Momento do almoço, mas decidiu aguardar uma fome tão atrasada quanto o trem tomado, duas horas antes, na Capital, a fim de repetir o percu...

A gema negra

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Momento do almoço, mas decidiu aguardar uma fome tão atrasada quanto o trem tomado, duas horas antes, na Capital, a fim de repetir o percurso matutino de todas as segundas-feiras até a fazendinha herdada do pai.

A parada naquela estação, a meio caminho do seu destino, teria ocorrido uns 40 minutos antes se o maquinista houvesse mantido a marcha habitual. Bem que percebera, desde a saída, os espirros mais lentos da chaminé
e o chiado do vapor liberado em lufadas mais longas e compassadas. Era como se a máquina estivesse com preguiça.

“Café com pão, café com pão, café com pão”... Os versos de Bandeira, os do “Trem de Ferro”, lhe chegaram com a ânsia dos apressados: “Voa, fumaça. Corre, cerca. Ai, seu foguista, bota fogo na fornalha”.

Mas, fazer o quê, a não ser relaxar, aproveitar o tempo, a paisagem e o entra e sai das pessoas em cada vagão. Lá estavam, como sempre, os vendedores de tapioca, cocada, castanha, amendoim, todos com freguesia cativa entre os viajantes da segunda classe. Estes dispunham de assentos duros de madeira no fim do comboio, ao contrário do seu, acolchoado e macio, em vagão mais à frente, novo e bem cuidado.

E lá vinha o moço de farda e quepe com o malote dos Correios. Encomendas, documentos, correspondências amorosas e comerciais também tomavam o trem, naquele instante, com endereços ditados pelas urgências do comércio e da indústria, ou pelas aflições do peito com suas carências e saudades.

Bem que gostava daquele movimento, estação após estação. Ora descia gente para o reencontro e os abraços, ora embarcava com o choro das despedidas. E ainda havia passageiros como ele, viajantes de percursos repetidos para a labuta longe de casa, com retornos aos fins de semana.

Não conseguia entender a razão de sua preferência, em meio a tantas outras paradas, por aquele lugar. A saleta do chefe com mesinha, cadeira, telefone e telégrafo ladeava o guichê voltado para a plataforma de embarque e desembarque, tudo em linha reta e
sob o mesmo telhado de duas águas. Por fim, a sala de espera com poucos bancos compunha, tal e qual, os traços das demais estações com aquele tamanho. E as maiores eram bem parecidas.

Algo, porém, diferenciava aquela estaçãozinha. Talvez fosse o aroma forte e gostoso das cajazeiras que por ali floresciam com certa abundância. Talvez, a encosta suave e bem próxima do morro em cujo cume se erguiam três casinhas avarandadas. Ou, quem sabe, a paisagem vista das janelas à direita do vagão em que estivesse quando no rumo da fazenda: uma linha de eucaliptos e, por trás dela, as águas mansas daquele rio. Tinha esse quadro na mente e, fosse pintor, trataria de reproduzi-lo em moldura real, concreta.

De tanto ir e vir e de tanto se enamorar do que ali via, terminou por querer bem ao moço dos Correios, ao menino da cocada, ao guarda-freios encarregado de mover a agulha para fazer seu trem tomar a linha de Pernambuco e ao chefe da estação, Seu Inácio. Aprendeu cada nome com o tempo ao escutar seus atendimentos e chamados. E passou a dar a cada um a importância atribuída ao conjunto da paisagem com seu relevo, árvores, águas, casas e cores. Nenhum deles, a seu ver, caberia fora dali. Eram todos elementos indispensáveis à composição da mesma e adorável cena.

Deu para puxar conversas curtas, da janela mesmo, antes de o trem retomar o percurso, comprar as cocadas que às vezes não comia, perguntar da saúde de um ou de outro. E passou a explicar as razões das viagens semanais aos que sobre isso perguntassem. Ele e seus interlocutores já se tratavam como velhos amigos.

Até que naquele dia de trem preguiçoso um par de olhos escuros como uma noite sem lua quase o deixou mudo. Teve o tempo do aceno e de perceber, felicíssimo, a retribuição da moça. Caminho retomado, foi para o vagão-restaurante e mal comeu do prato que lhe foi servido, apesar do bom preparo, como de costume.

A menina dos olhos negros não lhe saiu da cabeça a semana inteira. Mesmo quando tratou da venda de algumas reses, da colheita e do transporte de cana para a usina de açúcar da região. A fazenda que lhe coube por herança resultara da rejeição das duas irmãs afeitas à beira-mar e mais interessadas nos negócios urbanos da família. Pensou em vendê-la para aplicar parte do dinheiro na ampliação do escritório de advocacia que já começava a ganhar fama. Entretanto, tomou gosto pela agricultura e a pecuária de pequena extensão. Do fundo do coração, descobriu-se mais fazendeiro do que advogado e largou a cidade, a não ser nos fins de semana.

Seu Inácio, o vendedor de cocadas, o guarda-freios e o despachante dos Correios já pouco mereciam dele além do “bom dia” das segundas-feiras (se o trem não atrasasse) e do “boa tarde” quando do regresso à Capital, nas sextas, antes do pôr do sol. A dona daqueles olhos, ela sim, recebia toda a sua atenção, em suas idas e vindas.

“É sobrinha do chefe e mora na rua”, foi a resposta que obteve ao pedido de informação sobre a moça que também já não mais faltava à passagem dos dois trens. Sem intermediários, ouviu, embevecido, certo dia, daqueles lábios: “Sou Lucianita, mas todos me conhecem por Cianita, o mesmo nome daquela pedra”. Isso mesmo, tal como a gema negra, o cristal usado na limpeza de feitiços e magias.

Seu Inácio teve o prazer de recebê-lo em casa pouco tempo depois. Assim, também, logo em seguida, os pais daquele encanto de menina. Eu soube que tiveram cinco filhos.

E fico a pensar: que força misteriosa é essa que junta corpos e espíritos, sem mais nem menos, numa esquina qualquer do tempo? Tais encontros se dão mesmo ao acaso, ou tudo já estava escrito? Fosse outra a cor daqueles olhos, a pequena estação receberia um passageiro de meio percurso ali desembarcado para uma vida nova com mulher e filhos? E a paixão mal explicada pelo lugar inteiro? A alma teria percebido aquela criatura antes que os olhos a vissem?

Ninguém comigo se aborreça. É que os mistérios do mundo sempre me darão arrepios. Nunca deixarão de me surpreender e inquietar. Assim, ainda me restam outras perguntas, a fim de que as respondam os entendidos do assunto. Por ser, também, a cianita conhecida como “vassoura de bruxa”, será que tanto limpa quanto enfeitiça? Será?

COMENTÁRIOS
  1. Flávio Ramalho de brito3/6/22 07:22

    Esse é o tipo de texto em que entrelaçam a qualidade da escrita com o prazer da leitura

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  2. Isto são verdadeiros traços da vida, caro amigo.
    Quantos episódios dessa natureza e de outras ordens se manifestaram nesse viver cadenciado pelo ritmo do "café com pão, bolacha não"...
    Ascenso, Bandeira e cantadores bem retrataram a nostalgia que ora você revive com tintas tão fortes e de forma tão marcante.
    Pena que sejam apenas lembranças fugidias, pois estamos deixando se esvair nos tempos aquelas marcas que nos diziam "aqui é o Nordeste de povo forte e acolhedor".

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  3. - Grato pela observação, Arael.

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