No Dicionário de Aurélio , tratando com eufemismo, conga “é prêmio a que tem direito o proprietário da casa de farinha pelo produto de...

Para onde foi o cambão?

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No Dicionário de Aurélio, tratando com eufemismo, conga “é prêmio a que tem direito o proprietário da casa de farinha pelo produto de outrem ali fabricado”. Coisa que deve ter ido buscar no Dicionário do velho Moraes, em paz com o latifúndio e a escravidão.

Mas foi contra sujeições como a da conga que surgiram, prosperaram e se levantaram as Ligas Camponesas, deflagradoras da maior conflagração do Nordeste camponês, esmagada violentamente pelo regime militar de 1964.

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De todas as sujeições, o cambão era a pior. Cambão, que está na última versão dos dicionários gerais como “peça de pau que se junta ao cabeçalho do carro puxado por mais de uma junta de bois”, significado que ignora o sentido do vocábulo usado no Nordeste da cana-de-açúcar como os dias de trabalho dados pelo camponês ao senhor da terra, pelo direito de “morar num casebre e plantar culturas de subsistência ao seu redor”. Podia ser um, dois, três e até quatro dias de sujeição, obrigação, condição, como acusa Assis Lemos, em seu Nordeste: O Vietnã que não houve.

O cambão acabou? Suponho que não, adquirindo, com a evolução de algumas conquistas sociais, outro formato. A denúncia, o protesto, o ímpeto de vir à tona na imprensa, no rádio, na televisão se esvaíram depois da repressão, no êxodo em massa do trabalhador rural para as pontas de rua, os aceiros das escarpas inabitáveis, trocada a enxada de enfrentar o eito pela flanela atraída por 400 mil automóveis colados às garagens e calçadas de uma cidade que ainda não alcançou 1 milhão de habitantes. Um automóvel para cada dois habitantes, média igual ou superior à de muitas capitais europeias.

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O campo, entre nós, mesmo na região brejeira de maior densidade demográfica, é hoje um mundo de casas fechadas, desde a do morador à casa-grande do proprietário. Em minha Alagoa Nova, a cidade que deixei restrita à colina desce, umas cinco vezes maior, capoeira abaixo, rural e urbano num mesmo espaço geográfico. No meu último retorno, não tive a quem dar bom-dia por todo o trajeto que vai da cidade ao nosso antigo engenho, até encostar nas águas do Riachão, que nos separam das terras de Areia.

Com que mãos vem sendo feita a agricultura da roça, desses ticos que constam da estatística, onde a rapadura, a mandioca e o fumo imperavam?

Na verdade, se isto me inspira uma página de saudade, conforta-me verificar que muita coisa se obteve pelo cano ladrão nesses últimos vinte anos de política social, cada vez mais odiada pelo bilionarismo financeiro local e internacional, com intromissão aberta ou disfarçada nas políticas nacionais, tema oportuníssimo tão bem tratado por artigo recente do professor Cidoval Morais de Souza, com meu particular proveito por ele pontificar semanalmente no jornal A União.
  Publicado hoje, 02/08/26, no jornal A União

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