Quantas vezes ouvi, pelo rádio, a propaganda do Phymatosan – com a mesma... canção “Daisy Bell” que vi, em 1968, o computador HAL 9000 não...

Como era longa a propaganda do Phymatosan!

nostalgia reminiscencias passado lembranca coisas antigas
Quantas vezes ouvi, pelo rádio, a propaganda do Phymatosan – com a mesma... canção “Daisy Bell” que vi, em 1968, o computador HAL 9000 não conseguir cantar até o fim, no filme “2001”, ao ter a memória destruída pelo astronauta David (numa sutil versão do embate Davi/Golias):

Daisy, Daisy, give me your answer do I'm half crazy all for the love of you Phy-ma-to-san, quando você tossir. Phy-ma-to-san, se a tosse resistir…

Como foi interminável a novela “O Direito de Nascer”, da Rádio Nacional, que minha mãe e minhas duas irmãs ouviam enquanto costuravam!
Como eram extensas as semanas entre os capítulos dos seriados de Flash Gordon, um a cada domingo, nas sessões vespertinas dos cinemas, chamadas de “matinês”!
Como eram demoradas as indecifráveis – e por isso místicas – missas em latim, e as novenas, trezenas (o hipnótico balanço dos turíbulos a espalhar lentos incensos nos espaços gigantescos da catedral de Sorocaba, da igreja de Santa Rita, da igreja de São Judas Tadeu)!

Michael Cavaion
Como eram remanchosas as procissões - com a banda de música, densa, reforçando o ressentido e respeitoso coro do povo!
Como era cansativo o Sermão das Sete Palavras, na Sexta-Feira Santa, cuja solenidade meu pai – que era carpinteiro - quebrou certa vez – corporativista - ao ouvir pelo rádio o pregador dizendo que “José, o humilde carpinteiro...”

- Humilde o que, padre burro!
Há quantos séculos não vejo uma carteira azul (em forma de envelope, com o desenho de um sol refulgente) dos cigarros “Fulgor”, que meu pai fumava!

CC0
Céus, as fotos dos artistas do cinema americano – brindes do sabonete Eucalol, com que minhas irmãs de banhavam, pra fazer a coleção – astros e estrelas como Robert Taylor e Joan Crawford, Humphrey Bogart e Lauren Bacall, Judy Garland e Mickey Rooney, além de Burt Lancaster, Betty Daves e os James Stewart e James Cagney – até o Gordo e o Magro!, todo mundo em Sorocaba cuidando de se parecer com eles nos espelhinhos circulares tirados do bolso das camisas (com brasões dos grandes times de futebol no verso), meu cunhado Homero esmerando-se no bigode fino e cabeleira à Clark Gable, minhas irmãs com tranças ou redes nos cabelos bastos.
Como eram silenciosos os nossos jantares, todo mundo calado, “porque a mesa – o velho impunha – é um lugar sagrado” - a chuva e o frio intensos lá fora -, meu pai na cabeceira, eu e meu irmão Ney – Waldeney -, num pesado banco à direita, minhas duas irmãs – Wandyr e Wilma - noutro banco igual, à esquerda (todos os móveis feitos pelo seu Fortunato Solha, operário da Estrada de Ferro Sorocabana), minha mãe – Dona Ermelinda - servindo a sopa (que fumegava até à lâmpada acesa, suspensa do teto), o grupo numa composição e pobreza que associo hoje às do “Comedores de Batatas”, de Van Gogh!

Van Gogh
ll\ Como eram longos os hiatos entre uma visita e outra ao meu avô – pai de meu pai, o português Joaquim Solha – e da sua deliciosa casa (com vasto quintal cheio de fruteiras, um caramanchão de uvas sobre o poço) na cidadezinha de Cosmópolis (ele era a cara de Charles Laughton,!), seu café da manhã, pão e vinho.
Como eram demoradas as viagens de trem, passando por cidades cheias de terrenos baldios (como nos filmes de Carlitos), percorridas (mas não muito) por fords V-8, caminhões Chevrolet-Gigantes, Citroëns, “baratinhas”, carros movidos a gasogênio (meu deus, como isso está remoto na minha memória!), além de carroças e charretes.

Dean Moriarty
Como me fascinava, nos anos 50, a progressiva beleza feminina à medida em que eu chegava de ônibus ao centro da capital paulista, as mulheres, ali - todas - de chapéu e luvas, como nas propagandas de Vida Doméstica, O Cruzeiro e Alterosa
Quantas longas madrugadas em claro, na casa onde nasci (da qual saímos quando eu tinha seis anos e meio) com os rumores noturnos das fábricas da cidade, das multidões de operários subindo e descendo minha rua nas trocas de turnos, os longos suplícios dos cavalos na íngreme ladeira que tinham de enfrentar para levar carroças cheias de verduras ao mercado, eu sofrendo com eles ao ouvi-los escorregando as ferraduras nos paralelepípedos lisos e caindo de joelhos sob o estalo dos chicotes,
Quanta longa solidão na nova casa, essa sem vizinhos, em que fomos morar, por volta de 1947, meus irmãos muito mais velhos que eu, o tempo passando a ter vácuos maiores, lacunas enormes que eu preenchia com a leitura de montanhas de gibis ou copiando os quadrinhos que me pareciam mais bonitos, minha mãe bronqueando com meus olhos vermelhos e a luz por tanto templo acesa por causa de Tom Mix, Homem-Borracha, Fantasma, Tocha Humana, Príncipe Submarino, Príncipe Íbis, Capitão Márvel, Nyoka, Tarzan, Mandrake, Nick Carter, Nick Holmes, Jim das Selvas!

Hans Isaacson
Como demoravam a chegar os natais, quando eu infalivelmente recebia um Almanaque do Tiquinho e da Vida Infantil, depois os de Vida Juvenil, eles sempre me deslumbrando... até que a minha era da inocência acabou!
E ainda dizem que a vida é curta, que o tempo voa, que não dá tempo para nada, que ars longa vita brevis, que tudo num instante passa! Bobagem, pura bobagem, incomensurável besteira! Bull shit!
Meu deus, as doze horas de viagem no turboélice pinga-pinga até João Pessoa, em 62, para vir tomar posse no Banco do Brasil em Pombal, a impressão de retrocesso que me passou o aeroporto (havia somente a pista e uma casa velha), a impressão de retrocesso na espelunca em que dormi (na escura Praça Pedro Américo), a impressão de retrocesso na antiga rodoviária, a longa viagem de ônibus (na estrada de terra) até Patos, onde estagiei por nove intermináveis meses enquanto me preparava para tomar conta da carteira agrícola da agência do Banco do Brasil, em Pombal,

onde, enfim, o ritmo de minha vida acelerou.

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  1. Meu caro amigo.
    E o anúncio radiofônico (jingle, lembra?) do Colírio Moura Brasil, cantado por Cely Campelo e Carlos José, a dizer:
    "Duas gotas,
    dois minutos,
    dois olhos claros e bonitos.
    Colírio Moura Brasil."

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