Uma crônica sobre o tempo, a riqueza e o saber
Dessa vez éramos sete, reunidos à mesa, amigos, apenas amigos, verdadeiramente alguns se chamam irmãos, pois os laços firmes de uma fé fraternal os unem por uma vida. Confesso aqui meu desenfreado interesse nessa reunião mensal, oportunidade única de uma conversa frutífera e onde sempre posso testar algum preparo da gastronomia com irmãos sinceros.
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Foi quando surgiu a visão de que o tempo nos escapa, os bens pesam sobre a mente que não sossega, e isso não é problema exclusivo de monges, filósofos ou grandes executivos. É a matéria bruta de toda existência, em qualquer época, em qualquer lugar, que assola e perturba até o mais simples dos homens. Tínhamos à mesa quem defendesse Agostinho como o que melhor discutiu isso, quem apostasse em Francisco, e quem não deixasse de esboçar a visão segundo Josemaria.
O certo é que Agostinho, Francisco e Josemaria enfrentaram essas mesmas forças. Cada um à sua maneira, cada um com suas contradições, cada um com sua originalidade. Mais do que biografias edificantes, oferecem mapas de como viver, com ênfases diferentes de uma mesma busca. O que está em jogo não é religião institucional. É o que fazer com o tempo que se tem, com o dinheiro que se ganha e com a inteligência que se herdou.
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Outro à mesa trouxe Francisco. Ele não escreveu tratados sobre o tempo, viveu uma teologia do hoje. Em seu Cântico das Criaturas faz um hino ao presente absoluto, o sol, a lua,
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Já Josemaria, alguém lembrou, que ele faz uma mescla e costura essas visões. Reconhece que a vida é um caminho temporal e que exige direção, sabendo que o presente é o único lugar onde se pode amar a Deus. Mas vai além, pois para Escrivá cada instante carrega uma vocação. O tempo não é apenas memória nem apenas louvor, é um chamado. A santidade está em fazer bem o que se tem entre mãos, agora, e isso exige aprender com o passado, agir no presente e mirar o futuro. Não é fuga nem dispersão. É tensão criativa entre os três tempos.
O vinho ia pela metade quando a conversa virou para os bens. Da riqueza, Agostinho faz a primeira distinção necessária, usar e gozar. Os bens materiais existem para serem usados como meios, jamais gozados como fins. Antes da conversão, ele mesmo buscou a verdade através dos bens, era professor de retórica, ambicionava carreira. A conversão não o empobrece, reordena os afetos. A riqueza não é má,
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Com Francisco a riqueza perde a sutileza e ganha o corpo. Para ele, a pobreza é senhora e esposa, Domina Paupertas. O gesto de se despir na praça pública não é símbolo, é declaração de guerra ao possuir. Mas o desprendimento franciscano não é mero ascetismo, é libertação para a fraternidade universal. Ao não ter nada, Francisco pode chamar o sol de irmão, a lua de irmã, e abraçar o leproso que todos evitam. A riqueza não apenas pesa, ela cega, impede a comunhão com o mundo.
Já Josemaria oferece o contraponto mais sutil e, talvez, o mais desafiador para o homem moderno. Não prega a pobreza material como Francisco, prega o desprendimento do coração em meio à abundância. O empresário, o gestor, o profissional são chamados a administrar os bens como bons administradores, não como proprietários. A riqueza bem gerida é instrumento de serviço, de criação de emprego, de sustento de famílias. Para Josemaria, o desprendimento mais difícil não é o que leva ao convento, é o que permanece no escritório usando o dinheiro com retidão e generosidade.
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Com Francisco a inteligência muda de forma, não de essência. À primeira vista parece um anti-intelectual, não estudou, não escreveu tratados, não fundou escola teológica. Mas seu intelecto opera por analogia poética,
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Já Josemaria retoma Agostinho, mas com os pés no chão do escritório. Para ele, o intelecto é ferramenta de santificação. Estudar, planejar, gerir com excelência, tudo isso é oração intelectual. A busca de Deus não está apenas no recolhimento monástico nem na contemplação poética da natureza, mas no uso excelente da inteligência no trabalho profissional. O professor que prepara bem a aula, o gestor que estuda a fundo um relatório, o engenheiro que projeta com precisão, todos estão, à sua maneira, buscando a Deus. É uma espiritualidade laical e intelectual que dialoga com o homem contemporâneo de forma direta, não é preciso largar a profissão para ser santo, é preciso santificá-la.
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Os três não oferecem receitas incompatíveis. Mostram ênfases diferentes de uma mesma busca. Agostinho estrutura o edifício teológico. Francisco dá o testemunho radical da liberdade interior. Josemaria mostra como viver tudo isso dentro do mundo, sem sair dele, administrando empresas, escrevendo livros, dando aulas, pagando contas. O tempo, a riqueza e o intelecto são as três grandes tentações e os três grandes instrumentos da vida humana. Cada santo respondeu a eles com a linguagem do seu tempo e da sua vocação. A pergunta não é "qual caminho seguir?", mas "como aprender com os três?".
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As taças receberam mais vinho, o primeiro charuto já se foi, ainda nos deliciávamos com um salteado suíno e maçãs ao masala quando a conversa seguia pela noite. Não chegamos a receita nenhuma. Saímos apenas com três mapas e uma certeza...















