O velho pé de ficus ainda estava lá, agora, mais frondoso. Quando menino, escalava aquele tronco para o esconderijo de onde via sem ser vi...

O reencontro

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O velho pé de ficus ainda estava lá, agora, mais frondoso. Quando menino, escalava aquele tronco para o esconderijo de onde via sem ser visto até surpreender com uma arma de brinquedo o companheiro de esconde-esconde. “Renda-se aí” e, pronto, mais um “inimigo” saía do jogo.

Não conseguiu identificar o galho preferido numa copa então muito mais vasta. Nem pôde alcançar o ramo mais baixo dado o fenômeno da natureza que estica as árvores e encolhe os homens no transcurso das décadas. Conformado, buscou o banco da praça comprida
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e mais larga defronte à casa onde viveu até quase o fim da adolescência.

Gostava desses retornos ao passado e os fazia com emoção redobrada. Percebeu, em certa ocasião, que algumas saudades aumentam no compasso dos anos. Espicham-se juntos, assim mesmo, a saudade e o tempo.

Apenas uma coisa o incomodava em cada volta àquele recanto. Sentia-se, mais e mais, um estrangeiro na própria casa. Estavam lá, como sempre, a rua na sua moldura de fícus, duas linhas bem plantadas dessas árvores, uma de cada lado. E ali, imutáveis, também estavam as fachadas de sua meninice, os canteiros e postes da pracinha. Mas não identificava em cenário tão seu qualquer sobrevivente dos velhos tempos.

Quem por ali caminhava sem vê-lo conduzia nas veias, quem sabe, o sangue daqueles com os quais dividiu porções da juventude, a vida mais leve e livre, os melhores momentos de qualquer existência pois feitos, comumente, de brincadeiras, risos e descompromissos.

Antes disso, em apenas três distintas oportunidades havia abraçado alguém do seu distante, irrecuperável, convívio. Foi quando procurava, em domicílio e nos avós de agora, colegas do Grupo Escolar.

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Três casas e três choques. Cristina, imensa e já bisavó apesar da idade inferior à sua, foi às lágrimas numa cadeira de rodas. Paulo, magérrimo e encurvado, mal o reconheceu. Pedro, distante, abstraído, vegetava quase sem lembranças. A conversa curta com esse trio serviu, quando muito, para a identificação de algumas covas na visita ao cemitério. E, ainda, para saber quem já se fora desta para melhor no Rio e em São Paulo, destinos invariáveis daqueles jovens à procura, chegada a hora, do emprego e da boa sorte. Seriam mudanças feitas quase sem êxito, ao que lhe confirmara um primo antes de partir, este também, para a eternidade.

Valeria a pena a frequência desses regressos à terrinha que, não raramente, aborreciam a mulher e os filhos? Era o que já andava a se perguntar.

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Mas, naquele dia, o coração pediu-lhe um pouco mais de tempo no local exato de onde suas brincadeiras com os irmãos e os amigos podiam ser acompanhadas pelo olhar atento de uma mãe sempre disposta a pôr a cabeça na janela.

Lembrou-se de quando passou a trocar aquele banco por outro mais distante, na ponta estreita da praça, já perto da Igreja. A providência serviu para que os primeiros beijos da sua vida chegassem com atraso, por obra e graça da vizinhança, ao conhecimento da mãe. “Você ainda é muito novo para isso”, ouviu dela. E o pai, mal escondendo o orgulho da cria: “Comecei antes dele”. Contudo, o chamou para a advertência: “Faz besteira e quem te casa à força sou eu”.

O riso provocado por tais lembranças foi substituído pelo susto e, em seguida, pelo assombro, mesmo, com arrepios. Lá vinha Joaquim em seus 17 anos. Ele, o centroavante endiabrado que todo mundo queria no time. Como isso era possível? Joaquim com seu andar arrastado, nariz de papagaio, modos de quem não prestava para a coisa até ter a bola nos pés, vinha, de fato, em sua direção. Teria endoidado? Para lhe agravar o medo, essa figura parou à sua frente e o mirou dos pés à cabeça.

