É água, é água, é água, é água... (...)... é água... Tinha sido a última tirada de espírito em voga pela Freguesia de Santa Maria Madalen...

É água, é água...

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É água, é água, é água, é água... (...)... é água... Tinha sido a última tirada de espírito em voga pela Freguesia de Santa Maria Madalena. Datava ainda de quando arrancaram o imberbe “Capitão Berinha” ao seu quotidiano sem graça – e naquele ano sem uma gota de chuva –, para em seguida carregarem-no como ao Cristo de Bruxelas, de Ensor, no meio da pândega. Em um velho caminhão, a alegre comitiva marchara por cerca de 350 quilômetros no sentido da imensa barreira geográfica. A tão falada.

Largado no alto de uma falésia, no meio da noite, foi acordar com o dia clareando e a ligeira sensação – um quase pressentimento –, de que lhe borrifavam as costas.
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Voltou-se e viu aquele estirão azul espirrando a forte ressaca. Do local privilegiado em que se encontrava, é provável que sua primeira constatação tenha sido a de uma impossibilidade: abarcar tamanho céu num mero relance. Bateu-lhe o pasmo.

Os amigos foram apressados ao tentar extrair dele, de afogadilho, uma primeira impressão do que via. Contariam depois que lhes custou tirar-lhe do transe, que alguns minutos pareceram intermináveis, mas que foram todos ao regalo quando, finalmente, o capitão Berinha voltou a si e conseguiu resumir tudo que via na afirmação mais veemente e categórica - é água, repercutindo monótono feito onda batendo na areia - que já se fez para salientar uma obviedade do tamanho do mundo (se ali descontado de seus continentes e ilhas).

Mas entre os habitantes do lugar, aqueles mais aficionados não perdiam por esperar pela mais nova intervenção de Vac, essa longínqua deusa da fala, que vislumbrara uma oportunidade no ar trazido, não dessa vez por um bando de garotos ansiosos por conhecer o mar, mas pelas prodigiosas chuvas do ano.

Prenunciando uma safra de verão das boas para toda região interiorana, tinham já enchido mananciais, espalhado fartura e aumentado a confiança em dias melhores.

Nada devolve mais alento a uma conversa de sertanejos do que um início vigoroso de inverno pipocando em seus telhados, e é muito naturalmente que Gil Macena, espírito perdidamente progressista, naquele momento se deixe contaminar pelo vento do otimismo, ao dizer:

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A força do algodão ainda fará brotar um doutor dentro de casa.

Ninguém antes suspeitara nele a menor guarda de apreço pelo assunto, e dito como disse, bastou para chamar a atenção sobre o filho, aluno do ensino médio, matriculado num curso noturno somente possível devido a transporte diário no ônibus da Prefeitura, recentemente instaurado, e não tardaria para que a tia Beza o avisasse do sucesso da frase pela cidade, transformada no mais novo combustível desse antigo divertimento da gente do lugar.

Tudo se passou então como há mais de cem anos: a nova expressão caíra no gosto da crítica, sempre aquela mais ociosa, e, seria grande diversão pelo tempo que conseguisse esse malabarismo de ficar caindo de uma boca e se pendurando noutra.

Talvez a criação de novos verbetes populares fosse a meta do curioso esporte, que num clima de saudável anarquia semântica, buscava isolar uma expressão de seu contexto original para formar um dito, uma tautologia, dali em diante aplicável a diversos assuntos e situações. Talvez, diga-se, por que nenhuma explicação cultural, baseada em passado distante, ou no que fosse, iria amenizar o fato de Gil Macena não ter gostado nem um pouco daquelas brincadeiras.

Também não se sabe se chegou a tomar conhecimento, nos anos que ainda lhe restavam, do meloso apelido derivado da frase e posto no filho. Meu Broto era um ameno deboche, mas raspava na inevitável condição do filho adotivo, evidenciada nos traços fisionômicos e na cor da pele. Bem mais provável é, que, desde aquelas primeiras burlas (resquícios, apenas isso, de um tempo anterior à dispersão das violas1, e que resultavam de postura há muito tornada inconsciente, devido a corte abrupto sofrido pela tradição oral, e herdada embora dos antigos aedos e apologistas de cantorias, e daquele esforço que um dia tiveram de fazer seus antepassados para absorver as últimas criações poéticas nascidas dos primeiros cantadores), um já reconhecido espírito de emulação e teimosia se tenha espicaçado, e que, depois do
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ingresso do filho na faculdade, dois anos mais tarde, o tenha levado a empenhar-se como nunca no plantio e comércio das safras de algodão. Afinal, era do que dispunha para tentar manter o rapaz na Academia de Direito, em Colinas do Boqueirão.

