O nome da Rosa é um dos grandes romances da contemporaneidade. As ações se passam numa abadia, na Itália, no século XIV, por volta de ...

A Vida e a Arte

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O nome da Rosa é um dos grandes romances da contemporaneidade. As ações se passam numa abadia, na Itália, no século XIV, por volta de 1323, onde haverá uma discussão sobre heresia, mas também onde ocorrem assassinatos misteriosos. O franciscano Guilherme de Baskerville (Guglielmo da Bascavilla), ali se encontra, envolvido com os dois fatos, acompanhado do noviço beneditino Adso da Melk, o narrador da história.

Diante dos crimes, que Guglielmo tenta resolver, e das confusões surgidas das discussões entre os que apoiam o papa João XXII – Giacomo di Cahors ou Jacques-Arnaud Duèze, eleito papa em 1316, em Avignon – e o Imperador Ludovico da Bavária, aquele considerado herege por este e este excomungado por aquele, se estabelece um impasse, que pende para o papa,
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tendo em vista a ação da inquisição, liderada pelo temido e temível Bernardo Guidone ou Bernardo Gui.

Bernardo já tem como presos destinados ao fogo, o despenseiro Remigio da Varigine e seu ajudante, Salvatore, personagem de destaque, sobretudo pela sua expressão linguística confusa e estropiada, “che parlava tutte le lingue e nessuna” (Primo giorno, SESTA, p. 61. Todas as referências em italiano ou traduzidas por nós foram retiradas de ECO, Umberto. Il nome della Rosa. Milano: Giunti Editore, 2017). Numa paródia de sua linguagem, eu diria que ego sono desconfiat che entre els più grandi ille sea il grandíssimo personaggio... Destina-se ainda à fogueira, uma jovem das cercanias, por quem Adso se apaixona, após uma iniciação amorosa no chão da cozinha da abadia. A jovem, considerada bruxa, pega em flagrante delito com Salvatore, è carne bruciata (é carne queimada), resposta de Guglielmo a Adso, que tinha esperança de salvá-la. Não há quem possa salvá-los, pois a briga entre o imperador Ludovico e o papa João XXII é briga de cachorro grande – literalmente, cani grossi –, ainda que passageira. Observe-se a lição que Guglielmo dá ao jovem Adso, desiludindo-o de qualquer ideal de justiça dos homens, ocasionada pela battaglia tra Giovanni e Ludovico:

“E se de fato procuras um vestígio de justiça, te direi que um dia os cachorros grandes – o papa e o imperador –, para fazer a paz, passarão por cima do corpo dos cachorros menores que se estapearam ao seu serviço.”
— Quinto giorno, COMPIETA, p. 469 —
Já no Postille a “Il nome della Rosa” (Post scriptum a O Nome da Rosa), na edição referida, Umberto Eco faz e realiza um elegante e brilhante ensaio, desvelando ao leitor, em forma de instruções, a construção do seu livro, e a maneira como se constrói um leitor. Em determinado momento, ele diz o seguinte:

"A beleza dos pactos com diabo é que são firmados sabendo-se exatamente com quem se trata. De outro modo, por que ser premiado com o inferno?"
— p. 602, tradução nossa —
As duas citações envolvem situações e intenções diferentes, sendo uma um excerto de uma obra de ficção e a outra um metatexto. É óbvio que as duas tratam de pactos, conluios e alianças que, nos livros literários e nos livros da vida sempre mostram uma face espúria. Seja para mostrar que não há ingenuidade da parte dos cani grossi, seja na política em busca do poder, seja na composição literária. De um modo ou de outro, tanto os cani più piccoli que apoiam ingenuamente os maiorais, quanto o leitor ingênuo, serão impiedosamente ludibriados e sacrificados, conforme diz Guglielmo ao abade Abbone:

“I semplici sono carne da macello, da usare quando servono a mettere in crisi il potere avverso, e da sacrificare quando non servono più.”
Os simples são carne para o matadouro, para usar quando servem a pôr em crise o poder adversário, e para sacrificar quando não servem mais.
— Secondo giorno, NONA, p. 181 —
Em relação à política, estamos cansados de saber como se enganam e se imolam os partidaristas incondicionais, muitos dos quais, diga-se de passagem, adoram ser enganados, acreditando em salvadores da pátria. Na criação literária, o ensaio de Eco sobre o próprio livro, revela que não existe ingenuidade na composição literária. O escritor sempre, ao pensar no livro, está pensando no leitor.

Apesar das diferenças das situações, mas com significados convergentes, nada impede que possamos transpor essas reflexões irônicas para a política convencional e mesquinha, sobretudo, no Brasil.

Nada imita melhor a ficção do que a vida, porque há uma verdade em ambas. Como diz Adso da Melk: “Tale è la forza del vero che, come il bene, è diffusivo di sé” (p. 35).

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