2. 👏👏👏👏👏👏👏👏👏

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