“É o neto. E joga tão bem quanto o avô jogava”, disse-lhe a alma caridosa a quem o moço acompanhava. Certamente, percebeu sua agonia e o
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tranquilizou antes que alguma vertigem o apagasse.

Foi quando nela reparou sem pronta identificação. Os traços naquele semblante envelhecido da segunda menina com quem ali já havia sentado apenas lhe chegariam aos poucos, para vexame seu, pois fora tratado pelo nome logo no aperto de mãos. “Eu te reconheci de longe”, disse-lhe.

Além da incrível semelhança física e do talento para o futebol o rapaz também havia tomado o nome do avô. Feitas as apresentações, Joaquim Neto entendeu que deixaria em boas mãos essa tia em segundo grau. Combinou que estaria de volta antes do escurecer e se foi para os lados do Coreto ao encontro da turminha.

Ah, o Coreto... No seu e no tempo daquela a quem então revia este era um lugar evitado pelas meninas temerosas dos mexericos e da reprimenda paterna. Ficava na outra Praça, a do Leite, topônimo advindo do deboche popular.

Foi este, entre risos, seu primeiro assunto com a segunda namorada. Depois, a conversa se encaminhou para a atualidade: o que a vida lhes trouxe, como e com quem viviam, que famílias constituíram. Contaram do bom casamento que fizeram e dos filhos e netos pedidos a Deus.

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E lá chegavam, de parte a parte, as informações acerca do paradeiro dos que na juventude lhes foram mais próximos. Ela, muito mais do que ele, sabia da boa e da má sorte dos velhos amigos.

Não duvidem, meus caros. Reencontros dessa natureza costumam levar ao trato de algo mais íntimo. Terminam por suscitar, em algum momento, coisas que a ninguém mais dizem respeito. Nem aos companheiros da ocasião com os quais se dividam a cama, a mesa e a filharada.

Pois bem, não foi diferente com aqueles dois no banco onde tantas vezes agarraram-se como carrapatos, no dizer de meia dúzia de Candinhas. Sabem não? É expressão popularizada na canção de Roberto. É coisa de 1965.

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Perguntaram-se, olho no olho, sobre o motivo do rompimento para disso pouco falarem. Ele não soube como contar do desinteresse crescente pelo namoro. Ela evitou a verdade: o relacionamento que já esfriara poderia ser desfeito sem qualquer trauma. A fila andaria.

Mas tudo isso não poderia ser dito assim, cruamente, a não ser no momento do desapego e, em consequência, da despedida. Nunca, de modo nenhum, entre os que se reencontram. Suspeitava, além do mais, que o tema surgira, deliberadamente, para que expressassem a lembrança mútua dos beijos ardentes e das mãos atrevidas. Em êxtase, intuiu que ela tinha a mesma percepção do rumo da conversa, pois ruborizava. Enfim, ele estava a receber do acaso muito mais do que pedira e pretendera.

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Eis que, de repente, com boa dose de remorso, pôs-se a pensar na moça que há cinco décadas levou ao altar e ainda muito nova pariu seus filhos.

Atinava, naquele instante, que o resgate de coisas do passado, se possível fosse, não traria de volta a juventude, não remoçaria a alma nem reanimaria o corpo cansado. O sopro de ventos idos, afinal, não serve aos de pouco fôlego em seus restos de vida. Então, decidiu: aquela praça não era mais sua e não mais o veria. Assim, também, aquele povo. Não havia o que fazer ali.

Joaquim Neto sentiu os tremores da tia no braço que dela apoiava os passos lentos de volta para casa. Tinha na discrição outra herança do avô e, calado, tratou de ocultar o que bem aflito percebeu. Ali, ao Sol poente, os dois caminharam em silêncio para o acolhimento e a segurança dos seus lares, parede e meia um com o outro.

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