Assim que chegou à propriedade, Naucete passou a observar atentamente as rotinas de seus senhorios e o modo como se organizava o traba...

Orací e o Boi de Cuité (capítulo 4)

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Assim que chegou à propriedade, Naucete passou a observar atentamente as rotinas de seus senhorios e o modo como se organizava o trabalho diário dos que ali viviam e laboravam. Viu que ninguém ousava medir seus patrões, nem mesmo olhá-los da cabeça aos pés; raramente havia necessidade disso. Sinom não passava de um metro e setenta. Nhá Perpétua tinha alguns centímetros a mais. Já Sinhazinha Ariane existia mais nos comentários do que em corpo encarnado, aparecendo apenas nos recessos escolares.
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Além do mais, no terreiro, havia todo o tipo de ferramenta, inclusive o tronco e o grilhão.

À mesa, a fazendeira rolava um guardanapo de algodão, analisando a moça recém-chegada que se movimentava com destemida desenvoltura e não demonstrava nenhum melindre diante do tom de suas ordens. No momento em que Naucete saiu da sala, a senhora comentou com a filha:

⏤ Ariane, escute bem. Concluídos teus estudos, não voltes para cá em definitivo. Vive em Paris, e as coisas irão bem por lá. Senão, daqui a pouco, serás tu quem estará com os teus naquelas senzalas... Seremos nós as mucamas desses tipos aí. — implicou, contrariada com a decência postural que a governanta exibia. Continuou...

⏤ Os que permanecerem aqui precisarão da proteção do Divino. Deixa estar Ariane... isso não vai parar por aqui, deixa estar... ⏤ reiterou a senhora do engenho.

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Nos corredores, o escárnio manifestava-se em risos abafados atrás das portas. Olhares atravessados ridicularizavam o modo educado com que a novata conduzia as demandas que lhe eram postas e orientava as de sua linhagem.

⏤ Viram só, meninas? Agora teremos uma “capitã do mato” nos dando ordens. Foi o que ganhamos da Princesa Isabel... Os pretos passaram a dominar os pretos ⏤ replicavam as servas da casa-grande num timbre debochado.

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As orientações da governanta se perdiam; suas iguais fingiam não ouvir o que ela falava. Apressavam-se na varrição e lavagem para que não houvesse tempo, nem motivo real, para satisfação hierárquica.

⏤ Se a gente amolecer muito, brevemente teremos que carregá-la na liteira”...

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Apesar do incômodo inicial com a supervisão do casarão, depois de algumas semanas, aceitaram a sinceridade de Naucete e prestaram-lhe consideração.

⏤ Ela está protegendo a criança como se fosse sua filha ⏤ admitiam as empregadas mais influentes do grupo. ⏤ É preciso apoiá-la e protegê-la para agir à frente.

⏤ Devemos pedir desculpas à nossa irmã... ⏤ consentiram em união.

De volta aos afazeres, as tramas e os sussurros na arrumação cotidiana voltaram-se com maior ênfase contra o senhorio. Uma série de acontecimentos pitorescos mantiveram as criadas eufóricas sobre o que haveria de ser descoberto e como aquilo poderia ser usado contra quem as oprimia.

⏤ Não vai bastar baixar o fogo de Nhá Perpétua com leques e abanos ⏤ comentavam elas.

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As criadas mexericavam a respeito da vida privada da Senhora. Declaravam que, nas viagens constantes do marido, ela escondia objetos insólitos nos aposentos do casal. Haviam encontrado peças escondidas em gavetões e observavam também que, de tempos e tempos, a Sinhá adotava alguns comportamentos estranhos.

Ao alvorecer dos seus dias atípicos, ela despontava gloriosa e cantarolando do cordel regional. De bem com a vida, sorria e, até mesmo, por alguns instantes, dedicava-se a tratar suas serviçais com elegância e cortesia.

O Coronel, ao contrário, trancava-se o dia inteiro e avisava que não queria falar com ninguém. A arrumação do leito era dispensada; pedia-se apenas água fresca. O patrão só se alimentava ao cair da noite. Numa provocação curiosa, as arrumadeiras perguntavam sobre o almoço do contrito, mas a sua senhora respondia sem titubear:

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⏤ Passará o dia inteiro em jejum e penitência. Está pagando uma parte de seus pecados; cedo se dará à Providência ⏤ dizia Nhanhá, encerrando o assunto com um ar de mistério.

