... mas algo, em mim, sempre me diz "resista" Minha primeira peça de teatro, O VERMELHO E O BRANCO, de 68, teve três ou quat...

A vida vive me dizendo ''desista''...

... mas algo, em mim, sempre me diz "resista"

Minha primeira peça de teatro, O VERMELHO E O BRANCO, de 68, teve três ou quatro apresentações e foi proibida pela Censura Federal da ditadura “por ferir a dignidade da pátria e ser capaz de sublevar os ânimos da juventude”. Morreu ali.

Meu segundo espetáculo, A CANGA, de 69, foi feito para apresentação única, a pedido da comissão organizadora local do Miss Brasil. Felizmente aconteceram outras duas montagens - não minhas - mas - por uma razão ou por outra, apesar dos elogios, não tiveram longa vida.

O SALÁRIO DA MORTE, de que fui o principal acionista, mesmo sendo o primeiro longa paraibano de ficção em 35 mm, me deu um prejuízo tremendo.

Acervo do autor
Já em João Pessoa, 1970, fazia a leitura de mesa de minha versão de Antígona, com um elenco em que figuravam Anco Márcio e Walderedo Paiva, mas o texto nem foi proibido nem, jamais, liberado.

Meu primeiro romance publicado – ISRAEL RÊMORA – começou bem: ganhou o Fernando Chinaglia de 74, foi publicado pela Record em 75, teve ótimas críticas nos principais jornais do país, mas a editora jamais quis lançar outro livro meu, “porque o primeiro levou cinco anos para esgotar a edição".

A CANGA – romance - saiu em 79 pela Moderna, de São Paulo e pela Mercado Aberto, de Porto Alegre, que jamais me prestaram conta das vendas, que não devem ter sido muitas, pois – ao contrário do primeiro romance, que tivera muito boa fortuna crítica e vários prêmios, só recebeu uma resenha, a de Nilto Maciel – que, na época, vivia em Brasília.

A VERDADEIRA ESTÓRIA DE JESUS – depois de quase um ano de espera – saiu pela Ática, de São Paulo, na mesma época, e, como estive lá, acompanhando o amigo José Bezerra, que tivera de ser levado para operação de um aneurisma cerebral no Beneficência Portuguesa, percorri várias livrarias do centro da capital paulista e vi que nenhuma tinha o livro, nem qualquer outro da série “autores brasileiros”, da editora. Não demorou que me ligassem, avisando que o estoque restante seria picotado, pra que se livrassem do encalhe, pelo que me ofereci a comprar esse saldo. Negócio fechado, no dia seguinte me ligaram dizendo que, por engano, o romance tinha sido destruído. Deduzi que os três mil exemplares contratuais jamais existiram.

Passei a me dedicar ao teatro e, também nele, o que vi foi muito barulho por nada. Viagens e mais viagens pra participar de festivais, quase sempre ... insuficientes. O palco da apresentação de A BÁTALHA DE OL CONTRA O GÍGANTE FERR em Rezende era absurdamente alto, de modo que eu, na primeira fila, não vi quase nada do que exibíamos. Em Salvador, as varas de luz eram pregadas no teto do palco, de modo que o ponto alto da montagem, em que elas eram a minha nave aterrissando pra trazer o vilão extraterrestre para o grande duelo, não aconteceu. Em Maceió, a orquestra do clube ao lado impediu que se ouvisse qualquer coisa dos quinze minutos finais da exibição. Em Sorocaba, o palco era do tamanho de uma rinha de galos e toda a movimentação de cena ficou estropiada.

Acervo do autor
Voltei ao romance e, em 1988, mandei A BATALHA DE OLIVEIROS para o concurso do Instituto Nacional do Livro, ganhei a etapa regional, depois a nacional, o livro saiu pela Itatiaia, de Belo Horizonte, ao que o velho Ascendino Leite me disse: “Animado?” E eu: “Com um pé atrás, como sempre. Por que a pergunta?” “Porque o dono da editora tem um galpão, numa fazenda, em que deposita tudo que edita. Se o autor se mexe e vende por conta dele, tudo bem. Se não, bau bau". Mas havia, sempre, uma segunda parte do prêmio: mil exemplares seriam distribuídos às bibliotecas públicas de todo o país. Aí coincidiu que a Biblioteca Nacional me requisitou para uma série de palestras – justamente em bibliotecas públicas – fui às de Manaus, Belém, Recife, Maceió e Salvador... e nenhuma jamais vira nem o cheiro desse meu romance.

Esqueci-me de dizer que nos anos 70 participei, como ator, de dois longas feitos na Paraíba: Fogo Morto e Soledade
(este a partir de A Bagaceira): repercussão zero. Mas um efeito de Soledade e do documentário O Homem de Areia – do Vladimir Carvalho, foi meu livro ZÉ AMÉRICO FOI PRINCESO NO TRONO DA MONARQUIA, pelo qual Ênio Silveira se encantou... mas me enrolou por três anos, pelo que remeti os originais para a CODECRI, que o lançou de imediato e, logo em seguida, faliu com seu jornal O Pasquim, que durou enquanto houve necessidade de uma resistência à ditadura, no país.

