Passados quase quarenta anos , voltei a assistir ao filme Cinema Paradiso ( Nuovo Cinema Paradiso , Giuseppe Tornatore, 1988). Assum...

O fio da meada

cinema paradiso odisseia iliada homero
Passados quase quarenta anos, voltei a assistir ao filme Cinema Paradiso (Nuovo Cinema Paradiso, Giuseppe Tornatore, 1988). Assumindo a minha total ignorância com relação às artes cinematográficas, esclareço que escrevo na qualidade de cinemaníaco, não de cinéfilo; como o espectador que se deixa levar pela beleza, que não precisa de efeitos mirabolantes para se expressar. Escrevo, enfim, motivado pelo impacto da redescoberta dessa bela película, que considero uma celebração ao cinema, à literatura, à poesia e, sobretudo, à sensibilidade.
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Cinema Paradiso, dirigido por Giuseppe Tornatore, Itália, 1988: um retrato sensível da infância, da amizade e do cinema, visto pela memória de um cineasta que retorna às origens numa pequena cidade siciliana.
Quem nunca viu Cinema Paradiso, veja; quem já viu, reveja. É um espetáculo para a alma, puro êxtase, nestes tempos de insensibilidade e de manipulação da verdade.

Num movimento que vejo como natural, saio do esplendor da tela para o livro que perpassa o filme. Sinto que, agora, fica ainda mais claro para mim o diálogo com a Odisseia, em tudo por tudo, no explícito e no implícito, no dito e, principalmente, no interdito. Cinema Paradiso é, sem dúvida, uma narrativa de viagem, como o poema homérico, sem abrir mão do jogo ficcional, presente no poema grego, mas invertendo as situações, quando parte do retorno psíquico ao retorno físico, numa tentativa de o personagem Salvatore se encontrar. É a famosa nostalgia (νοσταλγία), no sentido grego do termo, trazendo na volta (νόστος) a dor (ἄλγος) de uma situação que já não existe e, por isso mesmo, impossível de ser reconstituída. Os retornos, quando existem, jamais são para o mesmo ponto. As narrativas de viagem, que os gregos chamam νόστοι (voltas), idem. Perdido, Salvatore/Totó já não tem como encontrar-se consigo próprio, no retorno a Giancaldo, na Sicília, ao saber da morte do amigo Alfredo, interpretado pelo ótimo Philippe Noiret.

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Salvatore/Totó, interpretado na fase adulta por Jacques Perrin ▪ Imdb
Comecemos dizendo que a escolha da Sicília não é aleatória, assim como a cegueira de Alfredo, na qual Totó, numa interpretação ímpar do menino Salvatore Cascio, tem uma participação incidental. Percebe-se isso com a cena do filme Ulisses (1955), de Mario Camerini, estrelado por Kirk Douglas, projetado no drive-in da ilha, recurso concebido anos antes por Alfredo, no dia do incêndio do cinema, que provoca a perda da sua visão. Não é outra a cena, senão a de Ulisses cegando o Ciclope Polifemo, em sua passagem pela Ilha Trinácria (Odisseia, Canto IX, versos 105-567), um dos nomes pelo qual a Sicília é conhecida e uma das possíveis localizações geográficas da mítica ilha dos Ciclopes, corroborada por Virgílio, na Eneida (Livro III, versos 555-681).
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Salvatore/Totó, interpretado na adolescência por Marco Leonardi ▪ Imdb
Alfredo funciona como o Ciclope da Odisseia, também no sentido inverso. Se, na Odisseia, o ciclope Polifemo está determinado a matar e devorar Odisseus e seus companheiros, fazendo-os fugir para não morrer, Alfredo, ciclope cegado, exorta Totó/Odisseus a deixar a ilha, para viver, aconselhando-o a não mais voltar.

Na sua volta física à ilha, Totó, já um rico e famoso produtor de cinema em Roma, é outro, assim como a vida na pequenina Giancaldo é outra, mudada pela vida moderna. A implosão do prédio do Novo Cinema Paradiso, que substituiu o que incendiou, é a confirmação de que a volta ao passado só é possível na memória. É nesse momento da volta que Salvatore se dá conta de que Totó não existe mais, ainda que a mãe tenha preservado o seu quarto intacto, na antiga casa, agora reformada. A vida também passa por reformas e nem sempre para melhor. Observa-se também, mais uma vez, a presença explícita da Odisseia, na cena de reencontro de Salvatore com a mãe. A vestimenta qualquer, que ela tece, se desenrola e vai se destecendo, na sua corrida para o encontro com o filho, que há trinta anos não via. Creio não ser demais ver nessa cena uma Penélope às avessas, que não tem como assegurar a permanência do filho na pequena Giancaldo.

