De boca em boca , o ‘boi-da-cara-preta’ ganhava corpo e presença constante na memória sertaneja. Os que vinham de fora ouviam os adulto...

Orací e o Boi de Cuité (capítulo 5)

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De boca em boca, o ‘boi-da-cara-preta’ ganhava corpo e presença constante na memória sertaneja. Os que vinham de fora ouviam os adultos murmurando sobre a sua sombra na escuridão. Nas rodas de cordel, falava-se em rimas, versos e estrofes de cantorias de seus maus feitos e encantamentos. Entre o povo, corria a história de um par de chifres curvados, cuja forma ninguém ousava decifrar. Murmurava-se que eram como punhais cravados numa testa amaldiçoada. Os ditados populares e a sabedoria transmitida de pai para filho instruíam acerca de perigos.
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As conversas do mal-assombrado levaram os anciãos do vilarejo cuiteense a chamar os cornos do animal de “Chifres do Destino Final”.

Narrava-se que alguns dos mais arrojados vaqueiros da região desapareciam sem nenhuma explicação. Seguiam para a fazenda do Coronel dizendo que iam atrás de um berrante. Partiam com os olhos fixos no ornamento da cabeça chifruda. Revelavam que pretendiam entoar um potente aboio com os chifres do indomável, mas, depois de algum tempo, ninguém jamais soube como o mistério os havia engolido na escuridão.

Num negrume cerrado, a cara preta brilhava sob o luar, realçando a corpulência dos músculos que reluziam na vastidão do pasto. Suas patas largas sustentavam um corpo maciço com centenas de arrobas distribuídas em movimentos precisos e o seu tamanho não era desculpa para a lentidão.

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Corria um rumor invejoso de que os curtumes do Curimataú recebiam encomendas para chapéus, perneiras e gibões feitos daquela couraça rugosa. Sobre as pedras de amolar, curtidores afiavam seus cinzéis, pensando na textura animal. Fazendeiros inimigos de Sinom sonhavam exibir o troféu de um focinho preto empalado na parede com chifres envernizados em seus salões. Mas nenhum deles ousava se aproximar do rebanho: mais pelo medo do bicho do que pelo respeito a Nhonhô Sinom.

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De longe, a fera afrontava quem ousasse conter seus instintos — fosse com ração forrageira, na limpeza do curral ou na distribuição da água salobra no cocho. Sempre havia embates com os tratadores e raramente permitia aproximação amistosa.

O primeiro a temê-lo verdadeiramente foi o próprio Coronel Sinom. Caminhava com Perpétua e Ariane numa manhã, viu o desespero dos outros animais no curral: cavalos relinchavam em uníssono, porcos grunhiam excitados, cabras batiam as cabeças
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contra o cercado e os cachorros uivavam como lobos selvagens.

Convencido por Ariane, Sinom pressentia algo estranho e mágico nos gestos e sons monstruosos. Desconfiava que o desaforado os media da cabeça aos pés. Mesmo distante, o demônio marcava presença em movimentos de abaixar e levantar o pescoço, ostentando uma feição enigmática. Sua imagem incorporava uma estatura de meio-homem e meio-touro, isso amedrontava a jovem que buscava organizar um comportamento irracional:

⏤ Ouça, painho! Esse animal é sabido... Isso tem método! ⏤ exclamou Ariane.

Ao ouvir os apontamentos da filha, o fazendeiro franziu a testa e desconsiderou. Evitava ao máximo encará-lo, fosse aquilo uma fala ou não, pouco lhe importava, Sinom tinha certeza de que a besta rodeava rumores no latifúndio.

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Receoso pelos presságios, o Coronel lucrava com o aumento de seu rebanho. Mesmo em condições adversas e com toda aquela zanga, a criatura cobria quase todas as vacas, fazendo o rebanho crescer vertiginosamente.

Sinhá Perpétua continuava sendo mulher de fé e oração. Também procurava não se abalar com a cara da aberração. Pensava, porém, que aquele alarido e as manias escandalosas do maldito chamavam atenção para seus rituais noturnos: isso sim, não era algo que lhe agradava. Por vezes, teve que interromper alguns momentos de comunhão conjugal, diante dos temores do Coronel com os ruídos do tinhoso. O berro misturado ao mugido acordava todos ao redor e tornava impossível saber de onde vinha aquele barulho infernal.