Mesmo assim, houve sempre algum mês em que se viu obrigado a trocar o envio de mesada pelo constrangimento das desculpas, acompanhadas, como não podia deixar de ser, por promessas e palavras de exortação ao esforço. Agenor, o filho, por sua vez, tão logo se viu dono de uma concessão de ganchos para punhos de rede na Casa do Estudante, numa rua que, de dia era da feira, de noite do cabaré, tratou de ir se acostumando às dificuldades, a levar vida de estudante modesto, filho de pai - embora remediado - no sacrifício.

Itens como roupas, sapatos, livros, comprava-os todos de uma única vez, logo após a venda da safra e de acordo com as posses de momento. A renovação desses gastos, bem como a de outros, ficava para a próxima safra, mesmo quando isso não significasse dizer, rigorosamente, o próximo ano. Mas para Gil Macena aconteceria, excluídos uns poucos percalços, não ter maiores motivos para lastimar-se da sorte naqueles anos.

Naquele tempo o algodão era não somente termômetro e bússola naquela terra. Assumia proeminência sobre noções tradicionais de tempo. Safras boas e seguidas criavam depois anos indistintos, cortejados na lembrança. E ele orgulhava-se de seus valentes pés de algodão Mocó terem já produzido até em anos considerados como de seca, conseguindo a proeza de descer raízes até o lençol freático, enquanto espécies menos adaptadas esturricavam ao sol.

Cinco anos de faculdade depois, Gil Macena fecharia os olhos para o pequeno incidente na mercearia de Dega Veíno, e o faria mesmo depois de constatar o ânimo abalado do filho
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ao chegar de lá, naquele tão esperado momento de lhe trazer o diploma. Resolveu ali, no apertado da hora, não permitir que uma besteira fosse empanar seu momento de júbilo. Se a frase que disse, no soar desta nota, fora de natureza profética, ela acabara de cumprir-se. E cumprira-se - mas sem que soubesse - no apagar das luzes do ciclo algodoeiro: à época prestes a receber o traiçoeiro golpe que, por décadas, reduziria o cultivo a cinzas.

Mais que isso, porém, sentia-se de alma lavada. O feito representava, antes de tudo, a concretização de um sonho muito caro, sem falar que era o justo revide aos que um dia ousaram zombar daquele seu inocente aforismo que combinava uma safra agrícola com outra acadêmica: os eternos repetidores de bordões da terra, que eram os mesmos fabricantes de apelidos, que decoravam versos alheios, que faziam arremedo de falas. A esse respeito, tia Beza escutaria ele dizer, numa de suas tiradas, Sentei um minuto na calçada da igreja, só para ver essa juventude desperdiçar seu tempo, casando um hábito ruim a outro inútil. Em seus piores momentos, chegaria a dizer, Lavoura de desocupados, Só Deus pra dar um jeito.

Quando menino, não saberia dizer quantas vezes escutara de sua avó Mecinda que Fazer verso não dá camisa a ninguém, sempre quando se referia às dificuldades enfrentadas pelo avô dela, antigo poeta popular, e Gil Macena, apesar de seguidor à risca da lição da vó Mecinda, cujo primeiro mandamento exigia abstinência a tudo que afastasse um homem de suas obrigações diárias e mais simples, sabia que jamais teria dito a frase que disse, assim como outras que lhe vinham a mente, aqui e ali no decorrer da vida, se não carregasse no sangue o cinabre distante de Germano da Lagoa2.

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NOTAS
▪ O texto reproduz o capítulo introdutório do romance "O Verniz dos Santos Policromados", de Alberto Lacet.

1 ▪ No ambiente convulso da chamada Guerra de 30, várias famílias tiveram casas e propriedades invadidas - algumas foram expulsas -, e a repressão posterior impediu que se narrassem os fatos em versos, segundo costume local. A guerra teria sido o coup de grâce na tradição da poesia popular, que já sofria com as brigas entre famílias. Zé Limeira, um dos últimos poetas–cantadores da terra, morto em 1954, criaria um estilo para o Repente que era ao mesmo tempo fanfarrão e – convenientemente? – desprovido de lógica, antes que se calasse de vez o repique das violas, no mesmo lugar onde por vez primeira foram trazidas – pelas mãos de Hugulino Nunes da Costa – a embalar versos de improviso (N.A.)

2 ▪ Germano da Lagoa: Germano Alves de Araujo Leitão, cantador e repentista, nascido em Teixeira-Pb (1848-1904), famoso por suas disputas com Nicandro Nunes da Costa, irmão de Hugulino e Nicodemos, também poetas.

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