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Jacques Perrin (Salvatore/Totó) e Pupella Maggio (Maria di Vita), em Cinema Paradiso. ▪ Imdb
A narrativa do filme, portanto, não esconde que se trata de uma viagem pelo imaginário, proporcionada pela magia do cinema, viagem que se desdobra entre física e psíquica, como ocorre na Odisseia, nos Cantos de V a VIII, em que Odisseus se desloca da ilha de Ogígia até a ilha dos Feácios, e nos Cantos de IX a XII, momento em que ele faz o relato da memória de sua viagem, desde a saída de Troia até a chegada ao reino dos Feácios, que o recebem e, extasiados com a sua narrativa, o enviam de volta a Ítaca, no Canto XIII.

Cinema Paradiso: trailer ▪ Fonte: YT eksistentialisme piano
Apesar do desencontro consigo mesmo, quando está momentaneamente em Giancaldo, para o enterro de Alfredo, Salvatore/Totó consegue recuperar um pouco de si, já de volta a Roma, no momento final do filme, que mostra a montagem de todas as cenas de beijos e das mais eróticas cortadas pelo padre Adelfio, que controlava o antigo Cinema Paradiso. As cenas cortadas e montadas por Alfredo, deixadas de presente a Totó/Salvatore, assim como a montagem das cenas feitas pelo adolescente Totó sobre a bela Elena, são emblemáticas. Trata-se da recuperação de alguma perda, promovida pela magia do cinema e, por extensão, da memória. Para alguma coisa, serviu a censura do padre, com seu frenético sininho, badalando diante do que ele considerava imoral. Sem qualquer pieguismo, é um dos pontos mais emocionantes do filme, com o cinema revelando
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Alfredo, interpretado por Philippe Noiret ▪ Imdb
a sua força e os seus segredos: o filme que vemos não é exatamente o filme que foi filmado. Aliás, não é assim mesmo na nossa vida? O que apresentamos aos outros é o resultado de um recorte. Só no escuro de nossa intimidade é que nos damos o direito de fazer a montagem dos outros momentos que se perderam ou que nós excluímos.

Cinema Paradiso é um filme que sabe tratar com maestria e sobriedade, elementos indispensáveis na poesia e na vida, as nossas perdas. A maior delas, no contexto do filme e para Salvatore/Totó, é a da bela Elena, sua paixão adolescente, que se vai para nunca mais retornar. Como não fazer a ponte, nesta possibilidade de leitura, diante de tantos elementos da narrativa homérica, com Helena, a espartana, levada por Páris, tirando-a de seu marido Menelau? É só recordar a cena da pequena fuga de Totó e de Elena, num velho carro, interceptada pelo pai da moça que, em franca atitude hostil, a leva das mãos de Totó. O velho carro, do passado revisitado pela memória, torna-se um galinheiro no tempo presente da volta a Giancaldo. A lembrança está ali, os fatos, porém, já não existem, são outros.

Giuseppe Tornatore acerta, pois, a mão, dosando a medida da beleza da vida, nas três fases de Totó/Salvatore – menino, adolescente e adulto. O fio da meada é, sem dúvida, a Odisseia, um poema que privilegia
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O menino Salvatore/Totó, interpretado por Salvatore Cascio ▪ Cinema Paradiso (1988) ▪ Imdb
a memória, fio desfiado sempre de modo transverso, na medida em que Totó/Salvatore encontra a mãe, assim como Odisseus encontra a sua no Hades (Canto XI, versos 152-224). A diferença é que Anticleia, mãe de Odisseus, está morta, é só (σκιά) uma sombra, que ganha consciência apenas ao beber o sangue sacrificial dos animais ofertados pelo herói aos deuses infernais, Hades e Perséfone. Essa situação torna o encontro de mãe e filho muito doloroso. No caso do encontro de Totó com a mãe, Maria Di Vita, ela está viva, de acordo com o que o seu sobrenome anuncia, e tecendo uma vestimenta, não uma possível mortalha para o sogro, que destece durante a noite, de modo a enganar os pretendentes, como o faz Penélope, mas com a esperança de reencontrar o filho vivo. O destecer do tecido, que a câmera lentamente acompanha, parece-nos uma resposta clara às nossas ilusões: não se retece a vida, procurando voltar ao passado, quando muito, podemos retecê-la, com a difícil perspectiva de construir um futuro, em que possamos nos encontrar e nos situar.

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  1. Anônimo7/2/26 06:57

    Texto de mestre, Milton, em todos os sentidos. Imagino se você fosse um cinéfilo e não um cinemaníaco, como você diz. Agradeço a dedicatória afetuosa. Bravíssimo! Francisco Gil Messias.

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  2. Anônimo7/2/26 12:18

    Obrigado, Gil!

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