Amanhã, dia 29 de maio, completam-se 569 anos da tomada de Constantinopla pelos turcos otomanos, sob o comando de Maomé II (Mehmet ou Mehm...

O maior feito da história

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Amanhã, dia 29 de maio, completam-se 569 anos da tomada de Constantinopla pelos turcos otomanos, sob o comando de Maomé II (Mehmet ou Mehmed II). Trata-se, sem dúvida, do maior feito registrado pela história. Constantinopla, antes Bizâncio, foi construída pelo imperador romano Constantino, o Grande, no século IV da era cristã (330), tornando-se uma das mais poderosas cidades do mundo. Com a muralha inicialmente construída por Constantino e reforçada por Teodósio (413) e tendo uma proteção natural do mar, no entorno do Chifre de Ouro, Constantinopla era considerada uma cidade inexpugnável, ao ponto de, antes de sua queda, resistir ao assédio de 23 exércitos, que pretenderam tomá-la, e fracassaram.

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Constantinopla ▪ Século XV ▪ Fonte: Reddit
Um conjunto de muralhas espessas e fossos profundos, e uma posição estratégica e privilegiada não permitiam que os guerreiros mais aguerridos a conquistassem. Envolta em mistérios e profecias, a cidade, dizia uma delas, seria construída por um imperador chamado Constantino, com uma mãe de nome Helena, e só seria tomada durante o governo de outro Constantino, cuja mãe se chamasse Helena. Era a situação em que se encontrava Constantino XI, quando sofreu o assédio do sultão Maomé II, em abril de 1453.

A determinação de Maomé II, para conquistá-la, revelara-se desde criança. A ajuda da tecnologia de ponta da época – canhões de longo alcance e grande poder de fogo – foi determinante para minar
Constantinopla ▪ Séc. XV ▪ Embarcações navegam no Chifre de Ouro
a principal defesa da cidade, as suas muralhas espessas e bem construídas. Nada, porém, se equiparou ao mais ousado de todos os feitos: a invasão da frota turca ao Chifre de Ouro. Embora Maomé II dispusesse de uma frota maior do que o inimigo, o Chifre de Ouro, que separa o Mar de Mármara (Propontis) do Mar Negro (Ponto Euxino), protegia o acesso às muralhas da parte de trás da cidade, mais vulneráveis do que a muralha principal, construída por Teodósio. Atravessar o Chifre de Ouro era impossível, por causa de uma corrente de ferro fundido, pesando várias toneladas, erguendo-se na extensão de 800 metros, entre Gálata e o Chifre de Ouro, sempre que um navio inimigo se aproximava. Os Bizantinos, pois a cidade já se chamara Bizâncio, antes de Constantino, contavam ainda com a vigilância e o alarme da Torre de Gálata.

A ousadia da empresa elaborada por Maomé II não tem limites. Se seus navios não tinham como passar pela corrente de ferro fundido, de modo a atacar Constantinopla por duas frentes, o sultão idealiza passá-los por terra. Durantes dias, sem parar, os milhares guerreiros da marinha turca abrem uma picada na floresta, por trás de Gálata, fabricam troncos que são engordurados, para fazer deslizar melhor os navios e, em apenas uma noite, conseguem, à força de tração humana e animal, fazer passar 74 navios por terra!

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Turcos otomanos, comandados por Maomé II, transportam sua frota por terra, a partir do Chifre de Ouro. Kusatma Zonaro
Atacando a cidade de Constantino por terra e por mar, pela sua frente e pela sua parte de trás, o cerco de Maomé II vai se apertando a cada dia, com o poder de fogo de seus canhões sem dar descanso aos sitiados. Mesmo contando com mercenários genoveses, sob o comando do temível guerreiro Giovanni Giustiniani Longo, Constantino XI não consegue conter o ímpeto de Maomé II e o arrojo dos 70.000 homens que compunham o seu exército. Constantino dispõe apenas de 7.000 homens, que não demonstram a disposição turca para uma guerra santa. À espera de reforços que não chegam, Constantino, ao ver a sua cidade ser invadida, joga-se em meio à batalha, desaparecendo para sempre.

Maomé II entra na cidade, sendo saudado como o seu conquistador (Fatih), “O César de Roma”. Sua intenção era fazer de Constantinopla, que passa a se chamar definitivamente Istambul, uma cidade florescente, cosmopolita,
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Maomé II entra em ConstatinoplaFausto Zonaro ▪ CC0
a mais importante do Mar Negro e da Europa oriental, permitindo a convivência de etnias e de religiões. Ele conquistara pela força das armas, pela inteligência e pelo arrojo, a cidade que seu pai, o sultão Murade II, e seus ancestrais, desde Osman, o fundador do império otomano, não conseguiram submeter. Um feito que nem Alexandre Magno teria conseguido realizar.

Maomé II tinha apenas 21 anos, quando conquistou e fez de Constantinopla a joia turca do Mar Negro. Em pouco tempo, assim como Roma era a Urbs, a cidade, sem mais nem menos, Constantinopla deixou de ser a cidade de Constantino para ser a Cidade, vez que o nome Istambul é proveniente de uma frase grega – eis tén pólin (εἰς τήν πόλιν) –, cuja significação é, literalmente, ir para a Cidade ou estar na Cidade.

Quando ouvimos, nos tempos de escola ou em conversações posteriores, a respeito da queda de Constantinopla para os turcos otomanos, jamais pensamos na empreitada que foi realizada, capaz de empalidecer o cerco de César a Vercingetórix, que determinou o final da batalha de Alésia, na Gália de então, atual França, no ano 52 a.C., dando a vitória aos romanos. Foi um cerco em terra, com uma paliçada, para assédio dos gauleses, e uma outra, para defender os romanos dos ataques externos. Grande estrategista e guerreiro vitorioso, César jamais imaginaria que alguém pudesse fazer uma frota navegar por terra, sobre troncos de árvores...

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2022 ▪ Istambul (ex-Bizâncio, ex-Constantinopla) ▪ no alto, a Torre Gálata Ibrahim Uzun

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