⏤ Belzebu voltou a rondar o casarão e Sinhá acendeu os candeeiros... ⏤ resmungavam as anciãs das senzalas.

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Outro que morria de medo do malvado era Orací. Àquela altura, o menino já tinha ganhado perna e quando saía para brincar, vez ou outra, voltava para casa atemorizado. Tinha levado uma carreira violenta, mas escapou fedendo, deixando a fera irada no pasto.

O garoto era esperto e ligeiro. Sabia pular cerca de estábulo e porteira. Retrucava as investidas de seu inimigo com suas estripulias infantis: caretas com a língua à mostra e desaforos ensaiados com a finada mãe do bicho. Contudo, ao chegar o breu do anoitecer, acordava em pesadelos, molhado de suor pelo pavor de um monstro que bufava espanto às suas orelhas.

No terrível sonho, ele era alcançado pelo touro. Na cena, o desalmado pisoteava o menino com as suas implacáveis patas. Orací despertava chorando e não conseguia mais dormir. Naucete tentava apaziguá-lo, dizendo que quanto mais permanecesse acordado, mais pensaria no bandido. Sentando-o no colo, improvisava uma canção de ninar:

Boi, boi, boi. Boi de Cuité. Pega esse menino Que só quer ficar em pé.
Enquanto o sombrio apreendia os corações na casa-grande, Ariane levava consigo a inquietação de tudo que vira no sertão. Passou uma longa temporada estudando em São Paulo. Cursava Filosofia e Letras nas proximidades do Largo de São Bento e estava entre os primeiros a enveredar por aqueles caminhos. O pai via o talento e a ambição juvenil crescerem de longe.

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Coronel respeitado na República do Café com Leite, voz de articulação no entremeio oligárquico paulista e ligado às castas sociais europeias, decidiu enviá-la à Paris assim que concluiu o bacharelado. Embora houvesse uma intensa agitação política e social na Europa, além de rumores de guerras, o Nhonhô Sinom decidiu que a moça faria um Doutoramento em Filologia e Estudos Linguísticos com ênfase na arte da retórica e oratória.

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Disse-lhe em alta voz que isso seria bom para sua carreira: quando o tempo chegasse, estaria respirando eloquência.

⏤ Minha filha, nunca se esqueça disso: esse mundo foi fundado e sua existência provém da Palavra ⏤ falou o Coronel, vendo os olhos da jovem brilharem como se enxergasse o futuro que a aguardava.

Sempre que podia voltar para o sertão, a estudante trazia seus livros na bagagem e os ouvidos atentos para escutar histórias do “boi-da-cara-preta” na diversidade de vozes sertanejas. Em casa, porém, percebia o poder de organização que a criatura irradiava a partir de sua função pecuária, a qual sustentava senhores, senhorios e seus serviçais.

Assustada com o alvorecer, Ariane era acordada em pânico. Carregava o peso de um conhecimento que a despertava para uma realidade hostil.
Pesquisadora aplicada na comunicação e expressão — escrita, falada e pensada — notava que não havia outro elemento local capaz de gerar uma simbologia que atravessasse a cidade, a fazenda e a senzala. Dizia que enxergava, nitidamente, as cantigas que os cantadores alinhavam nos tempos de seca com os maiores feitos do animal, sobrepondo-os aos mandacarus, enquanto o touro devorava plantações e assustava o sertanejo.

A moça observava o “boi-da-cara-preta” mugindo e, naquele rumor espesso, julgava ouvir sons duros e cortados: partes mínimas de uma fala que lhe soavam como prenúncio de desordem e insujeição. Via a língua bovina mover-se como se ruminasse palavras sertanejas, articulando sentidos confusos, como se algo estivesse prestes a se impor sobre o território.

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Entre os sons da fera e os significados possíveis, surgiam nela disputas de sentido. Os mugidos pareciam mastigar um vocabulário bruto, posto sem querer, a serviço dos homens.