Por sinal, esqueci-me de dizer que em 80 saiu o LP da Marcus Pereira com a CANTATA PRA ALAGAMAR, versos meus, música do maestro Kaplan, excelente repercussão... até que o dono da gravadora se matou e todo o estoque foi recolhido. Em 97 – depois de muita maçada – saiu meu romance SHAKE-UP pela editora da UFPB. Repercussão? Nenhuma!

Em 2004 aventurei-me a lançar por uma editora portuguesa, Palimage – meu primeiro poema longo, TRIGAL CORVOS, que me comera 12 anos de trabalho. A Palimage me exigiu apoio de uma outra empresa, essa local – que foi a Imprell, que fez a edição, paga por mim – ou seja: caí num conto do vigário. A única referência ao livro, em jornais portugueses foi a de que eu era “presunçoso”, “pretencioso”, algo assim. Felizmente ganhei o prêmio da União Brasileira de Escritores com ele e uma boa quantidade de excelentes resenhas.

No ano seguinte saiu HISTÓRIA UNIVERSAL DA ANGÚSTIA pela Bertrand Brasil – do grupo Record . Com ele fiquei entre os finalistas do Jabuti, a UBE-Rio me deu mais outro prêmio, mas... quando remeti à editora os originais de ARKÁDITCH , disse-me “Não publicamos novo livro de um autor enquanto o anterior não tiver conseguido se pagar”.

Aí , em 2007, ganho o prêmio de incentivo à literatura da FUNARTE com o projeto de meu romance RELATO DE PRÓCULA, mas nenhuma editora nacional se habilitou. O José Nêumanne, que era de A Girafa, me disse que o livro não iria sair porque “ninguém está vendendo nada”, pelo que paguei para que se fizesse a publicação, mas em seguida – confirmando o que ele me dissera, a empresa fechou.

Aí passei a publicar outros poemas longos – MARCO DO MUNDO e ESSE É HOMEM, pela editora Ideia, local, de meu bolso, mas a falta de distribuição limitou a leitura desses livros a pessoas de quem eu tinha os endereços, o que – forçosamente – fez com que tudo ficasse numa pequena ilha, nesse oceano imenso que é o Brasil. Em 2012, vi uma entrevista do Affonso Romano de Sant´Anna – que me parecia ter facilidade enorme de publicar: “A Literatura vai mal: nossas maiores editoras estão sendo vendidas para outras, de fora, que não querem ver autor brasileiro nem pintado”. Depois li- numa entrevista de Nélida Piñon, que Lisboa jamais nos deu o espaço que Madri dá aos escritores hispano-americanos.

Nesse mesmo ano, uma exceção na permanente má sorte: participei como ator de O SOM AO REDOR - do Kleber Mendonça Filho, no Recife – e, confirmando vários prêmios internacionais que ele obteve, o filme foi considerado, pelo The New York Times como um dos dez melhores do mundo daquele ano.

Acervo do autor
Para confirmar a má sorte, porém, minha participação em Era uma vez eu, Verônica, apesar do prêmio de melhor ator coadjuvante que com ele obtive no festival de Brasília, vi o diretor – Marcelo Gomes ( nunca entendi o motivo ) - me omitir em todas as entrevistas que deu, na época, e meu nome não figurar no seu trailer, pelo que eu disse “Chega de cinema”.

Em 2009, uma ópera, Dulcineia e Trancoso, cujo libreto fiz para o Eli-Eri: teve umas poucas apresentações na montagem do Teatro de Santa Isabel, no Recife, outras tantas na UNIRIO e transformei a narrativa num “rimance”, que saiu pela Penalux, que permanece num certo limbo, como Marco do Mundo, que saiu pela Ideia, de João Pessoa, e Vida Aberta, de novo pela Penalux, esse... finalista de poesia do Jabuti.

Por fim, “1/6 de LARANJAS MECÃNICAS, BANANAS DE DINAMITE” que recebeu, entre outros, um grande elogio da Christina Ramalho – senhora de alentados estudos sobre a poesia épica – compensado pelo “Não gostei, e quem disse que gostou está mentindo” – de Sílvio Osias.

Como se confirmasse o autorretrato como Dom Quixote, que foi capa do Correio das Artes quando fiz 70 anos, em 2011, assino embaixo desta canção de O HOMEM DE LA MANCHA:

To dream the impossible dream To fight the unbeatable foe To bear the unbearable sorrow To run where the brave dare not go
Sonhar o sonho impossível Combater o inimigo imbatível Suportar a insuportável dor Ir aonde os bravos não ousam ir.



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