Aos domingos, iam juntos à missa. Padre João citava Tomás de Aquino em sua exposição:

⏤ Minhas ovelhas, devemos arrancar o mal pela raiz. Nosso coração é a fonte de onde procede todo o mal. ⏤ pregava o sábio sacerdote.

Perpétua cobria a cabeça com um véu, enrolava o terço entre os dedos e entoava sua ladainha de costume:

⏤ Santa Virgem das Virgens, rogai por nós, pecadores! Todas as santas Virgens e Viúvas, rogai por nós, pecadores...

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Sinhá encorajava as demais senhoras do engenho a enfrentar com coragem a modernidade que as desafiava. Era vista como defensora intransigente das tradições da fé. Em suas reuniões, sempre havia um intervalo de comunhão e súplica por perdão. Todas ali presentes deveriam cultivar a santidade capaz de aproximar a alma à glória do Criador.

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As mulheres ficavam extasiadas com tanta sabedoria e temor; por isso, depositavam nela sua maior confiança, chegando a revelar-lhe ambições e segredos pessoais.

⏤ É preciso vigiar e rezar sem cessar, senhoras. Como ouvimos de Seu Vigário na missa do último domingo. O inimigo quer nos devorar como um leão... Devemos resistir às tentações do diabo até o fim ⏤ exortava a religiosa.

Há tempos, Padre João queria falar com a Irmã Perpétua. Mas somente ao lhe dar a benção naquele domingo, foi que ele notou algumas marcas escondidas sob as mangas do vestido dela. Mandou chamar urgentemente o marido da Sinhá na sacristia. Recordou-lhe dos votos matrimoniais que fizera e do sofrimento da carne de uma mesma carne. Ao fim do aconselhamento, expressou sua sincera preocupação com a saúde da mulher. Orientou-o a manter-se em espírito de união e oração com a auxiliadora que o Senhor lhe dera, pois ambos eram um só corpo e deveriam lembrar dos votos feitos, tanto no amor quanto na dor.

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Mas, quando o cristão interpretou a repreensão como sendo dirigida à sua libido singular, deixou o reverendo encabulado:

⏤ Não, padre! Quero confessar ao senhor que o flagelado sou eu! As chagas que carrego jamais serão vistas em meus braços ⏤ reclamou Sinom, assumindo o peso da indulgência.

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Surpreso com a sinceridade do homem que resistia em silêncio à dolorosa mortificação dos seus desígnios pecaminosos, o sacerdote recomendou:

⏤ Meu filho, continue rezando por nossa irmã. Eu vou estar com você em oração... ⏤ incentivou Padre João.

Nas reuniões da casa-grande, a criadagem acompanhava atenta as histórias que escutava. Mesmo sem compreender todo o vocabulário que a Sinhá despejava, pressentia segredos ocultos.

O latifundiário amava o campo e, quanto mais terra possuía, mais gado ambicionava. Viajava por longos períodos, às vezes meses, ignorando os conselhos sacerdotais do seu pastor.

Com o tempo, a mulher passou a reclamar da falta de companheirismo e das demais carências da vida conjugal. Nas ocasiões em que não tinha Ariane ao seu lado, entregava-se às celebrações para espantar a solidão e partilhava suas experiências sociais com confidentes
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igualmente aflitas por atenção.

Quando o Coronel estava em casa, ouviam-se ruídos nas madrugadas, atravessando toda a edificação, chegando até os limites das senzalas. Pela manhã, Perpétua surgia vigorosa, enquanto mandava entregar água para que o devoto da casa repousasse em fastio e meditação.

Em contrapartida, nos longos períodos de ausências do esposo, era comum que a companheira viajasse à Capital com alguma dama de companhia. Contava-se depois, no casarão, que, em seus passeios, ela não ficava apenas a ver os navios ancorados até o pôr-do-sol, mas também aguardava as pequenas embarcações que cabotavam turistas vindos até das Arábias pelo Rio Parahyba, e sumia nas estalagens.

