Os edifícios de hoje são próximos. Assim como no filme Uma Janela Indiscreta , somos seduzidos a espiar a janela do vizinho da frente. Mas...

A mulher do lado

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Os edifícios de hoje são próximos. Assim como no filme Uma Janela Indiscreta, somos seduzidos a espiar a janela do vizinho da frente. Mas poderia ser Truffaut mesmo, com a sua bela Fanny Ardant. Logo que cheguei aqui, passava a vista pelas janelas com as luzes acesas. Via um quarto de criança, um guarda-roupa, um varal, um gato cinza espremido entre a vidraça e a rede de proteção. Por sinal, aquele gato me intrigava. Ora eu achava que eu o olhava de longe, ora tinha a impressão de que era ele que me notava, com olhos de gato pardo.

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Gabriele Stravinskaite
E fui criando o hábito de passar em revista aquelas janelas onde havia vida por trás. Por vezes, ouvia vozes. Até mesmo brigas entusiasmadas. De casais, claro. A minha curiosidade falava alto e quando dava por mim, estava escondida nas cortinas, a preencher as lacunas das palavras grosseiras.

Numa dessas passadas, percebi uma mulher que se movimentava em vulto por aquelas três janelas que eu avistava do meu andar. Fiquei curiosa. Uma mulher mais velha, mas altiva e despretensiosamente dona de si. No início da pandemia, ela tinha os cabelos avermelhados. Ao longo desses anos tristes os seus cabelos foram se tornando brancos. Nem sei se já os tinha ou se a terra sombria os prateou. Comecei a fazer amizade silenciosa com aquela senhora. Não sei seu nome nem quem ela é. Preferi assim: a mulher sem nome.

Pela manhã, a sua janela estava sempre fechada e eu ficava a fazer filmes. Será que dorme até tarde? Teria insônia? Ou está ocupada nos lençóis? Só mais tarde abria a janela, com certeza para arejar os seus panos. E cantos íntimos. Quando aparecia, ainda estava nos pijamas, e, em algumas ocasiões, só de calcinha e sutiã. Mesmo não sendo mais jovem, tinha uma naturalidade em se fazer nua. Não sei se percebia os meus olhos de cão faminto por entre as frestas. Acho até que não.

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Karl
O silêncio dos seus dias era misterioso. Ficava imaginando como seria a sua vida. Se morava sozinha. Algumas vezes avistei um rapaz na janela do meio. Barbudo e jovem. Seria um namorado? Filho? Um agregado? Uma visita? Nunca mais o vi. Foi-se.

À noite é a minha hora favorita. Vislumbro-a com uma taça de vinho nos finais de semana. Mas, algumas vezes, essa taça troca de dia. Percebo-a perambulando pela casa. Quieta. Solitária. Senta-se no sofá e assiste à TV. Enrosca-se nas almofadas. Levanta-se. Chupa laranja-cravo. Quase sinto o perfume cítrico daqui. De gole em gole saboreia a vida. Até mesmo de água. Contemplo do meu camarote a vida em seu cotidiano. Já a vi até dançando. Com passos animados. Remexendo os quadris, acho que queria sambar alguma coisa... Só alegria mesmo.
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R. Leão
Outras vezes, vejo-a falando ao telefone. Fixo. Coisa de priscas eras... senta na cadeira de balanço. Levanta-se. Mas não dá para escutar os seus gestos, alguns em que parece preocupada ou perdendo a paciência. Fico aqui construindo a minha história dessa personagem que desfila pela janela da minha imaginação.

Outro dia escutei-a choramingar. Quase lhe ofereço um lenço. Pude vislumbrar o seu corpo que se contorcia levemente. O que a teria deixado nessa tristeza? E era lua cheia. Desconfio que sabe apreciar a prateada, pois já percebi que todo mês, quando a lua se faz assim, ela se senta na cadeira de balanço da varanda e contempla o céu estrelado. Quase ouço as suas exclamações enluaradas. E nessas noites, até mais quentes, brecho a sua nudez, que ela, esquecida, desfila pela janela desavisada. Nem preciso de binóculos para espiar o seu corpo já não tão esbelto quanto parece ter sido um dia, mas que, na penumbra da noite, ainda pulsa, ainda geme, por vezes de ternura ou cansaço ou de gozo mesmo. De longe custo a diferenciar, mas não importa. Por entre as almofadas, às vezes ela desfalece, e eu fico a me perguntar se foram os dias, ou as luas que invadem as suas noites solitárias.

Pois hoje, a vi, vestida e saltitante. Saía dirigindo o seu carro. Cabelos voando. Lépida e faceira. Mas sem janelas entre a gente. Ao vivo. Na calçada do prédio. E eu quase lhe dei bom dia. De longe, claro.

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