Mostrando postagens com marcador João Batista de Brito. Mostrar todas as postagens

Cumprindo a sina de professor, de ginasianos a pós-graduandos, já ensinei a toda espécie de alunos, e tive turmas as mais variadas. Mas,...

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Cumprindo a sina de professor, de ginasianos a pós-graduandos, já ensinei a toda espécie de alunos, e tive turmas as mais variadas.

Mas, com certeza, uma das mais divertidas foi a de “Português para estrangeiros” – Portuguese for foreigners — que assumi na UFPB no primeiro mês do ano de 1977.

Nos filmes que amo, amo tudo, até os personagens mais secundários. Em “Janela indiscreta” (Alfred Hitchcock, 1954), por exemplo, adoro uma...

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Nos filmes que amo, amo tudo, até os personagens mais secundários. Em “Janela indiscreta” (Alfred Hitchcock, 1954), por exemplo, adoro uma personagem da qual ninguém lembra, ou nem sequer sabe que existe. É a “senhorita coração solitário”.

Não faz muito tempo que conheço Américo — talvez uns dez anos. Casualmente, ele às vezes aparecia numa roda de amigos com quem costumava m...

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Não faz muito tempo que conheço Américo — talvez uns dez anos. Casualmente, ele às vezes aparecia numa roda de amigos com quem costumava me encontrar na orla. Encontros extintos pelo advento da pandemia.

Modesto, mas sempre bem arrumadinho, roupa engomada, camisa ensacada, cinto apertado, sapatos lustrosos, nunca sem meias, cabelo bem penteado, voz baixa, discreto,

Domingo passado, após o almoço, fui, como de hábito, fazer a sesta no terraço de casa, contemplar o meu álacre jardim, enquanto degustava ...

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Domingo passado, após o almoço, fui, como de hábito, fazer a sesta no terraço de casa, contemplar o meu álacre jardim, enquanto degustava uma deliciosa sobremesa. Uma cenazinha pacata do cotidiano, mas, como nos lembra o poético Yasujiro Ozu, “a rotina tem seu encanto”.

Pois logo o encanto foi quebrado. Vinda de uma das casas vizinhas, uma música alta tomou conta da tarde.

Matando o tempo, dou andamento a esta série, cujo primeiro item foi o comentário do livro “Paulo Francis – Diário da Corte”. Agora é a ...

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Matando o tempo, dou andamento a esta série, cujo primeiro item foi o comentário do livro “Paulo Francis – Diário da Corte”.

Agora é a vez do romance “O DIA DOS CACHORROS”, do escritor paraibano e amigo Aldo Lopes.

A moça que recebe a visita de um anjo truculento e malamanhado, chamado Xandão, e é acometida de uma gravidez imaginária; o homem que vendia caro as partes do seu corpo, pois era detentor natural — dom divino — de preciosos ossos de marfim;

Escritor, poeta, romancista, artista plástico, compositor, dramaturgo, ator, ensaísta, esteta: em Waldemar José Solha a versatilidade é os...

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Escritor, poeta, romancista, artista plástico, compositor, dramaturgo, ator, ensaísta, esteta: em Waldemar José Solha a versatilidade é ostensiva, ainda mais porque ocorre de forma orgânica: sua poesia é teatral, seu teatro é poético, sua ficção é plástica, sua pintura é ficcional, e assim por diante. Se isso impressiona, também o faz a sua grandeza, em todas as acepções da palavra. Refiro-me com isso a sua vasta temática e a rica expressão dela, ou para ser mais exato, ao modo grandioso como se casam. Erudito, enciclopédico, múltiplo, e ao mesmo tempo, inventivo e ousado, Solha não é apenas planetário, mas cósmico.

Diz o calendário que dia 21 de fevereiro é o Dia Internacional da Língua Materna. Se há fundamento nisso, não sei, mas, se houver, este seri...


Diz o calendário que dia 21 de fevereiro é o Dia Internacional da Língua Materna. Se há fundamento nisso, não sei, mas, se houver, este seria o dia de todas as línguas do mundo, pois cada língua isolada é mãe de uma raça inteira.

E raça, a gente sabe, é um bichinho etnocêntrico que acha belo o que possui e o resto... bem, o resto seria feio.

Foi nesse defeito etnocêntrico que Edgar Allan Poe se baseou pra escrever o conto “Os crimes da rua Morgue”.

No conto – vocês lembram bem - o terrível assassinato só é desvendado pelo astuto detetive Dupin a partir dos depoimentos dos hóspedes do hotel. Esses hóspedes, estrangeiros de países diversos, afirmam, cada um a seu turno, ter ouvido, na noite do crime, uma voz se expressando em língua alheia à sua. Um alemão diz que ouviu francês, um francês diz que ouviu italiano, um italiano diz que ouviu inglês, etc.

Ora, ao ser desvendado o caso, fica-se sabendo que quem matou a pobre moça foi, na verdade, um orangotango, e, portanto, o que os hóspedes do hotel ouviram eram grunhidos do animal enfurecido.

E por que atribuíram a línguas estrangeiras? Simples: por motivos preconceituosos, ou seja, porque cada um deles achava muito feias as línguas alheias, as que supunham estar ouvindo. E foi justamente esse princípio da – digamos assim – “etnofobia” que ajudou Dupin no desvendamento do acidente.

Sempre me intriguei com o conto de Poe, e relembrei-o agora por causa da data.

Afinal de contas, a língua materna é bela e as alheias são feias – será que é assim mesmo?
Não que o conto de Poe seja inverosímil, mas eu, pessoalmente, acredito que toda língua é bela, e se a gente não acha é por causa de nosso intrínseco etnocentrismo. O russo, o chinês, o sueco, o tupi-guarani me parecem esquisitos, mas, creio que tenham lá suas belezas, que meu ouvido etnocêntrico não está apto a captar.

Aliás, nós, brasileiros, temos orgulho em afirmar que o Português é belo, mas, a rigor, a língua mais difícil de ser esteticamente julgada é exatamente a materna, pelo simples fato de que, falantes nativos, temos dificuldade de apreciar sua eventual musicalidade, sejam quais forem suas qualidades estéticas.

Vejam bem. Ao ler em voz alta que minha língua é a “última flor do Lácio, inculta e bela, és a um tempo, esplendor e sepultura, ouro nativo que ganga impura a bruta mina entre os cascalhos vela” fico confiando que Bilac tem razão, que o Português é mesmo lindo, e tudo mais... Mas é quase uma questão de fé. E, na minha impossibilidade de julgar, imaginando como será que o Português soa pra um ouvido estrangeiro.

Uma vez, tive um depoimento que quase valeu. Com bolsa de pesquisa da Fulbright, eu estava residindo nos Estados Unidos e, como o alojamento de minha universidade fechou para férias, fui morar por uns tempos com um amigo brasileiro, de Minas. Um certo dia, estávamos nós, digo eu e meu amigo mineiro, fazendo a feira da semana, num pequeno supermercado de Bloomington, Indiana. Discutíamos à vontade sobre o que levar, ou não levar, talvez falando um pouco alto. Na hora do pagamento, a moça do caixa, muito sorridente, nos disse que “your language is very beautiful”. Ficamos alegres de saber que uma americana achava bonita a língua portuguesa, mas só ficamos até certo momento, pois logo ela acrescentou que sempre achou o “francês” uma língua muito bonita.

Tudo bem, não era francês que falávamos, mas o amontoado de sons que a moça americana ouviu, ela achou bonito, e suponho que isto vale.