Habilidosa na política, a mulher não se levava tão facilmente pelas promessas de investimentos na República cafeeira. Contudo, imaginava que seria menos supersticioso lidar com gente de fora que buscava terra boa do que com o gado sertanejo.

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Os vaqueiros da região, cientes da ambição do Coronel, cogitavam que ele estava à beira da loucura. Perpétua, por sua vez, ocupava-se com as coisas que lhes traziam deleite e inspiração. Ademais, podia negociar daquilo que estava à sua inteira disposição.

Vindo do outro lado do oceano, obstinado em aumentar seu rebanho e garantir o monopólio regional, Nhonhô transportou um reprodutor das índias-orientais. Foi numa daquelas embarcações de cabotagem conhecidas pela esposa que o animal chegou à fazenda, acompanhado de alguns outros bezerros sedentos, para
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um teste de procriação induzida.

O latifundiário ordenou ao veterinário Alceu, seu pretenso genro, que incentivasse e fiscalizasse a cruza do boi com as suas vacas sertanejas. Acreditava que dali nasceriam animais resistentes às pestilências do Nordeste e que o rebanho se multiplicaria em pouco tempo; possibilitando carne fresca e macia, assim como o melhor couro de raspa.

Enquanto isso, as mucamas mais velhas, cientes das dificuldades relacionais que sua ama enfrentava, espalhavam maledicências contra os planos do patrão. Murmuravam que se algo saísse daquele rebanho seria criatura desnaturada: um bicho tinhoso ou coisa enviada pelo próprio Galhardo da sem-vergonhice.

Afirmavam ainda que os sinais do Coisa-Ruim haviam sido prenunciados em muitas noites de assombração e em muitos dias de abandono. Especulavam, em pares, que o Coronel cairia do cavalo em breve — com arreio, mas sem estribos.

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Debaixo de presságios e maldição, Nhonhô retornou em definitivo para iniciar a temporada oficial de cruzamento do animal com sua manada, mas teve um pífio resultado e apenas uma vaca de seu rebanho ficou prenha. Velha, com as costelas à mostra, abatida e toda desmantelada, parecia incapaz de gerar o garrote pretendido pelo fazendeiro.

Os nove meses de agouro que pairavam sobre a propriedade ganharam pessimismo. Veio a notícia de que a vaca morreu ao dar à luz e deixou o ordenhador desnorteado. Ao contrário do aguardado, no último sopro de vida, a mestiça pariu um bezerro tão forte que já trazia os tocos dos chifres pontudos em cima da cabeça.
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A cria ficou em pé na primeira luz do dia e nasceu em desvio de todos os outros: tinha grandes olhos que brilhavam no escuro, corpo malhado e uma larga focinheira preta.

Logo nos primeiros dias, mamou em quase todo animal de quatro patas que produzia leite. Sua fome era tamanha que ao terceiro mês foi preciso recorrer a alguns amigos de criação para conseguir laticínios frescos para saciar o apetite do mamífero guloso e colossal.

Desmamado, comia tudo quanto era capim, mas indicava preferência pelo xique-xique que mastigava o caule e regurgitava espinho. O couro da criatura pegava forma abrolhosa e o animal crescia mais rápido do que o menino Orací.

Nos primeiros anos, a fera corria desembestada atrás do garoto nos campos de Cuité e, nos arredores, todos diziam ouvir mungidos como um berrante trovador. O povo local deu-lhe o nome de “boi-da-cara-preta”.
No próximo capítulo, o “boi-da-cara-preta” deixa de ser apenas um animal e se impõe como lenda viva: sua força, seus chifres temidos e os rumores de desaparecimentos espalham medo, fascínio e desordem, enquanto sua presença altera a rotina da fazenda, da casa-grande e do povo. Entre o receio e o lucro, o Coronel Sinom tolera o boi, mas é Ariane quem percebe algo mais inquietante: nos mugidos da fera há método, ritmo e quase linguagem, capaz de organizar símbolos, despertar a curiosidade e ameaçar a estabilidade do lugar. Quando um surto violento revela o potencial destrutivo do touro, a decisão não é matá-lo, mas confiná-lo. Resta saber se aprisionar o corpo basta para silenciar o que ele anuncia.

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