⏤ Muuuu! — Uhhhh... ⏤ Muuuu! ⏤ Uhhhh... ⏤ Muuuu! ⏤ Uhhhh... ⏤ Muuuu!

⏤ Escute, mainha! O tinhoso está falando. Repare na sequência, é quase como uma oração bem alinhada!

⏤ Mas minha filha... Eu não entendo nada disso ⏤ retrucou Perpétua aflita, preocupada com a sanidade da moça.

A jovem afirmava que havia uma fala primitiva, lembrando um discurso rude, repetido dia após dia como numa tradição. Impressionada com aquilo tudo, começou a reparar que, até a natureza ao redor de Cuité, se tornava disforme. Dizia que o cantar do galo fora substituído por um mugido infeliz. Assustada com o alvorecer, Ariane era acordada em pânico. Carregava o peso de um conhecimento que a despertava para uma realidade hostil.

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Numa temporada de parto coletivo, uma das vacas mugiu de modo diferente, como se entoasse o canto da morte. Isso fez o boi entrar em estado de alucinação. O brabo saltava sobre o cercado, desferia coices para todos os lados, erguia-se sobre duas patas e pisoteava o chão em revolta. Além disso, chifrava tudo o que encontrava e cuspia contra o domador perturbado, causando vergonha e destruição.

Não se sabe se foi proposital, mas numa daquelas investidas embrutecidas o reprodutor atingiu em cheio um cordeiro que balava à procura da proteção. O ‘boi-da-cara-preta’ estraçalhou o filhote com a força de fera carnívora do campo e reduziu-lhe os ossos a pó. Encontraram-no sobre os restos da cria, com os “chifres do destino” ensanguentados. A notícia de sua animalidade correu ligeira
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por todo o Curimataú e já se ouvia que era preciso levá-lo ao abate.

Foi preciso chamar o veterinário Alceu para aplicar um tranquilizante, até que o touro retornasse ao seu estado normal. Depois disso, Nhonhô Sinom refletia sobre o que fazer com a gravidade do caso. Dar cabo do bovino não era opção razoável. Não fosse a serventia em emprenhar as fêmeas do rebanho, o fazendeiro o teria mandado salgá-lo na degola e vendido na feira ao preço do charque.

Sinom procurou refúgio no embalo de sua espreguiçadeira e dormiu. Sonhou com um livro denso, cuja organização da escrita não obedecia a direções fixas nem à lógica horizontal ou vertical. O texto se sobrepunha rodopiando ao redor de um símbolo. As chaves de acesso para um caminho conhecido não eram dadas; as informações de entrada e saída dos parágrafos formavam contornos numa espiral sem fim. Quanto mais ele mudava de página, achando que havia encontrado o fio-da-meada, mais ficava desorientado. Acordou perplexo com uma imagem fixa girando em sua memória. Uma forma fechada que lhe daria o controle total sobre o aprisionamento do “boi-da-cara-preta”.

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Mandou buscar Taitale, que estava esculpindo uma rocha em Baía da Traição. Sinom encomendou ao artista um projeto de curral intrincado e robusto, do qual nenhum animál pudesse escapar sem rota previamente traçada.

E, mais uma vez, a história viva era narrada pela boca do povo na construção do maior projeto arquitetônico do estado da Parahyba: o “Curral-Labirinto”.


No próximo capítulo, o “boi-da-cara-preta” deixa de ser apenas um animal e se impõe como lenda viva: sua força, seus chifres temidos e os rumores de desaparecimentos espalham medo, fascínio e desordem, enquanto sua presença altera a rotina da fazenda, da casa-grande e do povo. Entre o receio e o lucro, o Coronel Sinom tolera o boi, mas é Ariane quem percebe algo mais inquietante: nos mugidos da fera há método, ritmo e quase linguagem, capaz de organizar símbolos, despertar a curiosidade e ameaçar a estabilidade do lugar. Quando um surto violento revela o potencial destrutivo do touro, a decisão não é matá-lo, mas confiná-lo. Resta saber se aprisionar o corpo basta para silenciar o que ele anuncia.

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